Histórias de Terra e Céu

Nadolny contra os Ervateiros

Malhador de erva-mate

Quem leu meus livros sabe que eu tenho uma admiração especial por um dos pioneiros de São Mateus: Francisco Nadolny. Hoje nosso bate-papo vai tratar de uma disputa que ocorreu entre ele e os ervateiros locais, há mais de cem anos, e que é totalmente desconhecida pela maioria dos moradores daqui. Embarque comigo nesta história!

Francisco Nadolny nasceu na Polônia em 30 de novembro de 1861, e chegou ao Brasil com 15 anos. No início da imigração em São Mateus, ele e o irmão Alexandre ajudaram muitos colonos com sua serraria, principalmente quando houve a necessidade de reconstruir as casas após a enchente de 1891. Era muito firme ao defender suas posições, usando armas se fosse necessário. Foi assim que se posicionou contra os revolucionários em 1893, e que participou do ataque à igreja de Palmeira em 1899 (um dia conto esta história aqui!)

Mas a genialidade de Nadolny e sua habilidade com a madeira apareceram muito antes de que viesse para São Mateus. Ainda em Curitiba ele inventou o “malhador de erva-mate” (semelhante àquele que está exposto no Chimarródromo). O invento foi tão relevante que o Imperador Dom Pedro II teceu elogios ao jovem polaco (Nadolny tinha 20 anos na época).

Após se estabelecer em São Mateus, o malhador inventado por Nadolny começou a ser utilizado pelos ervateiros locais. Emílio Prohmann chegou a apresentar o malhador na exposição Agrícola e Pastoril em Curitiba, em 1903, e o objeto foi doado para o Museu Paranaense. Mas no ano seguinte Francisco Nadolny conseguiu um feito que lhe traria muita dor de cabeça. Após preparar intensa documentação (contendo a descrição do seu invento e desenhos detalhados), Nadolny obteve a patente de invenção do malhador. Ela foi publicada sob o número 4.122 no Diário Oficial de 20 de agosto de 1904. Era a primeira patente de São Mateus (e talvez a primeira de um polaco em terras brasileiras).

O problema é que, pela patente, por 15 anos Nadolny teria exclusividade do uso, e qualquer um que se beneficiasse do malhador teria que pagar a ele para utilizar. Isso revoltou os grandes ervateiros de São Mateus. Sete deles entraram com um processo para tentar derrubar a patente: Joaquim Gomes do Santos (o “Nhoca”, rei da erva-mate), Seraphim Portes, Antônio Portes, Alexandre de Paula e Silva, Ulysses Faria, Francisco Ferreira Guimarães e Paulino Vaz da Silva. Entre os argumentos, alegaram que Emílio Prohmann já usava o objeto e, portanto, não se tratava de uma novidade. O processo levou três anos para ser julgado, e Emílio já havia falecido. Os peritos do governo avaliaram o objeto que estava no Museu Paranaense e identificaram ser igual aos desenhos de Nadolny, aceitando a tese dos ervateiros de que Nadolny “havia copiado” o malhador de Emílio Prohmann. Em 28 de julho de 1907, o Diário Oficial anulou a patente 4.122, por determinação do juiz da 1ª Vara. Francisco recorreu e o processo se estendeu até 1910, quando os juízes do Supremo Tribunal Federal deram ganho aos ervateiros, fazendo com que Nadolny ainda pagasse as custas do processo (Diário Oficial de 22 de novembro de 1910).

Francisco foi morar em Curitiba, falecendo em 1916 (há cem anos!), deixando 17 filhos (casamentos com Maria Odia e Rosa Odia).

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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