Família reunida e tomando sol numa bela paisagem. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Sou casada há sete anos com Erico Tavares. Temos uma linda filha chamada Victoria, que tem dois anos de idade. Meus pais vivem há mais de vinte e cinco anos em São Mateus do Sul, são o Júlio e Vane Nezgoda. Eu não nasci em São Mateus do Sul, mas minha família se mudou quando eu ainda era muito pequena. Toda a minha memória de infância é nessa bela cidade. Estudei na querida escola da Dona Titina. Sei que o nome correto era CPANS, mas pela memória afetiva ainda prefiro chamar de Dona Titina. Inclusive, este é o nome do grupo que temos no Facebook e WhatsApp com os colegas de escola até hoje.

Eu fiz faculdade na Universidade Federal do Paraná. O curso foi Engenharia Química e me formei há alguns anos, tempo demais e que denuncia a idade (risos).

Como saiu de Samas?

Eu me mudei de São Mateus do Sul, para começar a universidade, quando tinha apenas 17 anos. Mais uma vez, há algum tempo atrás (risos). Me mudei para Curitiba, onde morei pelos cinco anos seguintes. Depois disso, morei cerca de sete anos no Rio de Janeiro, onde trabalhava.

Estou morando no Canadá desde 2017. Depois dos Jogos Olímpicos e Copa do Mundo no Rio de Janeiro, ficou muito caro e difícil continuar morando lá. Então, resolvemos que era chegada a hora de uma mudança para podermos ter uma perspectiva melhor de futuro, principalmente para nossos “futuros” filhos. Foi então que exploramos algumas opções e achamos que seria melhor irmos para o Canadá. A escolha do local no Canadá foi baseada em estilo e custo de vida, possibilidades de emprego e opções de universidade. Como voltei a estudar quando vim, o fator decisivo foi a opção de universidade. Foi assim que nos mudamos para São João da Terra Nova, como é conhecida. Ou, em inglês: St. John’s – a cidade mais oriental do Canadá.

Como é a sua vida aí?

A província e muito pacata e calma, o que nos ajudou imensamente quando chegamos. Os nativos daqui são muito receptivos, sempre dispostos a ajudar como puderem. A adaptação ao clima foi um desafio, como era esperado. Nem tanto pelo frio, porque ainda acredito que são-mateuenses passam mais frio que os canadenses durante o inverno, mas pelas consequências que o frio traz. Nenhum brasileiro tem ideia, pelo menos eu não tinha, que longos períodos sem sol (e quando digo “sem sol” é completamente sem sol) podem afetar muito sua qualidade de vida. Além disso, ter que levantar mais cedo para – literalmente – cavar sua saída de casa e da garagem… isso não é nada divertido.

Sendo visitados pelos icebergs.

Temos anualmente visitas de baleias, um espetáculo.

Aqui também temos o problema de ser o terceiro lugar que mais venta no mundo. Temos alerta para ventania quase toda semana durante os meses mais frios. Em alguns momentos, você tem a impressão que não está nem conseguindo andar para frente… é um pouco assustador no início, até se acostumar.

Mas claro que tem muitas coisas boas. O motivo de termos nos mudado para o Canadá foi pensando em oferecer uma vida mais simples e mais segura para nossos filhos. Esse objetivo, com certeza, foi alcançado. Na cidade onde moramos nenhuma casa tem cercas ou muros. As crianças brincam nas ruas até tarde sem nenhum medo. Os carros ficam parados nas ruas, abertos e com a chave na ignição, sem nenhuma preocupação de que alguém possa levá-los. Aprendemos a confiar no próximo, sem pensar que podemos sofrer um golpe ou sermos enganados de alguma forma.

As dificuldades

Conseguimos empregos assim que chegamos, porque não recusamos nenhuma oportunidade. Trabalhamos (Erico e eu) em lojas de shoppings. Em mais de uma ao mesmo tempo, algumas vezes. Trabalhar em alguns horários não tão ortodoxos foi um pouco chato. Por um ano eu trabalhei todos os domingos, sem exceção. Mas, acima de tudo, a principal dificuldade que enfrentamos é a distância dos familiares e amigos no Brasil. Principalmente, depois das mudanças por conta da pandemia. Não poder estar próximo dos seus familiares em momentos importantes dói muito fundo no coração. A tecnologia ajuda e nos falamos frequentemente por chamadas de vídeo, mas sabemos que não é a mesma coisa.

