A frase que dá título à coluna desta semana foi de uma senhora de 95 anos. Ela convive agora com certa surdez e problemas no joelho já há mais de trinta anos. Porém, é de uma energia incrível. Passa o dia andando de um lado para o outro, faz sua comida (quando deixam). Lê muito e faz palavras cruzadas. Também é muito difícil ganhar dela numa rodada no pife-pafe. Se dependesse da vontade dela ainda iria todos os domingos à missa e participaria semanalmente da reunião da Legião de Maria.

Embora sua audição não ajude tanto, insiste em participar das conversas e sempre tem uma opinião sobre tudo. Temos a mania de esquecer quanto conhecimento os mais velhos acumulam.

Conheço algumas pessoas mais jovens que não possuem sua lucidez e calma para resolver problemas. Sempre tem uma palavra de conforto, pois consegue se colocar no lugar de cada um, entender os motivos de frustrações ou irritações que acometem as pessoas no dia a dia. É, os mais velhos possuem habilidades humanas melhor desenvolvidas, pois estão mais acostumados a vivenciar o mundo real, não o virtual.

Tenho certeza de que a bisavó de meus filhos gostaria que todos tivessem a oportunidade de uma vida quase centenária. Ela, por sinal, gosta muito de viver. Então, porque usou a frase?

Para pessoas, como ela, que estão em constante atividade cerebral, interagindo com o meio, talvez seja mais difícil aceitar o envelhecimento do corpo, que nos cria limites, que nos provoca dores. O cabeça pensa como jovem, mas o corpo não responde como tal. Assim é preciso ser ainda mais forte para aceitar e conviver com o desgaste causado pelo tempo.

Numa de suas crônicas, “Recomendo não envelhecer”, Rachel de Queiroz, que morreu aos 93 anos, comenta: “Você contempla no espelho, vê as rugas do seu rosto, do seu pescoço… Sabe como está velho, embora não sinta como está velho. Sua alma, seus sentimentos, sua cabeça, nada disso confirma a palavra ou a imagem do espelho. Mas os outros só veem de você o que o espelho vê.”

Tanto a fala da Babunha de meus filhos, como no texto de Rachel, percebo que a recomendação de não envelhecer tem um outro viés, tem relação maior com a idade mental, pois é muito mais difícil ser velho com dificuldades de cognição, de aprendizado e da manutenção do senso crítico. Quando uma pessoa idosa conta histórias, dá o exemplo de suas experiências passadas é sinal de sua lucidez. Quando a memória nos trai ou nos falta é bem pior. Se já é difícil uma vida presente nesta idade, imaginem viver sem um passado, sem as boas lembranças, sem o aprendizado das batalhas vencidas e perdidas.

Assim, para envelhecer bem, tão importante quanto os exercícios físicos e uma boa alimentação é a manutenção da atividade intelectual, pois o maior risco é envelhecer a cabeça, em qualquer idade. Portanto, não envelheçam mentalmente. Tudo é uma questão de atitude.

Adnelson Borges de Campos
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