Educação e Cultura

Mulheres são maioria entre professores

Na edição anterior, aproveitando o Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, o jornal Gazeta Informativa contou a história inspiradora de algumas mulheres que empreendem em São Mateus do Sul. Nesta edição, você confere uma reportagem especial com quatro professoras, que falam sobre a arte de ensinar.

Um levantamento realizado pela Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), através da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e coordenada no Brasil pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), apontou informações interessantes sobre a atuação e a hierarquia, das mulheres, na educação. De acordo com os dados divulgados, dos mais de 100 mil profissionais abordados, 71% são do sexo feminino. Em relação a posição de liderança, nas instituições de ensino, o percentual atingiu 75%. O resultado faz parte de uma pesquisa feita em 34 países.

Patrícia Kogge

A professora Patrícia Kogge, 40 anos, acredita que o fato das mulheres serem maioria, entre os educadores, se explica historicamente, pois a função do professor foi e ainda é associada a algumas características femininas, como atenção e afeição, por exemplo. “O diferencial que a mulher possui, em sala de aula, pode ser associado ao instinto materno, capaz de criar laços emocionais entre a professora e seus alunos”, completa.

Segundo Patrícia, o espaço conquistado pela mulher, no mercado de trabalho, tem como principal motivo a dedicação. “Afinal não é fácil atingir setores com raízes masculinas, por isso exige um toque a mais de persistência e responsabilidade”, diz.

Patrícia é formada em Letras Português/Inglês, com especialização Língua Portuguesa e Literaturas, bem como em Contação de Histórias e Literatura Infantil Juvenil, leciona Língua Portuguesa e Língua Inglesa no Colégio Estadual Duque de Caxias, de São Mateus do Sul para o Ensino Fundamental e Médio.

Durante os 20 anos educando, Patrícia destaca que acumulou pequenas conquistas. Para Patrícia, a missão do professor é incentivar e mediar o conhecimento, bem como orientar seus alunos no desenvolvimento de uma consciência crítica, tão necessária em nossa sociedade. Para tanto o professor precisa acreditar e gostar daquilo que faz. “Não tenho um fato específico que me marcou, mas nesse tempo todo que leciono, acumulo pequenas conquistas. Algo que me realizou muito, no ano passado, foi o Projeto de Leitura que desenvolvi, pois os resultados alcançados foram favoráveis e percebi que efetivamente os alunos envolvidos começaram a ler por prazer e não somente por obrigação, para a realização de uma atividade avaliativa”, conta.

Além do Ensino Fundamental e Médio, já teve experiência com turmas dos anos iniciais, educação para jovens e adultos e turmas do curso de Letras. Patrícia optou pelo magistério por achar uma profissão admirável, e acredita que o desejo de ser professora vem desde a época de criança, pois gostava muito de brincar de “escolinha”.

Patrícia afirma que ama ser professora, mesmo com as dificuldades que encontra para desenvolver o trabalho de educar, entre elas a falta de estrutura familiar, que inviabiliza a aprendizagem de alguns alunos. “A valorização do trabalho do professor e a oferta de capacitações, contribuem para um melhor desenvolvimento do profissional da Educação. Minha profissão é gratificante na maioria das vezes, principalmente quando vejo que um aluno com dificuldades de aprendizagem conseguiu aprender ou quando vejo um ex-aluno cursando uma faculdade e tendo uma perspectiva positiva para seu futuro. O que me desmotiva são aqueles alunos que não almejam o conhecimento e que não acreditam na importância do estudo”, comenta.

Todas as profissões têm a sua importância, mas Patrícia acredita que o professor exerce um papel fundamental na sociedade, pois todos os profissionais passarão “pelas mãos” de um profissional da educação. “Ensinar não é difícil, desde que você se capacite e tenha condições mínimas para o trabalho em sala de aula; alunos interessados e participativos ajudam bastante. Para as mulheres que desejam ser professoras, quero dizer que não se deixem desmotivar, pois é uma profissão linda e que em algum momento fará a diferença para alguém, lhe proporcionando uma sensação muito boa, de missão cumprida”, finaliza.

Josiane Nijo

Josiane Nijo Cabreira, 32 anos, professora há 10 anos, formada em Licenciatura em Geografia, com Especialização em Gestão Ambiental e Biodiversidade e também em Educação Ambiental, leciona Geografia no Colégio Estadual Prof.ª Zuleide Samways Portes, da vila Bom Jesus, em São Mateus do Sul, no período matutino, para o ensino fundamental. “A decisão de ser professora veio a partir da dificuldade financeira, na época financiamentos para faculdade não existiam, e a existência de uma instituição próxima à cidade também facilitou a decisão; me formei da FAFI em União da Vitória, hoje Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória/PR – Unespar”.

