Imagem disponibilizada pela Casa da Memória Padre Bauer.

Nesta coluna tenho alternado falas sobre história e poesia, mas nesta semana recebi um material que faz uma ligação direta entre estes dois temas… São manuscritos que revelam a face desconhecida de uma figura importante do passado de nossa cidade. Embarque comigo nessa história!

Nos dias atuais, Moysés dos Santos Lima talvez seja lembrado apenas como o nome de uma rua da cidade. Mas quem mergulha na história desse homem, vê que ele merecia reconhecimentos maiores. Moysés nasceu na Lapa, em 1883, e acabou se instalando na região do Lajeadinho. Se intitulava um “lavrador rotineiro e sem instrução” (Jornal Diário da Tarde, 06 de novembro de 1908), mas era um autodidata, tendo montado em casa uma grande biblioteca, onde estudava medicina, contabilidade, história, religião e agropecuária. Com seus estudos caseiros, conseguia discutir técnicas agrícolas de igual para igual com especialistas. Foi representante da Lapa no “Club do Milho”, instituição que alavancou o plantio na região.

Por se destacar na defesa da agricultura, Moysés conseguiu se eleger vereador por dois mandatos (1912-1916 e 1916-1920). Depois foi nomeado ajudante de Procurador da República, tudo isso pela Lapa. Quando a comunidade do Lajeadinho passou a integrar a área de São Mateus, Moysés começou a mostrar sua força em nosso município. Foi ele um dos responsáveis por trazer o médico da Lapa para São Mateus, o famoso “Dr. Paulo Fortes” (isso já foi citado pela Jéssica, aqui mesmo na Gazeta Informativa). Foi também ele uma das pessoas que doou recursos para reformar o prédio do antigo Colégio São Mateus, transformando-o no Fórum da cidade. Além disso, doou terras para que fosse construída a escola do Lajeadinho (que funciona até hoje, e que merecia se chamar “Moysés dos Santos Lima”!).

Mas a face que eu não conhecia deste homem era o imenso amor que tinha por sua esposa, Francisca. Moysés era apaixonado pela prima “Chiquinha” desde que ela ainda era uma criança. Após vários anos de espera, conseguiu casar com a amada, e tiveram treze filhos. Mas dois anos após o nascimento da pequena Adélia, Chiquinha faleceu, com apenas 45 anos. Foi no dia 14 de maio de 1934. Os manuscritos que recebi foram enviados pelo amigo Pedro Marcelo, bisneto de Moysés, e mostram versos apaixonados, feitos para Chiquinha, mesmo anos após sua morte.

Numa das poesias, intitulada “Tu Vives?”, Moysés fala para a amada: “Vives em toda parte / Vives, como não? / Vives eternamente! / Vives no meu triste coração!”. Mais adiante lamenta a morte prematura: “Para o além foste cedo / roubada pela morte / me deixaste sofrendo / as agruras da sorte”, e ainda aborda o sofrimento dos filhos: “Treze são os filhos / que choram de saudade / pela falta da mãe / que está na eternidade”. Em outra poesia intitulada “Chiquinha”, Moysés diz que preferia morrer do que perder a amada: “Antes tu fosses viúva / e eu fosse o morto / para que teus filhos / gozassem de mais conforto”, e prossegue: “eras minha idolatrada esposa / hoje, santa de minha devoção / de quem tenho a imagem / no altar do meu coração”.

Os manuscritos trazem cerca de trinta versos, todos escritos de forma simples, mas carregados de emoção. E até ao assinar a poesia, oferecendo-a para os filhos, Moysés mostrava sua capacidade poética: “A seus filhos oferece / estes versos sem rima / o amoroso pai / Moysés dos Santos Lima”. Moysés viveu mais 27 anos após a morte da esposa. Casou novamente (com outra Francisca), mas certamente nunca esqueceu sua Chiquinha…

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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