(Imagem Ilustrativa)

Hesitei em escrever este texto. Quem sabe eu possa ser mal interpretado, mas há algo que não me sai do pensamento. Algumas imagens repetidas incansavelmente no noticiário me incomodaram.

Eu não me sentia tão mal com uma cena, desde que foram exibidas imagens do momento anterior as degolas de pessoas por extremistas do Estado Islâmico.

Fiquei imaginando o que pensaram as senhoras e crianças, enfim, todas as pessoas que, nesta semana, assistiam o programa da Ana Maria Braga e, de repente, se depararam com a cena de policiais carregando um corpo sem vida, como se carrega um saco de lixo, jogando no piso de uma ambulância dos bombeiros. Ao menos se deram ao trabalho de cortar uma parte da cena, onde aparecia a genitália do morto, ensanguentada. O mesmo cuidado não teve quem postou imediatamente as imagens na Internet, que se espalharam pelas redes sociais.

Na sequência, no céu, fogos de artifício. Talvez um governador estivesse pensando em reaparecer, montado em seu cavalo branco (como quando concorreu às eleições presidenciais), agora com dois revólveres na cinta e repetindo o gesto de um outro governador, hoje afastado do cargo, que também comemorou em cena cinematográfica a morte de um sequestrador de ônibus.

Na cena desta semana, olhando com mais atenção, tudo acontece em frente a uma escola municipal. A imagem também mostra uma mãe, levando o filho pela mão, uma criança com não mais de cinco anos. Talvez tenham testemunhado a cena. Faltou sensibilidade para quem tomou a decisão de usar o local como base para as operações, sem um mínimo de isolamento.

Há desencontro de informações. Algumas notícias dizem que o criminoso descarregou sua pistola contra os policiais, que em defesa própria disparam mais de uma centena de tiros contra ele.

Não quero dizer que o homem morto era inocente, já que confessou seus crimes. O que quero lembrar é que nada justifica a comemoração da morte de alguém. Também, seria prudente que os meios de comunicação pensassem melhor em como divulgar tais fatos, pois a forma como são apresentados e relatados impactam fortemente toda a sociedade.

Li a matéria de veículo de comunicação que sutilmente cita o Código de Ética do Jornalismo, que em seu capítulo III destaca que “o jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”. Será que lembraram disso antes da pressa em conseguir um furo de reportagem ou notícia em primeira mão?

Também noticiaram que o criminoso aterrorizou a pequena comunidade dos arredores de onde se escondeu. Acredito que o terror tenha sido plantado não só por ele, mas também por todos aqueles meios de comunicação que bombardearam o país com longas chamadas de vídeo durante os vinte dias de tentativas de prisão do bandido, com a intenção de vender notícias. Mas se vendem, é porque há quem compre.

Somos todos nós os responsáveis por situações como esta, que se repetem. Nada mudará enquanto não reforçarmos valores como ética, honestidade, responsabilidade, fé e respeito, por exemplo. Boas ações devem ser bem divulgadas, comemoradas. Não deveríamos ganhar dinheiro vendendo sangue derramado, com notícias a qualquer custo.

Adnelson Borges de Campos
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