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“Nos embalos da sanfona, faço o sentido e o ritmo da minha vida”, diz Selma Silva

Conheça a história da primeira professora de alunos deficientes visuais de São Mateus do Sul que inicia uma nova jornada de vida. (Foto: Acervo Pessoal)

São-mateuense, nascida na então comunidade da Nova Tesoura, Selma Silva, a primogênita filha mulher da família Silva traçou desde pequena seus sonhos, os diferenciando de seus objetivos, mesmo que residindo no interior e sofrendo com uma dura realidade do acesso a eles – seu maior sonho, “ser professora”, “mas meu pai não deixava, ‘filha mulher estudar para quê’?”, lembra emocionada no início da conversa com a equipe do Gi, logo entrando na história de sua vida.

A jovem que frequentou a escola no interior do município até a quarta série, foi surpreendida quando ao completar o ensino regular, recebeu o convite para ajudar a professora e assim dando o ponta pé inicial de seu sonho, “eu fiz a quarta série e fiquei ajudando a professora – eu queria estudar e não conseguia ir para a cidade dar continuidade aos estudos – e pouco tempo depois a professora se aposentou e foi embora para Curitiba, e fiquei com a turma dela com apenas 14 anos, na época da gestão do Lourival Mayer, mesmo sem registro, eu era paga por fora”.

Aquela altruísta adolescente que desde pequena assumiu uma responsabilidade de gente grande, não poupou esforços e criatividade para dar sequência a seus sonhos. Logo aos 16 anos apaixonou-se e se casou, e nos revela que “casei para poder morar na cidade e assim poder estudar”, mas os planos não saíram conforme o planejado. Tão logo se casou e residindo na cidade, engravidou e teve de adiar seu objetivo, que não demorou muito. Diariamente, às 5 horas da manhã, retornava à comunidade de Cambará onde continuou ministrando aulas e no final do dia, ainda se dirigia ao município vizinho de São João do Triunfo para frequentar o ensino médio, através de um curso intensivo, na época conhecido como afronte, o qual lhe oportunizou concluir os estudos básicos.

“Iniciei na escola do Cambará, depois substitui várias professoras em escolas de todo o município e quando atuava na escola São Mateus, situada onde hoje é o Lar São Mateus, fui convidada pela secretária de educação para fazer um curso em Curitiba”, a partir deste momento a vida de Selma tomou uma guinada diferente. Em 1990, São Mateus do Sul registrou a primeira demanda de estimulação visual no ensino regular, havendo a necessidade de especialização na área, com o aprimoramento do curso emergencial em deficiência visual, sendo a professora Selma a escolhida para fazer o curso que durou alguns meses e depois dada a sequência com a complementação e especialização.

Depois da inserção do centro de atendimento ao aluno deficiente visual na cidade, os alunos só se multiplicaram e ao longo de 20 anos, mais de 200 alunos passaram pelas mãos da professora que em 2017 completou 37 anos de atuação no magistério e pendurou as chuteiras, ou seja, iniciou uma nova jornada de vida. “Ainda não me sinto aposentada, sempre pensei que nunca iria deixar a escola, minha dedicação diária, mas estou vivendo minha vida de aposentada numa boa”, enaltece Selma.

Selma, além de correr atrás de seus sonhos teve de conviver, desde pequena, com uma doença que surgiu inesperadamente e, hoje, aposentada do magistério, foca seus objetivos no tratamento, “quando eu era muito pequena tinha uma mancha na pele e minha avó me levou para Curitiba onde iniciei um tratamento que nunca fez sumir aquela mancha, conhecida como vitiligo”.

A professora e o vitiligo

Vitiligo é uma doença não-contagiosa em que ocorre a perda da pigmentação natural da pele. Patologicamente, o vitiligo caracteriza-se pela redução no número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo — a melanina. Contudo, estresse físico, emocional, e ansiedade são fatores comuns no desencadeamento ou agravamento da doença. Essa despigmentação ocorre geralmente em forma de manchas brancas (hipocromia) de diversos tamanhos e com destruição focal ou difusa. Pode ocorrer em qualquer segmento da pele, inclusive na retina (olhos).

Após anos de uma busca incessante pela cura, a professora em 2015, procurou os médicos cubanos que recém haviam chegados em São Mateus do Sul, “os médicos me apresentaram um tratamento desenvolvido em Cuba e eles me encaixaram num grupo de estudos na Faculdade Evangélica em Curitiba, e desde então venho fazendo um tratamento que vem me deixando feliz”, conta. “Tive de fazer um tratamento com psicólogos antes, para ajustar um dos principais fatores que poderiam interferir no tratamento – o emocional – a pior coisa aconteceu, tive de ser afastada de meu trabalho e dos meus alunos, mas pensando em minha saúde o fiz”, relata.

Um dos momentos mais marcantes de sua vida foi quando teve de tomar a decisão de dar continuidade ao tratamento, pois os médicos lhe alertaram da possibilidade da queda de seus cabelos, pelo fato de que seria similar à radioterapia. “O médico me disse que eu teria de estar ciente disso e que meu cabelo poderia cair. Mas como entrei com o objetivo de melhorar, vou até o fim e se ficar careca coloco peruca”, afirmou ao médico que se surpreendeu com a determinação da paciente.

Então o tratamento com a fototerapia iniciou em julho de 2016 e junto dele o uso de um medicamento que custava R$ 7 mil e era importado dos Estados Unidos, valor este custeado através da farmácia via judiciária. Mas como tudo tem uma contrapartida e nem sempre é mil maravilhas, aquele medicamento que estava solucionando seu problema ocasionou uma série de prejuízos a sua saúde, fígado e rins começaram a apresentar problemas, sendo necessário a interrupção parcial do tratamento que ainda hoje se perpetua três vezes por semana com a ida a capital. “Sempre fui cheia de manchas, apesar de não ter nascido assim, então porque devo continuar assim? Essas manchas têm de desaparecer!”.

O amor pela dança de salão

Desde pequena ouvindo seu pai escutar aquela vitrola antiga que transmitia os programas de rádio local e enfocavam as músicas sertanejas raiz, a sonhadora relata que odiava aquele chiado de músicas chatas. Hoje aquilo que não gostava é uma das suas principais satisfações, dançar ao som de uma bela música gaúcha pautada ao chamamento do fole da gaita.

Vestida de prenda e movida ao amor pela dança, Selma Silva justifica sua força na luta pela sua melhora, “semanalmente vou a Curitiba, faço o tratamento pela manhã e à tarde vou aos bailes da terceira idade, onde me recarrego para a sessão do outro dia”, conclui.

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