Mesmo tendo outros sonhos na época, Josiane acredita que tomou a decisão certa. “Amo minha profissão e acredito nela, apesar das dificuldades que encontro. Acredito sim que a profissão de professor é importante, pois é a base, o início para tudo. É na escola que o indivíduo começa a tomar suas primeiras decisões, a conviver com o outro, a conhecer assuntos novos, e, o professor entra, acredito eu, como um mediador, não como aquele que leva pronto, mas que vai buscar em conjunto com os alunos, como fazer. Nós devemos ensinar mais que um conteúdo, e sim instigar nossos alunos, fazer com que busquem conhecer e aprender sempre mais, devemos fazer com que questionem mais, que não aceitem tudo como pronto e certo. Nossa sociedade precisa de pessoas que questionem, que exijam o que é correto, só teremos cidadãos assim se a educação estiver sempre em primeiro lugar”.

Conforme Josiane, a tarefa de ensinar e formar não é fácil mediante a diversos obstáculos encontrados, “e não falo somente de salário digno não; são famílias cada vez mais ausentes e desestruturadas, alunos que não querem aprender, falta de estrutura nos colégios, drogas, violência. Somos profissionais que devemos estar nos atualizando constantemente, mas que muitas vezes não temos como levar para sala de aula as novidades que encontramos; afinal nosso principal ‘material de trabalho ainda é quadro e giz’. Nossos alunos mudam, evoluem diariamente, temos que crescer com eles, e nos apossar das experiências deles para desenvolver bem nosso trabalho; mas sem perder a autoridade, pois muitos só encontram um pouco de limite, dentro da sala de aula”, comenta.

Josiane acredita que a mulher é maioria entre os professores porque, há anos atrás, a educação era uma das poucas áreas em que a mulher era aceita. “E hoje, o que conta também, a facilidade que temos em trabalhar com o ser humano, creio que muitas vezes o ‘instinto maternal’ que dizem que todas temos facilita essa tarefa de formar o ser humano. A força de vontade, a capacidade de estar sempre se superando, faz não só educação, mas qualquer área o espaço da mulher. Hoje presente em todas as profissões, a mulher mostra cada vez mais que é capaz de fazer o que quiser”, diz.

Para Josiane, sua profissão é muito gratificante, “adoro e me marca muito quando encontro alunos meus, já adultos, cursando uma faculdade, um curso técnico, ou já no mercado de trabalho e ainda me reconhecem como sua professora. Ou ainda: ‘Professora, acertei determinada questão em um concurso por que lembrei da sua aula!’, isso faz valer a pena cada dificuldade encontrada até aqui. Cada conquista nova deles é minha também. Para as mulheres que desejam seguir essa profissão, força, foco e fé! Parece engraçado, mas é isso mesmo, os obstáculos são grandes, mas há grandes recompensas. Você vai fazer diferença na vida de alguém”, conclui.

Eloí Borges Bueno Lima

A professora Eloí Borges Bueno Lima, atua no Colégio Estadual São Mateus como Coordenadora do Curso Técnico em Meio Ambiente e também como professora de Geografia do Ensino Médio do CEEBJA (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos).

Para Eloí, a profissão de educar é importantíssima, pois é o alicerce de todas as outras profissões. “Sinto-me realizada como educadora. Muito me gratifica saber que muitos alunos foram bem sucedidos e que tive participação nas suas jornadas”, comenta.

Eloí conta que sempre quis ser professora. “Assim que concluí o Ensino Fundamental iniciei o Magistério e comecei a trabalhar com séries iniciais em escolas multisseriadas. Cursei faculdade de Geografia, a qual me oportunizou o trabalho nas séries finais do Ensino Fundamental e a minha opção pelo Ensino Médio”.

Segundo Eloí, a hegemonia das mulheres na educação deve-se ao fato de ela já possuir um dom inerente, o qual a torna mais próxima das crianças e jovens. “O destaque da mulher no mercado de trabalho é uma consequência do esforço que ela vem realizando ao longo de décadas e o seu crescimento gradativo se dá à sua dedicação. “Como mensagem final gostaria de deixar um pensamento de Paulo Freire: Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar”, termina.

