Mentes Inquietas

Mosca na Sopa

(Imagem Ilustrativa)

A Comissão da Verdade reconhece 434 mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar, mas estimativas afirmam que o número pode ser três vezes maior. Raul Seixas, Rita Lee e Geraldo Vandré estão entre os artistas que foram convidados a se retirar do país no período por criticas ao (des)governo. Jornais foram fechados, concessões de televisão confiscadas, jornalistas perseguidos e assassinados. Obras de infraestrutura realizadas e largamente propagandeadas, forjando um crescimento econômico enquanto a dívida externa subia e a população não contava com poder de compra. Ainda assim, há quem diga que foram tempos prósperos, de paz e liberdade; muitos clamam por seu retorno alegando ser a melhor (ou única) opção para melhorar a condição do país. Será mesmo?

Os mitos sobre a ditadura militar (1964-1984) propagados por grupos de pessoas que visivelmente não têm o mínimo conhecimento de história e uma capacidade cognitiva provavelmente reduzida. Dentre os berros alucinados proferidos pelos aliados aos militares, estão: 1) que no período militar a violência era reduzida e não havia corrupção; 2) que a economia era forte e o brasileiro tinha uma esplêndida condição de vida; 3) apenas meliantes foram perseguidos; 4) havia liberdade de expressão e de imprensa; 5) era respeitado o direito de ir e vir; 6) uma série de obras de infraestrutura fora executada durante o período.

Antes de analisarmos cada um dos pontos acima, recorreremos a Étienne de La Boétie (1530-1563) e Hannah Arendt (1906-1975) para tentarmos compreender o porquê de tantos clamores por líderes autoritários. La Boétie, pensador francês do século XVI, escreveu apenas uma obra, O Discurso da Servidão Voluntária (redigida entre 1546 e 1555, sendo publicada na íntegra apenas em 1576). No livro, o francês reúne vasta gama de observações sobre a organização política dos povos, ressaltando o que muitos não veem (ou fingem não ver): a população clama por líderes em demasia. Faz uso de um trecho da obra Ilíada, de Homero, para iniciar sua argumentação. Ulisses, na obra homérica, diz que “não é bom ter vários senhores. Um só seja o senhor, um só seja o rei.” La Boétie dirá que apenas a primeira frase da citação está correta; não é bom ter vários senhores, e é melhor que não haja qualquer. Étienne dá um grito de de liberdade com seu escrito. Não é lógico que multidões sejam subjugadas de acordo com as vontades de um indivíduo; entre dois homens, ambos estão na mesma condição, possuem a capacidade de imaginar, de lembrar e de guerrear, o domínio de um sobre o outro se dá unicamente pela fraqueza do dominado, pela sua falta de perícia em determinar suas próprias ações. Para La Boétie, governos se fundam na sensaboria política dos governados. É impossível que um tirano permaneça no poder sem ter uma grande colusão que o apoie. Que poder teria 1 sobre 1 milhão? Com um povo desperto, consciente da conjuntura social e moral, nenhuma forma de tirania ou cleptocracia persiste.

A cientista política alemã Hannah Arendt, em sua obra Da Violência (1969), argumenta que na conjuntura que se apresenta, todo homem tem o desejo de ser dominado por um mais forte, isto é, que a tendência ao messianismo, à procura por heróis que deem uma “solução mágica” para os problemas do mundo e façam com que a massa se empolgue, acabam sendo vistos como capazes de realmente solucionar as problemáticas vigentes, mesmo que não tenham o know how necessário – muitas vezes sequer se observa boa vontade. Não nos estenderemos sobre a estudiosa neste momento, pois retomaremos alguns de seus conceitos mais a frente.

Tomemos, agora, o que elencam os indivíduos que defendem o retorno de uma ditadura. A primeira observação, de que no período militar não havia violência ou corrupção, não passa de uma falácia. É sabido por todos que ocorrências de violência civil durante a ditadura eram corriqueiras, as favelas dos grandes centros urbanos registram tráfico de entorpecentes e homicídios desde que iniciou o recenseamento. A população brasileira no período do golpe não chegava a 80 milhões, hoje se aproxima dos 210 milhões de habitantes; há de serem feitas ressalvas percentuais nos números da criminalidade[1]. Outra peripécia dos grupos pró-ditadura é dizer que naquele tempo a política era limpa, sem corrupção de qualquer espécie. Parecem esquecer que Paulo Maluf (PP), um dos maiores responsáveis por desvio de dinheiro na história do país, fora indicado à prefeitura de São Paulo por um dos presidentes militares. Fora isso, foram registrados casos de contrabando por oficiais do Exército, associação ao tráfico de drogas, Delfim Neto fora acusado de beneficiar empreiteiras em processos de licitação e acusado na França por embromar ações com um banco naquele país – sem falar da acusação de desvio de verba pública após um empréstimo junto à Caixa –, assassinato do jornalista Alexandre von Baumgarten após descobrir desvios de cerca de US$ 10 milhões a agentes do SNI e os benefícios monetários ao Grupo Delfin[2]. Dentre os citados, vários permaneceram impunes. Paulo Maluf é o maior exemplo: não cumpriu pena por nenhum delito cometido durante a ditadura, vindo a ser condenado, preso e a ter seus recursos negados apenas em 2017, aos 86 anos, por crimes cometidos na década de 1990.

