(Imagem Ilustrativa)

Agora chegou a vez dos homens se cuidarem, passado o Outubro Rosa, vem o Novembro Azul para lembrar aqueles que são super machos de plantão, que precisam se cuidar também. Muitos dizem que não precisam, que não é necessário devido ao temido exame que dura a eternidade de alguns segundos, menos de um minuto.

Falando nisso, é preciso alertar os que se consideram macho demais para tal ultraje sobre sua pessoa, que o câncer de próstata, não apenas mata, mas para aqueles que não conseguirem vencer a doença, como se diz na gíria, judia muito.

Aqui nesta coluna na maioria das vezes são acontecimentos que ocorreram comigo, e vamos então, dar um relato bem sério sobre isso. Há alguns anos passei por um dos piores momentos da minha vida, e tem tudo a ver com o câncer de próstata. Aconteceu que por um período de tempo, eu estava tendo um pequeno incômodo, mas que me atrapalhava deveras, ao ter que acordar a noite, três ou quatro vezes para ir ao banheiro urinar, e assim acabava perdendo o sono e o dia seguinte ficava pela metade, pois não rendia por conta do cansaço. Fui num médico clínico geral, pois não havia urologista na cidade, mas acreditei que não teria problemas maiores e que um clínico geral bastaria para o meu caso. Fui na consulta e relatado o problema, e em seguida seriam pedido alguns exames, mas o médico me perguntou há quanto tempo eu não fazia outros exames, como triglicerídeos, colesterol, entre outros, e comentei que já fazia alguns anos e ele perguntou se eu gostaria de fazê-los, e assim aproveitei o que era pra ser apenas exame de urina, virou de sangue e sei lá quantos virou na verdade.

Exames realizados e chega o dia de buscar os resultados, tranquilo que estava, liguei antes e me informaram que um dos exames precisou ser refeito, que demoraria mais alguns dias, então, aguardei pra saber de tudo junto, já que seriam enviados para o médico os resultados. Tempo regulamentar esgotado, lá fui eu até o médico pra saber dos resultados, e pegar algum remédio para o meu problema noturno. Na verdade diurno também, mas é que durante o dia não me incomodava tanto.

Recebi os resultados direto da secretária, com um aviso de procurar urgente um especialista e junto estavam dois endereços de médicos oncologistas em União da Vitória. Tremia todo o meu corpo, ali na frente da secretária que me olhou com aquele olhar de “Porque eu tenho que dar essas notícias”

Fui até o carro, me sentindo cambaleando, mas firmando pra não aparentar o tanto que tremia por dentro. Sentado no carro, fui ver do que se tratava aquela pegadinha. Era o tal de PSA que estava muito alterado. Respirei um pouco e fui direto pra casa pesquisar no Dr. Google o que era exatamente esse tal de PSA. Depois de um bom tempo de pesquisa, as conclusões não eram nada favoráveis para o meu lado. No exame tinha a referência para apontar o que era normal e o que era anormal, e para o tal e famigerado PSA, apontava que o tipo de exame feito tinha como padrão algo assim, até 60 anos 2 (alguma coisa), de 61 até 80 anos de 2 a 4 (alguma coisa) era a normalidade. O meu resultado deu apenas 57 (alguma coisa), com o agravante de ter sido repetido o exame, pois era ele que tinha sido refeito. Resultado: câncer de próstata, antes de completar 50 anos.

É difícil definir tudo o que passa na cabeça da gente nessa hora, é um misto de raiva da vida, raiva de eu mesmo por nunca ter feito o exame, raiva de achar que era injusto isso. A gente chora um pouco, depois bastante, mais depois ri por achar que ficaria pra semente, que iria conquistar algumas coisas na vida, que iria brincar um dia com netos e netas, que faria aquela viagem de moto, e começa a revisar tantas coisas e desejos que ficarão pra trás e que ninguém irá saber que você tinha. Ri por dizer pra mim mesmo, que pelo menos não teria problema em ficar careca, pois já estava. Tantas coisas que passam pela cabeça da gente e para mim, ao menos, um misto de raiva e resiliência.

Passado o impacto inicial, que é deveras complicado, é realmente difícil de explicar esse tipo de notícia. É complicado quando você sabe sobre os outros amigos, e parece ainda pior com a gente mesmo, não por não desejar a doença, mas porque achamos que os outros são mais fortes do que a gente é. Passado aquele turbilhão de emoções e pensamentos, um banho tomado pra desinchar a cara depois de chorar um tanto e pensar nos próximos passos.

Recebi esse resultado numa sexta-feira pela manhã, e fiquei pensando a partir dali em duas coisas somente. No domingo era Dia das Mães, como eu poderia dar uma notícia dessas para ela, e como eu daria essa notícia para meus filhos. Iria passar o fim de semana na casa da minha mãe em Curitiba, resolvi ir apenas no domingo, não sou bom ator e não conseguiria esconder dela, mãe tem sexto, sétimo, sei lá quantos sentidos. O pouco que consegui pensar, o que me veio na cabeça foi pedir ajuda ao meu irmão que é médico, para me ajudar em outro dia dar essa notícia para todos. Pra ajudar ele estava de plantão e somente quando estava saindo de retorno para casa, ele chega, e eu falo apenas assim, “Mano, estou numa enrascada, me ajuda a falar pra mãe e pro pai, mas em outro dia”, e entreguei os exames para ele. A resposta foi, “Calma que não é o que isso aqui está errado”, respirei fundo e pensei, meu irmão quer me dar uma força apenas, pois o exame foi refeito. Ele explicou que o resultado estava muito, mas muito fora da curva, e só poderia estar errado, que algumas situações poderiam fazer o exame dar aquele disparate de resultado. Cinco minutos de perguntas e respostas e “voilà”, matou a charada e o problema. O resultado do exame até poderia estar correto, mas as minhas condições para fazer o exame é que não eram, mas o laboratório não falou nada sobre isso. Foi mais um milagre que recebi na minha vida, não era nada.

Não desejo pra ninguém tudo o que passei naqueles dias, faço o exame regularmente sem a menor cerimônia, e eu tiro sarro de quem não o faz.

Hugo Lopes Júnior
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