Histórias de Terra e Céu

Mendoncinha e a lei “inconstitucional” da erva-mate

Foto: mapio.net

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Na conversa da semana passada contei sobre o “barraco” na política são-mateuense envolvendo Bernardo Wolff, Hezyr Hultmann, Eduardo Sprada e Ledy Roderjan, todos políticos e nomes de rua em nossa cidade. Hoje vamos falar sobre outra personalidade que se tornou nome de rua: Mendoncinha. Você nunca ouviu falar que a cidade tem uma rua em homenagem ao Mendoncinha? Embarque comigo nesta história!

Mendoncinha nasceu em 22 de novembro de 1927, era filho de Arminda Rodrigues de Lima. A certidão de nascimento registrou seu pai como “incógnito”, mas sua mãe passou a viver com o lavrador Francisco da Rosa Mendonça, e o menino recebeu o apelido de Mendoncinha. Levaria 30 anos para que Francisco oficializasse Mendoncinha como um filho, que passaria a adotar o sobrenome “Mendonça” do pai adotivo, mas manteria o “de Lima” da mãe como último sobrenome (algo raro até os dias de hoje). Ah, poucos sabiam o nome verdadeiro do Mendoncinha, mas era Ozy Mendonça de Lima.

O rapaz simples e alegre, com menos de 30 anos concorreu a vereador em São Mateus. Os tradicionais políticos criticavam o garoto, pois seus discursos não tinham “fricotes”, numa época em que um bom político era aquele que falava palavras bonitas. Em um jornal da época é citada a “falta de borboletas coloridas” nos discursos de Mendoncinha. Acontece que o garoto surpreendeu a todos e foi o mais votado da cidade. Na década de 50, quem quisesse ganhar votos em São Mateus, precisava se aliar com o Mendoncinha. O próprio governador Ney Braga fez isso, e depois levou Ozy Mendonça para uma função na Secretaria de Interior.

Entre as tantas histórias de Ozy Mendonça na política são-mateuense, há uma em especial que ficou marcada. Apesar de ser muito popular na cidade, Ozy Mendonça sofria na Câmara de Vereadores, pois a maioria dos seus colegas era do partido de oposição ao seu. E quando essa maioria apresentou um projeto que traria enormes prejuízos aos produtores de erva-mate, beneficiando uns poucos amigos destes vereadores, Mendoncinha discursou, argumentou, mas nada fazia seus colegas desistirem do projeto. Finalmente, no dia em que a lei seria aprovada, poucos minutos antes da votação, Mendoncinha pediu a palavra e decretou: “Senhores, este projeto é inconstitucional! Fere dispositivos expressos no parágrafo primeiro do artigo 55 da lei nº 329 de 04/08/1952”, e seguiu com longo discurso, desta vez com belas palavras, mostrando como a referida lei impedia a aprovação do novo projeto. A oposição, frustrada, retirou o projeto. Só muito tempo depois Mendoncinha revelou que a tal lei nunca teria existido.

Mendoncinha casou em 1950 com Zulmira Leonardi Alge. Sua mente brilhante lhe permitiu galgar cargos na política de São Mateus e depois em Curitiba. Mas, com apenas 36 anos, sofreu um acidente de automóvel em General Carneiro, e faleceu no hospital de União da Vitória, por uma grave fratura no crânio, no dia 07 de abril de 1964. Foi enterrado no Cemitério de São Mateus e, por ironia do destino, ele que preferia o apelido “Mendoncinha”, acabou tendo o nome completo eternizado na principal avenida da cidade. Avenida Ozy Mendonça de Lima, mas pode chamar de Avenida Mendoncinha!

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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