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Neodualismo Platônico: mundo real x mundo virtual

(Imagem Ilustrativa)

Platão (428 a.C. – 347 a.C.) foi um dos maiores filósofos gregos. Discípulo de Sócrates (470 a.C. – 399 a. C.), foi responsável por difundir as ideias socráticas na Grécia Antiga e também criar suas próprias teorias.

Uma das teorias platônicas é o dualismo. Nele, Platão trabalha a ideia da existência de dois mundos: o sensível e o inteligível. O primeiro seria o mundo onde tudo existe na forma de matéria e tudo é percebido por meio das sensações. Assim, as sensações podem enganar, na medida em que o mundo sensível é uma cópia (e como toda cópia é uma reprodução imperfeita do mundo ideal, inteligível), é passível de falhas. Já o mundo inteligível é o mundo das ideias, onde tudo que existe é a ideia, una, eterna, imutável. Está no pensamento e, como o pensamento age como um idealizador, tudo no mundo inteligível é fato, é perfeito.

Na Idade Média, Santo Agostinho (354 – 430), cristianizou o dualismo platônico, chamando os mundos sensível e inteligível de terra e céu, respectivamente. Na terra, mundo sensível, estamos nós, humanos, na condição de criaturas errantes, imperfeitas, corruptíveis e degeneráveis. No céu, mundo inteligível, estaria a alma, o mundo onde o criador habita e, assim, seria o céu um universo perfeito.

Séculos passaram e o dualismo platônico parece tão contemporâneo quanto já fora. Em tempos em que a tecnologia evoluiu a ponto de conectar pessoas de todas as partes do mundo a qualquer momento, tem-se a impressão de que o mundo virtual tornou-se, de fato, um outro mundo.

Em tal mundo a felicidade é diária e inesgotável. As pessoas são corajosas a ponto de defenderem com unhas e dentes suas posições políticas enquanto respeitam as demais opiniões. Em tal mundo, todos têm carros novos, gostos extravagantes. As festas são constantes, o amor não passa por crises, o trabalho é sempre o dos sonhos e o chefe é como um irmão. Esse mundo parece tão perfeito que, talvez, seja a forma prática do céu de Santo Agostinho. Esse mundo parece tão perfeito que, talvez, seja o mundo inteligível de Platão. Onde tudo parece muito bom para ser verdade no cotidiano de seres humanos imperfeitos, lutando pela sobrevivência e pelo poder.

O mundo real continua sendo real, continua sendo dominado pelos sentidos. É imperfeito. Nele, casais se separam, dívidas se acumulam, o trabalho não traz realização, o chefe parece só implicar. As festas não são tão divertidas e a felicidade acaba onde a busca desenfreada pela própria felicidade a qualquer preço começa.

Nota-se, nesse sentido, a visão de um mundo virtual que não possui ligação necessária com a realidade. Além de agente frustrador, esse mundo faz com que prioridades sejam deixadas de lado. Ali, o que realmente importa? Estar feliz, não necessariamente demonstrando sua felicidade, ou parecer  feliz, não necessariamente sentindo e, compartilhando no espaço público a felicidade? O que mais importa: mostrar que se alcançou a felicidade suprema com uma viagem, ou viver de modo a enxergá-la em coisas simples do cotidiano?

O que acontece com o dualismo platônico, nesse caso, é que ele deixa acomodados os que vivem em função da representação em um mundo que só existe na ideia. Nas telas, claro, mas na ideia, na mente, sobretudo. Na ideia se cria a felicidade, na ideia se idealiza uma vida e é por meio da ideia que se mostra aos outros essa realidade que não passa de ideia. Assim, ainda existe o perigo de viver para o mundo inteligível, sem a garantia de que ele seja real. Camuflar-se nas redes sociais é o mesmo que não pecar com medo de ser punido. Sabe-se que a realidade existe no mundo sensível – mundo real, terra, seres humanos – mas, se alguém estiver observando lá do mundo inteligível – mundo virtual, céu – ao menos viu a boa pessoa que se é.

Embora aqui se tenha apresentado uma ideia, não é, necessariamente, uma crítica ao mundo virtual. Isso porque é no mundo virtual em que muitas pessoas se sentem confortáveis e bem consigo mesmas e, de fato, têm esse direito. Se demonstram ou não a verdadeira vida que levam, não cabe aqui julgamentos. Ainda que represente uma série de perigos no mundo sensível, esse novo mundo inteligível, na ideia, tem se mostrado um parque de diversões para a distração humana.

Artigo escrito por Sandra Eloisa Pisa Bazzanella, aluna do 3º2 da EEB Domingos Sávio – Ascurra – SC e Dr. Sandro Luiz Bazzanella – Professor de Filosofia da Universidade do Contestado

 

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