(Imagem Ilustrativa)

Enquanto a forte chuva fazia barulho no telhado e as gotas escorriam pelos vidros de minha janela, numa das noites desta semana, eu ouvia pela internet a narração de uma partida de futebol, no rádio, com a participação do meu time de coração. Mais uma vez voltei no tempo e pensei na importância do rádio como veículo de comunicação na vida das pessoas.

No final dos anos 1970, início dos anos 1980, quase todo meio de semana eu deitava com o rádio que pertencia ao meu pai, o deixava com o volume baixinho, com o som abafado pelo travesseiro, ouvindo pela Rádio Bandeirantes a narração esportiva de Fiori Gigliotti, “o locutor da torcida brasileira”. Ainda lembro de alguma de suas frases: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”; “E o tempo passa…torcida brasileira” (quando uma equipe precisava fazer um gol); “Aguenta coração!”; “É fogo… é gol!”.

Muitos locutores espelharam-se no brilhantismo do Cidadão Honorário de 196 cidades paulistas para desenvolverem seus trabalhos.

O rádio influenciou e influencia gerações. Quem não ouvi no rádio na casa dos avós ou dos pais alguns programas inesquecíveis, como por exemplo A Turma da Maré Mansa, nome adotado como forma de publicidade para o seu patrocinador, a rede de lojas Impecável Maré Mansa, com programas humorísticos diários, por onde passaram alguns dos maiores humoristas brasileiros da época. Sem apelação, faziam rir pessoas de todas as idades.

Embora muitos questionassem, por ser obrigatória a sua radiodifusão, o Projeto Minerva, promovido pelo Governo Federal nos anos 1970, para educar adultos, me encantava por falar da cultura brasileira, de brasilidade e fazer com que conhecêssemos melhor a nossa língua.

Também lembro do meu pai ligando o rádio muito cedo e colocando no Programa do Zé Béttio, que não deixava ninguém perder a hora, num programa movimentado e divertidíssimo. O homem de fala simples conquistava “um Brasil de audiência”.

Minhas tias não perdiam um só capítulo das telenovelas, numa época em que poucos tinham acesso à televisão. Havia um show de interpretação e de sonoplastia que mexiam com a imaginação e com a emoção das ouvintes que se envolviam muito mais com as tramas, pois não queriam perder nenhum dos detalhes, debatidos depois numa roda de chimarrão ou no armazém da esquina.

Alguns afirma que o rádio tem características próprias, mas que encaixam perfeitamente com o avanço tecnológico. Segundo Milton Jung “O rádio é interativo, veloz, customizado, tem mobilidade e é multiplataforma” e que o brasileiro quer “ouvir a sua voz e o seu sotaque”, portanto, tem uma característica local, mas pode atingir o mundo, pois não depende mais de cabos ou retransmissores independentes para levar sua mensagem. O ouvinte pode estar no Japão e com um click ouvir a rádio da sua cidade no interior brasileiro, por exemplo. É um canal de comunicação democrático e interativo.

Ricardo Boechat dizia que “A pessoa escuta rádio no carro, em casa, no trem, correndo, caminhado. Só o rádio permite que a pessoa consiga ouvir e fazer outra coisa ao mesmo tempo. Isso fará com que o rádio sempre seja uma fonte de informação”, afirmou ele. Fonte de informação, cultura e entretenimento, completo.

Há vários programas de rádio com gravações disponíveis na Internet, antigos e novos. Podem servir de base, de aprendizado para os profissionais dedicados ao rádio. Não é preciso muito para se ter qualidade na realização dos programas. É claro que um dom ajuda, mas com um pouco de esforço e boa vontade, é possível fazer melhor.

Quem tem uma concessão e a oportunidade de administrar uma emissora de rádio pode e deve promover o desenvolvimento desta importante ferramenta de comunicação.

Também sonho com a possibilidade de que as emissoras voltem a difundir músicas de qualidade, pois hoje negam à nossa juventude a oportunidade de conhecer cantores de verdade, boas melodias e um pouco de poesia.

Eu tive a felicidade de ter um miniconto meu narrado por Flávio Stein, da antiga Rádio Lumén FM de Curitiba. Logo em seguida a emissora foi mais uma das que se dedicaram exclusivamente a difusão de programas religiosos. O espiritual é importante, mas hoje há um número excessivo de novas igrejas e emissoras de rádio a elas dedicadas.

Adnelson Borges de Campos
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