Sobre a economia brasileira, vale ressaltar que “em 1980, a inflação já dava sinais muito preocupantes de descontrole: a variação anual do IPCA registrou um aumento de 99,7%”[3], que chegaria ao ápice em 1993 e posteriormente amainada com o Plano Real. Qualquer pessoa com o mínimo de memória e discernimento (e que viveu no período) recordará como era precária a condição de vida do brasileiro médio.

Quaisquer pessoas que se reunissem em público eram suspeitas de estar armando um complô contra o governo, portanto deveriam dispersar. As “atitudes subversivas”, como eram chamadas aquelas que se opunham à ditadura, eram fortemente reprimidas. Raul Seixas, por conta de suas letras irreverentes, desatreladas de bandeiras partidárias, carregadas de um forte senso de justiça e liberdade, foi expulso do país nos anos 1970. Em Metrô Linha 743, Raul representa em cada verso tamanha a perseguição imposta pelo regime.

Ele ia andando pela rua meio apressado

Ele sabia que tava sendo vigiado

Cheguei para ele e disse: Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?

Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado

Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!!

Disse: O prato mais caro do melhor banquete é

O que se come cabeça de gente

Que pensa e os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam

Porque quem pensa, pensa melhor parado!

Desculpe minha pressa, fingindo atrasado

Trabalho em cartório mas sou escritor,

Perdi minha pena nem sei qual foi o mês

Metrô linha 743!!

(Raul Seixas, Metrô Linha 743)

Pessoas presas não apenas por pensar diferente daqueles que ocupavam o poder, pensar já poderia ser motivo suficiente para encarcerar, torturar e matar. Quem defende que é correto assassinar pessoas que pensam diferente – ainda mais quando se trata de pensar diferente de um sistema autoritário –, devem urgentemente procurar auxílio psiquiátrico.

Quando se fala em liberdade de imprensa, chegamos a um ponto crucial para compreender o desdobramento mitológico da ditadura. Não se pode dizer, de forma alguma, que houve liberdade de imprensa de 1964 a 1984. Durante aquele período, jornalistas foram assassinados, exilaram-se no exterior, concessões de TV foram remanejadas para indivíduos passivos frente ao regime – o mesmo se deu com emissoras de rádio –, jornais foram fechados. A censura prévia advinda do Ato Institucional nº 5, pela qual as peças de teatro, filmes, músicas, programas de rádio e de televisão eram checados pelos censores, que buscavam verificar a existência de qualquer afronte aos interesses dos ocupantes do poder (ideais anarquistas, comunistas, críticas ao governo ou à figuras públicas etc.). Um dos marcos dos atentados contra a imprensa foi o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975.

Com o controle das publicações, denunciar qualquer ato ilegal ou imoral do governo – obrigação do jornalismo – poderia resultar no fechamento do jornal, na prisão (por que não tortura?) de seus jornalistas e possíveis assassinatos, chamados de “desaparecimentos”. Sendo assim, é óbvio que o que chegava aos cidadãos impresso nas linhas dos jornais, pelas ondas do rádio ou na tela da televisão, não passava de um resumo do que era permitido dizer sobre o governo, acompanhado da pintura de um quadro do mundo cor-de-rosa, exaltando as qualidades e omitindo os problemas sociais deste país continental.

Em 1973, quando o então presidente chileno Salvador Allende (1908-1973) fora deposto por intermédio de um golpe militar, a censura proibira “qualquer manchete falando em golpe”. O diretor de redação do Jornal do Brasil, Alberto Dines (1932-), perspicaz e inteligente, publicou um longo texto sobre o ocorrido, mas sem manchete. Este e outros acontecimentos são rememorados pelo Observatório da Imprensa[4].