Fale um pouco do seu trabalho

Como falei antes, trabalhei por um ano em lojas de shoppings. Trabalhei em lojas de perfumes, de artigos para casa e a última loja que trabalhei foi uma joalheria. O principal aprendizado com essa experiência foi o de dar mais valor aos vendedores. Só quem passa por isso sabe!

Mais recentemente, eu consegui um emprego na minha área de engenharia. Sei que vai parecer bastante estranho, mas tenha em mente que o Canadá legalizou o consumo de maconha recreativa em todo o país em 2018. Então, depois de dito isso, posso contar que trabalhei por dois anos em meio em uma fábrica de Cannabis. Foi um exercício de mudança de paradigmas e constante aprendizado para mim que, vinda do Brasil, ainda carregava muitos preconceitos. Hoje, eu posso dizer que entendo muito melhor o mundo da comercialização de Cannabis. Infelizmente, muitas pessoas ainda não entendem completamente todas as utilizações da planta e temos um caminho longo pela frente. Mas foi uma experiência muito interessante e enriquecedora para mim, como profissional e como pessoa também.

O que falta do Brasil aí?

O Sol! E a comida. Quanta falta faz um queijo minas com doce de leite, uma cuca de queijinho com goiabada, uma boa feijoada…. e, claro, nosso amado guaraná. Algumas coisas até encontramos aqui, mas normalmente custam muito caro.

Outra coisa que faz falta aqui, para as mulheres principalmente, são os serviços de beleza. Cortar o cabelo, pintar, fazer as unhas, depilação… claro que estes serviços existem aqui, mas não chega nem aos pés da qualidade do serviço que temos aí. Isso é consenso geral! Muitas brasileiras que conheço aqui esperam até uma visita ao Brasil para fazer este tipo de coisa.

O que falta daí no Brasil?

Bom, eu falo como alguém que viveu no Rio de Janeiro antes de vir para cá, então não necessariamente se aplica a São Mateus do Sul. Mas falta segurança, falta respeito pelo próximo, falta educação e saúde para todos, falta senso de coletividade. Sei que pode gerar polêmica, pela diferença de opiniões, mas se vocês pudessem ver como o lockdown foi seguido pela população aqui, entenderiam porque não temos casos ativos de Covid-19, enquanto no Brasil estamos nessa calamidade. Senso de coletividade.

Como o Brasil é visto aí?

Pelas conversas que tive assim que cheguei, o Brasil era conhecido por suas praias, lugares lindos para visitar e o povo extremamente amistoso. Alguns canadenses que já tinham visitado o Brasil só tinham coisas boas para contar.

Recentemente, passamos a ser taxados negativamente pela nossa péssima situação em relação ao gerenciamento da pandemia. As pessoas com quem eu conversei e que souberam que eu era brasileira, demonstravam preocupação em relação a minha família que vive aí e faziam alguns comentários ruins em relação a nossa política. Espero que um dia consigamos reverter essa imagem.

Fale um pouco dos costumes.

Aqui, na província onde moramos, as pessoas são muito patriotas. Isso é algo que chama bastante atenção. Amam a terra onde vivem e não querem nunca sair daqui. Inclusive, eles não se consideram canadenses, mas sim “Newfoundlanders”, ou seja: nascidos em Newfoundland. Esta é uma província ainda pouco desenvolvida industrialmente, um pouco devido ao conservadorismo da população daqui. Então, muitas famílias moram em casas afastadas, no meio do nada, onde podem ter a própria horta e caçar os animais para seu próprio consumo. A pesca é muito forte nesta região. Aqui, temos o melhor bacalhau do mundo, que, inclusive, é exportado para Portugal, então pode acreditar quando digo que é muito bom!

Como é a neve na porta da casa da família.

A principal atividade aqui, depois da pesca, é o ecoturismo. Também temos algumas das trilhas mais lindas do mundo, de acordo com revistas como National Geographic. São paisagens de tirar o fôlego mesmo.

Durante o verão, podemos ver icebergs e baleias nas nossas praias. Uma experiência incrível! Fica cheio de gente na praia com seus binóculos procurando as baleias e, quando encontram, gritam e apontam para que os outros que estão perto também possam vê-las. Elas dão um show mesmo!

Os nativos daqui não gostam de morar nas regiões centrais e, inclusive, existe um pouco de preconceito com quem vive lá. E a eterna rixa entre os “Bayman” e “Townies”, os que vivem nos arredores das baias e os que vivem na “cidade”.

