Entre 1760 e 1780, a região que hoje se localiza o município de São Mateus do Sul era marcada por uma intensa movimentação de expedições militares de conquista, principalmente pelo rio Iguaçu, que anteriormente era chamado de Rio do Registro. Mas, que expedições eram essas? Quem estava no comando de tudo isso? Quais eram os objetivos?

Nesse período, as fronteiras da região sul do Brasil eram disputadas entre as Coroas de Portugal e da Espanha. O governador da Capitania de São Paulo, da qual nós, paranaenses, fazíamos parte, estava a cargo de Dom Luiz Antônio de Souza Botelho de Mourão que possuía um título de nobreza denominado Morgado de Mateus. Além de ser autoridade máxima na Capitania de São Paulo, a Coroa portuguesa lhe concedeu, a patente de Capitão-General que lhe dava amplos poderes militares. Dom Luiz Antônio tinha um primo em Curitiba chamado Afonso Botelho de Sampaio e Souza que também era seu Ajudante de Ordens. Foi Afonso Botelho quem convocou vários soldados, inclusive Bruno da Costa Filgueira, para as expedições ou bandeiras, para desbravar e fixar povoamento em nossa região. Foram chamadas de Expedições do Tibagi, que no total foram seis. E quem era Bruno da Costa Filgueira antes de entrar para a carreira militar?

Bruno da Costa Filgueira nasceu em 1738, provavelmente em Curitiba. Os registros históricos não apontam com precisão esse fato, mas seu pai residia em Curitiba na época de seu nascimento. Seus pais eram portugueses que emigraram para o Brasil. Com o falecimento de seu pai, herdou do mesmo, lavras de ouro. Era esse seu trabalho até ser chamado por Afonso Botelho. Em uma época que era raro saber ler e escrever, Bruno possuía esse conhecimento. Sua família também era abastada. Possuíam minas, uma fazenda com plantação e criação e uma casa na cidade de Curitiba. Foi chamado para a primeira expedição da conquista do Tibagi comandada pelo tenente Lopes Cascais na função de cabo. Essa expedição desceu o rio Iguaçu, desde o Porto de Nossa Senhora de Caiacanga (hoje município de Porto Amazonas), em 1768, para explorar o curso. Durou três meses e trouxeram a notícia dos “saltos” (cachoeiras), na continuidade do rio.

Houve uma segunda e uma terceira expedição, onde não há relatos da participação de Bruno. Já a quarta, teve por comandante Bruno da Costa Filgueira, já como sargento. Esta expedição partiu com 25 homens de Caiacanga, em 1768; descendo o rio Iguaçu até a foz do rio Potinga. Bruno subiu esse rio e explorou também o seu afluente Braço do Potinga; andou até a Serra da Esperança e retornou ao rio Iguaçu. Era preciso contornar por terra para se continuar a viagem. Quando subiu pelo rio, foi que desbravou suas matas ou os “sertões do Potinga”, como menciona em relatório oficial.

Era imprescindível subir um rio que desaguasse no Iguaçu. É interessante fazer um parênteses aqui, para relatar que Bruno da Costa Filgueira tinha habilidade de marchar a pé, como faziam os bandeirantes paulistas. Na historiografia paranaense já foi chamado de” Bandeirante do Iguaçu”. Ainda nessa expedição no Potinga, veio em seu encontro seu irmão Bernardino da Costa Filgueira para auxiliá-lo, trazendo correspondência, mantimentos e armas. Bernardino escreve uma carta a Afonso Botelho relatando que nos arredores do rio Potinga existem campos e faxinais. Bruno ficou por 40 dias nos sertões do rio Braço do Potinga até atingir novamente o Iguaçu. Foram dias difíceis, segundo seu relato, com poucas armas (algumas não funcionavam mais), alimentando-se na maior parte das vezes só de caça (antas, porcos, pássaros) e já não sabiam mais o gosto do sal.

Na quinta expedição do Tibagi (1769), o comandante era o Capitão Antônio da Silveira Peixoto. Como esse militar demorou a dar notícias porque havia sido aprisionado por espanhóis, foi enviado em seu auxílio Bruno da Costa Filgueira, já então como tenente. Segundo Afonso Botelho, Bruno foi escolhido para essa missão porque conhecia esse sertão e possuía talento para tal missão. Outro militar chamado Cândido Xavier de Almeida Souza, também foi enviado um tempo depois em socorro à essa expedição, que no caminho resultou na descoberta dos Campos de Guarapuava.

Bruno partiu para essa sua última viagem (Quinta Expedição do Tibagi), em março de 1770. Era uma tropa composta por 23 homens, incluindo alguns do Porto de Nossa Senhora da Vitória, e alguns desertores de outras expedições. Em um trajeto já conhecido, levavam armas, mantimentos (feijão, farinha, toucinho), munições e mensagens de Curitiba. Construíram ranchos para se abrigarem e pelos rios que passaram (rio Irati, rio Jangada), fizeram canoas e jangadas para o transporte de homens e mercadorias. Depois de vários dias pelos sertões, ao entrar novamente no rio Iguaçu, sua canoa perdeu-se na correnteza. Bruno da Costa Filgueira morreu afogado no final de agosto de 1770. Consta no relato de uma de suas cartas anteriores, onde ele dizia que era melhor morrer do que mostrar fraqueza. E assim aconteceu.

No curto espaço de um ano e meio, esse homem tomou parte na primeira expedição, chefiou a quarta e empreendeu na quinta sua última e longa viagem em socorro de seu colega de missão, Silveira Peixoto.

A história do curitibano Bruno da Costa Filgueira não foi esquecida. Nos lembramos dele todas as vezes que fazemos referência aos primeiros registros oficiais sobre as terras de São Mateus do Sul. Dom Luiz Antônio, o Morgado de Mateus, também dele não se esqueceu ao pedir a sua lembrança para aqueles que trabalharam e morreram naquela conquista. Uma das ruas de Curitiba leva seu nome.

Foto: Itinerários de Cândido Xavier e Afonso Botelho para os Campos de Guarapuava em 1771 (Fonte: FRANCO, 1943).

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