O caso da são-mateuense Elza Ribeiro Micharski, de 22 anos,
morta pelo ex-companheiro no domingo (5), chocou e alertou a sociedade. Ela chegou a realizar 3 boletins de ocorrência e contava com medida protetiva. (Reprodução/Redes Sociais)

Um crime brutal chocou os moradores de São Mateus do Sul e região no último domingo (5), na Rua Eduardo Sprada próximo à Praça do Olho, na Vila Pinheirinho. Alisson Ferraz Barbosa, de 24 anos, era o ex-companheiro da jovem Elza Ribeiro Micharski, de 22 anos, que foi morta com golpes de barra de ferro na face e posterior atropelamento. A vítima foi prontamente atendida pelo Corpo de Bombeiros e encaminhada ao Pronto Socorro Municipal, não resistindo aos ferimentos. Alisson fugiu do local do crime, e horas depois foi detido pela Polícia Militar na localidade de Faxinal dos Ilhéus. Na delegacia, o autor assumiu o crime e com frieza, afirmou que a intenção era matá-la. No momento, Alisson encontra-se preso preventivamente na 3ª Subdivisão Policial de São Mateus do Sul.

Alisson Ferraz Barbosa admitiu a autoria do crime e encontra-se preso na 3ª Subdivisão Policial de São Mateus do Sul.

Segundo informações, Elza e Alisson foram casados por 7 anos. O homem não aceitava o fim do relacionamento e já havia agredido física e psicologicamente a ex-companheira. De acordo com o delegado André Luís de Oliveira Vilela, a vítima realizou três boletins de ocorrência contra o agressor, que resultaram em três inquéritos policiais que foram concluídos no prazo. Elza também possuía medida protetiva, que foi descumprida mais de uma vez pelo autor do crime.

A são-mateuense trabalhava na empresa Focus Distribuidora, e com sua simpatia, conquistou todos que conviveram com ela. “Elza foi uma mulher batalhadora inteligente e esforçada, apesar de todos os percalços da vida sempre correu atrás dos seus sonhos com um sorriso no rosto. Construiu uma amizade muito grande com todos que trabalhavam com ela, e também com os seus clientes, deixando saudades em todos nós”, destaca a equipe da Focus. Os familiares de Elza também demonstraram agradecimento à todos que foram solidários com a jovem, como o Corpo de Bombeiros pelo rápido atendimento.

Terceiro feminicídio em São Mateus do Sul

Com a falta de políticas públicas que incentivem a rapidez em processos contra a violência doméstica, São Mateus do Sul já vivenciou três casos de feminícidio – que passou a ser tratado como crime qualificado e incluído no código penal na modalidade de homicídio no ano de 2015, através da Lei nº 13104/2015.

A principal característica do feminicídio é a morte intencional de pessoas do sexo feminino, mas isso não significa que todo assassinato de mulher é categorizado como feminicídio. Muitos pontos são levados em consideração na indicação, dentre eles: mutilações ou ataques genitais; escolha da mulher para ser morta; submissão ou o fato de que o comportamento feminino se torne a justificativa para o assassinato.

No dia 29 de fevereiro de 2016, Cleomara Aparecida Sorotenic Pereira, de 29 anos, foi morta pelo ex-companheiro Joaquim Eduardo Pugsley Fonseca Junior (conhecido como Chupim), em frente ao Posto Castrovel. No dia 24 de novembro de 2017, o autor do crime foi condenado com pena de 17 anos e 10 meses de prisão, sendo o primeiro caso de feminicídio julgado em São Mateus do Sul. O homem está preso na penitenciária de Piraquara.

Cleomara Aparecida S. Pereira foi vítima de feminicídio em 2016 aos 29 anos.

Há pouco mais de um ano, no dia 7 de maio de 2018, Daniela Kuba Vagner, de 24 anos, foi morta pelo ex-companheiro Fábio Kolodi, de 32 anos, que tentou se suicidar após o crime. O homem morreu três dias depois, no Hospital Regional São Camilo, em União da Vitória.

Com o caso de Elza, o alerta para violência doméstica ressalta a importância de um sistema alinhado entre denúncias e equipes responsáveis por oferecer atendimento de segurança e psicológico para as vítimas. São Mateus do Sul não possui uma Delegacia da Mulher e 1/3 do índice de criminalidade do município é ligado à violência doméstica. O delegado explica que o trabalho priorizado às vítimas de violências, abusos e ameaças, garantiriam um processo mais rápido para julgamentos e condenações, além de trabalhar o emocional abalado das mulheres e crianças afetadas diretamente pela criminalidade.

Não é só a agressão física…

De acordo com o artigo publicado pela são-mateuense Juliana Bianchini, mestranda em direitos fundamentais e democracia, graduada em direito e professora da Uniguaçu, a violência doméstica é definida como qualquer tipo de abuso físico, sexual ou emocional praticado por um parceiro contra o outro, em um relacionamento íntimo passado ou atual. “No sentido mais amplo, a violência doméstica refere-se também ao abuso de crianças e de idosos no ambiente doméstico”, destaca.

Na violência de gênero, em que os ataques são destinados às mulheres, os abusos podem iniciar com provocações e xingamentos, passando por relações sexuais forçadas e agressões físicas. A Lei Maria da Penha nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, é incondicional a vontade da vítima, ou seja, se a mulher sofre violência do próprio namorado já é motivo para ele responder pelas ações cometidas. Mas na realidade os fatos caminham de outra maneira, e o medo é a principal barreira que impede o combate deste tipo de violência. Vergonha e repressão também são pontos chaves na hora de procurar ajuda.

No artigo “Violência de gênero: os ideais feministas como luta pela dignidade humana”, escrito por Juliana, a são-mateuense explica que o Brasil é o sétimo colocado a nível mundial em ocorrências de feminicídios. “Estima-se que a cada 100 mulheres assassinadas no país, 70 são vítimas de violência familiar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 69% das mulheres já foram agredidas ou violadas, e mais do que isso, os dados fazem parte de uma violência que é subnotificada, visto que cerca de 10% das agressões sofridas por mulheres são levadas ao conhecimento da polícia”, explica a profissional.

De acordo com a pesquisadora do núcleo de criminologia e política criminal, Vanessa Prateano, para combater, prevenir e erradicar o feminicídio, é necessário a capacitação de profissionais que atuam no atendimento às vítimas e dar a elas condições estruturais para realizar o seu trabalho, por meio do investimento massivo na criação e melhoria dos serviços. “A humanização do atendimento é essencial, pois somente ela permitirá à mulher ter o apoio e a força para seguir adiante com a denúncia. Uma mulher que é mal atendida e não volta a procurar o serviço é uma mulher que muito provavelmente entrará para as estatísticas”, destaca.

Amparo da família e apoio de amigos também evitarão danos maiores. “Em uma sociedade em que o machismo e a misoginia são fundantes e estruturantes das nossas relações e experiências, a violência contra a mulher é algo naturalizado no cotidiano”, explica Vanessa. Para romper com essa mentalidade, é preciso desaprender a misoginia e se educar para a equidade e a justiça. Isso envolve desde a abordagem do tema em sala de aula até a produção de estatísticas que fundamentem as políticas públicas e a realização de campanhas voltadas à população como um todo.

Quebre o silêncio e denuncie! Disque denúncia 181 e emergência da Polícia Militar 190. Ou compareça até as sedes da Polícia Militar, localizada na Rua Guilherme Kantor, 665; e 3º Subdivisão Policial, localizada na Avenida Ozy Mendonça de Lima, 475, Centro de São Mateus do Sul.

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Redação do jornal Gazeta Informativa

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