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Nietzsche e o Anarquismo

(Imagem Ilustrativa)

Friedrich Nietzsche é comumente julgado como um anarquista. Um sujeito que nutria grande repulsa ao modelo de organização do Estado e da sociedade, que criticava a composição da cultura e, consequentemente, da moral dos povos; mas vale frisar que em “O Crepúsculo dos Ídolos”, publicado originalmente em 1881, o pensador alemão se propõe a desmistificar – martelar – qualquer conceito. Sendo assim, o próprio modelo anarquista de pensamento é alvo das ácidas críticas nietzschianas.

O anarquista, conforme diz o pensador, representa um estrato social em decadência, isto é, pessoas que não se conformam com a própria insignificância e, para justificá-la, tendem a buscar causas externas. Assim faz o anarquista quando ataca o Estado, apregoando que sua existência é nociva aos grupos humanos, levando-os ao ocaso. “Alguém deve ter culpa pelo meu mal-estar”, ressalta Nietzsche como a frase que traduz o posicionamento anárquico. As queixas intermináveis contra o Estado revelam mais sobre o anarquista do que sobre o objeto de sua revolta: trata-se de um atrativo que torna a vida mais suportável, dá-se-lhe uma pequena razão de viver.

Os débeis se lamentam, se martirizam. Eis o que difere, na ótica de Nietzsche, o anarquista, o socialista e o cristão: o primeiro atribui o motivo de sua debilidade ao Estado; o segundo, aos demais, às pessoas que o cercam e ameaçam sua zona de conforto; o terceiro, atribui a si, mas de maneira a criar um caminho para se safar, pois “quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”.

Sendo assim, o que podemos chamar de “liberdade”? A lógica de atribuição de valor à liberdade segue a lógica do esforço e daquilo que se propõe para obtê-la. Logo, o valor das coisas não se encontra nas coisas, mas na construção que se faz delas, assim sendo, a partir do momento em que são conquistadas, perdem seu caráter de desejável, deixando de serem notáveis. Logo, as instituições liberais se apresentam como o mais nocivo atentado à liberdade, pois a construção da imagem liberal se encerra na aquisição da instituição liberal. Em outras palavras, tais instituições dão fim à vontade de potência. A luta pela liberdade exige enorme disposição, potência do sujeito, por outro lado, o liberalismo instituído causa o “embrutecimento do rebanho”.

A liberdade, portanto, é a tomada de atitude sem deliberar sobre os efeitos causados sobre o próximo, “é ser indiferente às penas, às asperezas, à própria vida”; o indivíduo livre está mais para o guerreiro do que para o democrático: liberdade é agir de acordo com a própria potência[1].

Dezembro de 2017.

Escrito por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Artigo escrito a partir de análise do Livro O Crepúsculo dos Ídolos.

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