Apesar de se falar inglês aqui, devido à forte influência irlandesa, o sotaque local é muito forte e existem muitas expressões que ninguém mais conhece. Então, não é nada fácil entender os nativos. Mas eles mesmos fazem graça com isso. Existem lojas só com artigos, como: canecas, camisetas e placas decorativas com as expressões locais impressas.

Especificamente na cidade onde moramos, existe uma tradição onde as pessoas se vestem com lençóis na cabeça, roupas bem espalhafatosas e chapéus engraçados, fazendo passeata pelas ruas e cantando. Enquanto na passeata, eles entram nas casas (mesmo sem serem convidados) e oferecem uma dose de bebida para o morador, brindando juntos. Este é o chamado Mummers Festival. Até hoje, ninguém soube me dizer exatamente porque existe ou como surgiu, mas me lembra um pouco do nosso carnaval de rua. Outra curiosidade são as casas daqui: são das cores mais vibrantes e diferentes umas das outras. São chamadas de “Jelly Beans”, que é como chamamos as jujubas, por causa das suas cores.

Comparando esse lugar e o Brasil?

Aqui tem uma comunidade brasileira bem grande e unida, o que ajuda em tempos difíceis, com toda a certeza. Costumamos dizer que aqui é o lugar mais abrasileirado do Canadá. Isso porque as pessoas são bem amigáveis, também gostam de abraçar e são mais despojadas. Até mesmo meus pais, quando vieram me visitar, perceberam isso, porque toda hora alguém vem puxar papo, faz algum elogio e quer te ajudar de alguma maneira.

No meu primeiro dia aqui, peguei o ônibus e não sabia como funcionava o pagamento, então não tinha moedas comigo e o ônibus só aceita pagamento em moedas ou no “cartão transporte”. Fiquei toda sem graça e estava descendo do ônibus quando uma moça veio, do fundo do ônibus, e pagou a minha passagem. São gestos como esse que me fazem valorizar a decisão de ter vindo morar aqui. Tamanha a gentileza e sem qualquer interesse pessoal. Sei que o brasileiro também é muito gentil, mas estamos perdendo isso aos poucos e situações como esta são cada vez mais raras de se ver.

Uma das paisagens paradisíacas daqui.

Mummers Festival, lembra o carnaval.

Antes de nos mudarmos para o Canadá, passamos algum tempo na Irlanda. Foi bem interessante ver a influência irlandesa no meu novo país agora que moramos aqui, porque várias coisas são muito parecidas mesmo, não só as pessoas, o que é uma influência muito forte. Inclusive, a topografia, cenários e paisagens. A teoria da Pangeia confirma mesmo (risos).

Mais alguma coisa a falar sobre essa experiência de morar e trabalhar em outro país?

Muitas pessoas têm a ideia errada de que morar fora do país é só coisas boas. A adaptação para outra cultura é bastante complicada e passamos vários perrengues para chegar onde chegamos. Mas não me arrependo. Toda experiência nos acrescenta algo e, se hoje decidisse voltar a morar no Brasil, tenho certeza que levaria comigo milhões de lembranças e recordações maravilhosas.

A brasileirinha Victoria.

Apesar de estarmos morando fora do país há quase 4 anos, continuamos antenados no que acontece por aí e, todos os dias, incentivamos nossa pequena Victoria, que nasceu aqui, a conhecer e explorar um pouco mais da nossa cultura. Só falamos com ela em português, para que ela aprenda a língua, e tentamos de todas as maneiras que podemos mostrar para ela como é o nosso Brasil. Pode até parecer hipocrisia, mas queremos que ela cresça com orgulho de ser brasileira, porque ela é.

Não raramente encontramos brasileiros aqui que não querem contato com outros brasileiros e fazem de tudo para esconder suas raízes. Acredito que jamais devemos esquecer de onde viemos e, apesar de todos os pesares, eu sou uma grande defensora do nosso país por onde passo. Temos o potencial para sermos grandiosos e nosso povo é muito lutador e guerreiro. Prova disso é que todos os lugares aqui adoram contratar brasileiros, porque sabem que somos muito trabalhadores, comprometidos e responsáveis. Podem perguntar!

Por fim, se alguém estiver com as malas prontas para vir ao Canadá, manda uma mensagem! Nossas portas estão sempre abertas para receber!

Hugo Lopes Júnior
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