Angela Maria Farah

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Angela Maria Farah, 42 anos, é formada em Jornalismo, especialista em Metodologia da Ação Docente, Planejamento de Comunicação Integrada e Jornalismo Literário, Mestre em Comunicação e Linguagens e hoje faz doutorado em Ciências da Comunicação.

No momento, ministra aulas no Centro Universitário de União da Vitória – Uniuv, para o curso de Jornalismo, em quatro disciplinas: Técnicas de Reportagem, Métodos e Técnicas de Pesquisa, Atualização em Aspectos da Comunicação e Projeto Experimental em Jornalismo – orientação de TCCs. “Já trabalhei com os cursos de Relações Públicas e Publicidade e com o Ensino Médio, em colégios e com aulas particulares, dando aulas de Redação e Escrita Criativa”, comenta.

Angela é professora do curso de Jornalismo da Uniuv desde 2002, ano em que os cursos de Jornalismo e Publicidade iniciaram suas atividades na Uniuv. “Estava passando um tempo em União da Vitória, na casa dos meus pais, no fim de 2001, quando vi o edital de abertura do concurso para professores do curso de Jornalismo, na Uniuv, naquela época ainda Face. Fiz o concurso, passei e cá estou há 14 anos nessa profissão. Desde então, investi muito em minha formação, tanto técnica quanto didática-pedagógica, sempre com o apoio da Instituição em que trabalho”, conta.

Para Angela, homens e mulheres são capazes de ensinar com a mesma competência. “Historicamente, a função de ensinar e educar foi dada para as mulheres, quase como uma extensão de sua função materna. Acredito, também, que mulheres e homens têm características distintas, mas que nenhuma delas garante a habilidade e a competência de ensinar a eles apenas pelo gênero.”.

Conforme Angela, as mulheres estão ganhando espaço e se destacando no mercado de trabalho porque estão lutando muito para garantir esse espaço, “porque estamos nos reconhecendo como capazes a cada dia, porque somos competentes e merecemos ganhar espaço, condições de trabalho e salarial”, diz.

Angela destaca que ama ser professora. “Realizo-me em cada projeto de TCC que oriento, em cada reportagem que acompanho, em cada conversa com os alunos, em cada vitória conquistada pelos alunos ou ex-alunos, agora colegas de profissão. Ser professora é muito desafiador e uma atividade de grande responsabilidade. Estou sempre atenta para buscar o melhor para o aprendizado dos futuros jornalistas. A experiência de trabalhar com adolescentes no Ensino Médio é de uma riqueza cultural indispensável. Penso que eu não seria a mesma pessoa sem essa oportunidade. Contribuir para o caminho da busca profissional de pessoas tão jovens é uma experiência transformadora. Assim como no jornalismo, o professor precisa estar atento às transformações sociais, ao momento presente, às necessidades de cada aluno. Não é nada fácil ou simples, mas é uma profissão que te transforma todos os dias, te faz ser empático, te mostra que a diversidade do outro é a singularidade do ser humano. Há prós e contras em ser professora. Há, com certeza, situações nem sempre tão boas. Há situações de falta de respeito. São poucas. Vou levantar duas questões centrais que podem ser apontadas como problemas para a profissão: a primeira é a formação profissional – que precisa ser tratada com mais cuidado e respeito; e a segunda é a valorização profissional – que passa pela questão salarial, sim, mas, também, por condições adequadas de trabalho, entre outras. Penso que o professor tem um papel fundamental na sociedade, como um profissional capaz de orientar adolescentes, jovens e adultos, sobre o mundo do conhecimento pragmático e sensível. Conhecer as coisas, saber mais sobre determinado fato histórico, observar a arte, entre tantas outras possibilidades do conhecimento, é fundamental para emancipação das pessoas, dos indivíduos”.

Para quem quiser seguir o caminho da educação, segundo Angela, é preciso buscar uma boa formação – pode levar anos – e compreender que essa formação nunca acaba, tem de ser continuada. “É preciso compreender, também, que essa profissão é um espaço de luta, de transformação, de compreensão, de afeto, de empatia. O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta, de empatia e de afeto”, finaliza.

Últimos posts por Thaís Siqueira (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Equipe feminina de futebol são-mateuense é eleita a 5ª melhor do Paraná
Colégio Estadual São Mateus promove mais uma edição da Mostra de Conhecimentos
SEMEC promove curso de primeiros socorros às professoras da Rede Municipal de Ensino da Zona Rural