A população geral, principalmente das áreas interioranas, não tinham conhecimento da real situação do país, para os mais ignorantes, o mundo cor-de-rosa era aceito e ainda hoje é reproduzido. Em uma época em que não se tinha noção das atrocidades cometidas pelo governo, em um tempo em que não se sabia dos índices de violência, não é de se admirar que as pessoas sejam condicionadas a crer que nos dias correntes a corrupção e a violência são disseminados, enquanto, na realidade, a principal causa é que agora tudo pode ser livremente denunciado por jornalistas. Há indivíduos que, mesmo não tendo vivido nos anos ditatoriais, são influenciadas por pensamentos ultrapassados e não estão abertas ao diálogo racional. Hannah Arendt, ao falar sobre ideologias e regimes totalitários, nos adverte que

Essa geração, treinada como suas predecessoras apenas em noções superficiais dos vários tipos de teorias sociais e políticas, ensinou-nos uma lição sobre manipulação ou, melhor dizendo, os seus limites, que seria melhor não nos esquecermos. Os homens podem ser “manipulados” através da coerção física, tortura, ou inanição, e suas opiniões podem ser formadas arbitrariamente por meio de informações falsas transmitidas de maneira deliberada e organizada, mas não através de “meios de persuasão ocultos”, a televisão, a propaganda, ou qualquer outro meio psicológico em uma sociedade livre. (Hannah Arendt, 1969, p.20).

Eis que na sociedade teoricamente livre em que nos encontramos, meios artísticos e jornalísticos sérios procuram contribuir para a desmistificação de um período tratado com falsa e imerecida glória por seus (iludidos) seguidores. Jornalismo livre é condição fundamental para a existência da democracia e, para nós, jornalismo não é outra cousa senão um meio de investigação e exposição dos fatos tal como são, sem fazer propaganda ou detratar de forma equivocada – o que foge a isto pode ser qualquer coisa, menos jornalismo. Por vezes, neste espaço, criticamos os moldes da nossa democracia e as consequências funestas que dela decorrem, mas não podemos esquecer que textos como este podem ser publicados e seus autores permaneçam existindo (por enquanto).

Não tentaremos supor o que se passa na mente de um indivíduo que apoia instrumentos de coerção sobre os quais ele mesmo perecerá. É certo que muitos têm motivos particulares, amparados em seus encontros com o mundo; mas é cada vez mais claro que todos estão amparados em uma preponderante ignorância política.

Grupos cujo capital intelectual é no mínimo duvidoso, criam odes ao totalitarismo, como o “bloco de carnaval” intitulado “Porão do Dops”[5], que foi barrado de sair às ruas por meio de liminar do juiz Rubens Queiroz Gomes[6], que fez o lógico ao empacar uma manifestação que agride qualquer forma de convívio social. Ironicamente, o grupo reclamou da coerção policial que os impedira de sair às ruas.

De fato, houve a realização de diversas obras de infraestrutura durante a ditadura – que eram largamente repercutidas pela mídia –, mas que deixaram o país com uma dívida externa estratosférica, desvalorização da moeda e ausência de qualquer aparato para a verificação da eficácia das obras. Podemos afirmar que a grande herança que o Brasil recebeu dos governos militares é a dívida externa. Em 1964, a soma estava em US$ 3,155 milhões, subindo para US$ 95,856 milhões ao final da ditadura, cerca de 30 vezes maior do que o valor inicial[7].

Conforme acima explanado, quando o jornalismo é controlado/censurado pelo Estado, assim como ocorre em Cuba e na Síria, é impossível falar em pleno conhecimento da população sobre os acontecimentos que a rodeiam e ordenam suas existências.

Em situações como a atual, em que muitos procuram senhores, messias que os salvem de seus problemas, em que a política é reduzida à briga bipartidária ou ao embate entre figuras como Luiz e Jair, é elementar rever o caminho que traçamos e procurar não cometer equívocos semelhantes aos do passado. Étienne de La Boétie nos traz um grito de liberdade, uma análise do homem e seu convívio político que deve ser retomada para questionarmos nosso presente. Uma vez que a organização da vida é entregue aos senhores, retomá-la é uma tarefa árdua na qual dificilmente se obtém êxito. Urge termos um pensamento mais anárquico com relação aos representantes políticos, à ordem social e aos ditames morais. Com anárquico – explico agora para evitar incômodos futuros – quer-se dizer para não serem poupadas críticas independentemente da ideologia que o cidadão defenda. Critique a si, se for o caso. Excesso de confiança e conforto leva ao caos, à crise, faz transparecer o letárgico senso ético. A crítica deve levar ao descarte aquilo que não se sustenta; ao contrário do que fazem as paixões, que afagam. A crítica questiona, não deixa que as coisas passem em branco. Que as verdades sejam viradas de ponta-cabeça e sejam despidas de todas as suas mentiras.

Por: Alexandre Stori Douvan, Acadêmico do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

[1] https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/tabelas_pdf/Brasil_tab_1_4.pdf

[2] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm

[3] https://www.btgpactualdigital.com/blog/financas/tudo-sobre-inflacao

[4] http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/ed719-nascido-na-contramao/

[5] https://exame.abril.com.br/brasil/nao-e-fake-news-bloco-de-carnaval-celebra-tortura-na-ditadura/

[6] http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/juiz-barra-porao-do-dops/

[7] https://noticias.r7.com/economia/milagre-economico-ou-desastre-saiba-mais-sobre-o-crescimento-brasileiro-durante-o-regime-militar-03042014

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