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Morador de São Mateus do Sul tem seu conto premiado no Rio de Janeiro

O conto “Amendoim”, do contista Adnelson Campos foi premiado na cidade de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. (Foto: Acervo Gazeta Informativa)

O conto do escritor Adnelson Campos, que é colunista da Gazeta Informativa e morador de São Mateus do Sul, foi premiado no sábado (20), no XXI Concurso Alípio Mendes, na cidade de Angra dos Reis – Rio de Janeiro. A história peculiar de “Amendoim”, escrita pelo autor, ganhou o primeiro lugar no evento que englobou todas as regiões do país e também Portugal. “É difícil descrever, mas me senti feliz, com certeza. Talvez se compare a sensação de ser aprovado num vestibular. Você corre a lista e de repente encontra seu nome entre os selecionados. Se você é o primeiro da lista, melhor ainda. Mas estar entre os dez ou vinte, já é uma grande honra”, afirma.

Os contos premiados foram lidos no evento, e segundo Campos, foi uma noite bastante agradável. “Me emocionei ao ver a reação da plateia com o desenrolar da minha história. É o melhor prêmio”, expressa. O contista recebeu um troféu, o certificado de premiação e alguns livros da cidade que lhe acolhia. “No meu discurso enfatizei a importância de tais agremiações no incentivo a literatura e as artes. É um trabalho difícil, voluntário e que recebe pouco apoio. Por isso fiz questão de comparecer.”

Adnelson Campos no momento do recebimento do seu certificado de primeiro lugar no XXI Concurso Alípio Mendes. (Foto: Reprodução/Facebook)

O escritor iniciou seu interesse nos concursos em agosto de 2012, e já soma mais de 260 participações, onde já teve 68 textos publicados em livros e revistas em papel ou publicações em meio digital. Há também alguns textos publicados no site pessoal do contista – www.adnelsoncampos.com.br, e em suas redes sociais. Normalmente os concursos são organizados por Academias de Letras, prefeituras, editoras, universidades, empresas e outras organizações. “Não foi a primeira vez que participei do Concurso Alípio Mendes, promovido pelo Ateneu Angrense de Letras e Artes, que se repete há 21 anos. Foi a primeira em que tive o texto selecionado por eles”, informa.

Adnelson explica que normalmente critérios como: criatividade; uso dos recursos narrativos exigidos para o gênero (contos); originalidade; e estrutura textual (clareza e concisão textual, coerência argumentativa, estrutura lógica e qualidade do texto, coesão/ligação entre ideias e correção gramatical) são usados na escolha dos contos premiados. “Há concursos que definem temas, o que eu prefiro. É um desafio maior. Por exemplo, o meu segundo conto premiado foi um escrito para o Tomorrow Project, com o tema ‘Um dia da minha vida em 2025’, onde a Intel e Fiap, promotoras do evento, queriam uma visão futurista. O texto foi publicado também em inglês pela Intel.”

Para Adnelson, esses concursos são uma forma de reconhecimento e uma oportunidade de publicação dos textos, chegando dessa maneira, até os leitores. “Publicar é difícil, a maioria das editoras nacionais nem sempre valoriza o trabalho desenvolvido no Brasil. A concorrência também é grande, pois todos querem um lugar ao sol”, expressa. De acordo com a escritor, a maior recompensa de seu trabalho é: o sorriso dos leitores; a curiosidade eventualmente despertada; e receber um abraço de alguém que leu os textos e por um breve momento teve seu dia transformado com as singelas palavras escritas.

O conto premiado

Amendoim

O sujeito tinha muito orgulho do nome, enchia a boca cada vez que lhe indagavam, mesmo que para uma simples anotação no caderno de fiado da padaria da esquina. Cultivava este sentimento desde a infância quando observava as assinaturas nas cédulas. Quem sabe um dia fosse tão importante quanto um Ministro da Fazenda ou se não, ao menos Presidente do Banco Central.

Para as primeiras assinaturas, gastou folhas e folhas de papel, horas e horas rabiscando até chegar ao traço perfeito, a chancela que representava toda a dignidade de seu nome. Depois de tanto praticar, acreditava que a sua assinatura possuía traços únicos, garantia de exclusividade.

Tudo que usava era personalizado, o que incluía roupas, acessórios, a mobília que usava em casa ou no escritório. Fez aulas de pintura e de desenho para poder aplicar a assinatura em suas obras. Fez dela também a sua logomarca.
Com o passar do tempo, o Senhor Afonso Carlos de Mendonça passou a ocupar funções de destaque na empresa, chegando a Presidência. Sentia o maior prazer em esvaziar tubos e tubos de canetas esferográficas nas infinitas páginas de documentos que assinava.

Na empresa foram incontáveis os contínuos e estagiários que passaram pela sua frente. Nunca prestou atenção a nenhum deles. Certo dia, foi diferente. Um menino, que atuava como menor aprendiz, levou-lhe, como de costume, uma pilha de documentos para assinatura. Afonso examinou cada um e depois de passar por todos, começou sua sessão de assinaturas.

Testou a caneta, arrumou os objetos sobre a mesa para um melhor posicionamento dos papéis. Já ia assinar o primeiro documento, quando lembrou que não havia conferido o padrão da assinatura. Puxou uma folha de uma das gavetas. O papel já possuía algumas assinaturas, apôs uma nova logo abaixo da última, comparou com o gabarito e sorriu. Respirou fundo e cuidadosamente fez cada uma das assinaturas nos documentos. Tudo com muita calma e esmero.

Percebeu que o menino segurava um dos documentos e olhava com atenção os traços da marca. Curioso, resolveu questionar o menino.

– Gosta de assinaturas?
– Sim, as observo sempre.
– Tem uma?
– Todos têm, desde que aprendem a escrever, senhor. – disse, educadamente, o menino.
– Falo de uma marca pessoal, algo elaborado, como a minha, por exemplo.
– Não senhor, assino meu nome por extenso. Acredito que um dia uma nova assinatura surja espontaneamente.
– Pois eu elaborei a minha com muito cuidado. É o que nos diferencia, sabe?
– Sei.
– Mas se não acha uma assinatura elaborada importante, por que observa tanto a minha?
– Fiquei curioso.
– Com os traços? Com a inclinação? Com a pressão exercida sobre o papel? Ou seria com velocidade que é escrita?
– Não. Estranhei o fato de alguém escolher uma única palavra como assinatura. É um apelido?
– Como assim, um apelido? É uma representação de Afonso Carlos de Mendonça!
– Me desculpe, senhor. Para mim, está escrito: A-men-doim, apontando as partes da assinatura com o dedo.

Afonso olhou para a folha de papel, sua face se tornou branca, quase transparente. Olhou novamente para o documento, depois para as assinaturas dos quadros de própria autoria espalhados pela grande sala, para o bordado no lenço do bolso do paletó, para a gravação em baixo relevo nos vidros do prédio, tudo, tudo grafado com o maldito A-men-doim.

A terrível palavra reproduzida pelo menino, ecoava em seus pensamentos e o atordoava.

A palidez no rosto deu lugar ao rubor, veio a dor no peito e depois a escuridão. Não resistiu.

Afonso era intolerante a amendoim. Como ninguém sabia disso, estamparam a assinatura dele em sua lápide, logo abaixo da transcrição de uma de suas falas preferidas: “Todo homem precisa deixar sua marca, será a sua identidade e o seu passaporte para a eternidade!”.

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