Fotos: Acervo Casa da Memória

Em um casebre rústico com paredes mal falquejadas e cenário humilde, encontra-se ele: o monge. O ano é por volta de 1896, talvez uns anos para frente, talvez uns anos para trás. Figura misteriosa que andou pela região levando aquilo que o povo mais necessitava, o conforto espiritual. Pregava sempre o evangelho. Se abrigava muitas vezes próximo de rio, “olhos d’água” e até em grutas. As histórias sobre seus milagres, benzimentos, profecias e curas atravessaram os séculos para nos contar quem foi ele, pois somos nós (sujeitos sociais), que decidimos através de uma fotografia, quem ficará guardado e quem ficará esquecido. O monge é lembrado.

No centro da fotografia seu olhar é direcionado para o chão. Aparece com seu chapéu de pele de jaguatirica, roupas simples, sandálias de couro, um ou dois colares que parecem ser de “contas de rosário” (espécie de planta da nossa região), tudo muito simples. Na postura que aparece sentado, apresenta posição de pernas e braços cruzados. O autor das fotografias e a data são desconhecidos. Talvez possa ter sido retratado pelo fotógrafo Karl Gustav Jansson pois essas fotografias também fazem parte do acervo fotográfico da sua família. Ele residiu nessas cidades por essa época, mas não temos certeza da autoria.

Apesar de serem três, o povo, por meio de lendas e folclore uniu-os em um, que ficou conhecido como São João Maria. Estão historicamente unidos de tal forma que muitas vezes é difícil separar seus feitos e suas vidas. O primeiro monge apareceu por volta de 1840 e era conhecido por João Maria D’Agostinis. O segundo era chamado de João Maria de Santo Agostinho que passou por essa região no final do século XIX. O terceiro é conhecido por ser o “Monge do Contestado” e morreu durante essa guerra civil, logo no início em 1912, era chamado de José Maria.

O Monge João Maria de Santo Agostinho (Anastás Marcaf) em seu percurso de eremita visitou várias cidades. (LIMA,2013). Em 1896, passou por algumas cidades como consta nas Atas da Câmara Municipal de União da Vitória. Esse monge, que por muitos devotos é considerado um santo, foi o que passou por São Mateus do Sul mais ou menos nessa época e até hoje é venerado como “São João Maria”. Os lugares por onde passou são conhecidos popularmente por nomes como “pocinho” de São João Maria e “cruz” de São João Maria. Estudos recentes sobre esses lugares são da autoria da Professora Doutora Alcimara Aparecida Foetsch que realizou trabalho científico sobre esse tema em nosso município. “O(s) Monge(s) João Maria em São Mateus do Sul/PR: trajetórias, memória e espacialidades”. O trabalho foi apresentado ao Instituto Histórico Geográfico de São Mateus do Sul em 2016.

Há muitas histórias sobre o monge e a maioria delas vêm da tradição oral. Como estou me tornando uma observadora mais atenta das imagens fotográficas não pude deixar de “reparar” na cuia de chimarrão improvisada próxima do monge em uma das fotos. Uma das muitas frases sobre o monge já foi repetida muitas vezes e chegou até os meus ouvidos cheia de significados: “São João Maria benzeu um pé de erva-mate que é remédio para tudo!”

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