Mentes Inquietas

Nuances do jornalismo brasileiro

(Imagem Ilustrativa)

De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016, os jornais impressos são utilizados  como principal fonte de informação por  apenas 3% da população[1]. A tiragem de jornais impressos  brasileiros tem caído consideravelmente nos últimos 10 anos, muitos atribuem este fenômeno à popularização da internet, que opera como uma fonte rápida e ilimitada de informações e entretenimento. De fato, a história demonstra que o surgimento de toda nova mídia causa impactos na popularidade de suas antecessoras e discursos alarmistas sobre o futuro sobressaltam-se. Neste artigo, não pretendemos corroborar com discursos alarmistas, nem dizer que nada mudou, mas sim recuperar aspectos históricos do Brasil em paralelo com a Grã-Bretanha para a compreensão da utilização das mídias.

O comparativo com o povo bretão não é feito com a intenção de fazer uma análise qualitativa dos traços culturais dos dois povos – o que é uma profunda incoerência em se tratando de cultura –, mas para servir como base para se observar avanços e limites nos dois países. Os principais pontos a serem aqui observados são: 1) o letramento nas duas sociedades; 2) o aspecto sócio-econômico que culmina no consumo de bens culturais; 3) o intercâmbio cultural anglo-brasileiro e 4) um breve balanço e as perspectivas do jornalismo no Brasil.

É sabido que a conformação histórica do Brasil se deu, em gênese, por um processo de exploração dos abundantes recursos naturais presentes no território – diferentemente de outros lugares, onde se projetou uma ideia de colonização por povoamento, por exemplo – e para tanto, a mão de obra escrava fora empregada em massa. Não tardou para que o contingente de negros africanos se equiparasse e ultrapassasse o de europeus. Diversos fatores envolvem a história do país, não há como explanar nem de forma rasa sobre todos, mas alguns dos importantes para a nossa reflexão, são: o letramento foi restrito à parcela mais abastada da população até meados dos anos 1980; a população negra e pobre sofreu traumas históricos e foi envolvida por estereótipos que buscavam legitimar a escravatura pelo rebaixamento do negro em diversos aspectos; o país fora construído a partir de uma visão fidalga, injusta e exploradora, o que reverbera na péssima distribuição de renda, na ampla desigualdade social e na impossibilidade de julgar o “mérito” como único fator de distinção entre os sujeitos. Anexando-se a tudo isso, há, ainda, a questão da censura (imperial, moral, militar e judicial) que assolou variados momentos da história do país, o que, aliado a outras variáveis, criou um país pouco letrado, desacostumado com a liberdade de expressão e que sequer conhece a si.

Na Europa dos séculos XVII, XVIII e XIX, o letramento universal estava longe de ser uma preocupação das nações e sequer era assunto corrente na pauta política, mas foi justamente naquele período que foram plantadas as sementes que posteriormente germinariam no seio da sociedade. As revoluções daquele período, aliadas à disseminação de correntes de pensamento que viam na utopia um caminho a seguir para atingir avanços sociais desencadeou formas de estruturação que tende a valorizar a reflexão e o trabalho paulatino.

No Brasil, a educação fora (e é) deixada de lado em detrimento de interesses financeiros que tendem a beneficiar exclusivamente indivíduos isolados. Nos últimos anos, o Governo Federal reduziu quase 50% do investimento em ciência[2], os governos estaduais têm feito ações que levam ao precipício o sistema de educação pública (vide o estado do Paraná que, em 2017, anunciou que não contrataria professores universitários).

Eis que o letramento é um dos principais fatores que leva os indivíduos ao consumo do jornal impresso (afinal, quem não sabe ler, não lê). Espero que a breve explanação feita sobre os traços de cultura letrada tenham sido suficientes até aqui para compreendermos esta variável de suma importância. Enquanto na Grã-Bretanha e em outros países europeus, como a Noruega e a Islândia, o letramento universal estava próximo no século XIX, no Brasil sequer havia sido explicitada tal preocupação. O historiador britânico Peter Burke, em entrevista[3], retoma esse ponto: em países frios e onde escurece cedo, não havia muito mais a fazer do que ler antes de se inventar a televisão e outros meios de entretenimento. O historiador ressalta que a leitura tornou-se parte da cultura daqueles países enquanto, no Brasil, a oralidade é muito mais valorizada. Relembra que quando lecionou para alunos brasileiros, tinham uma desenvoltura muito maior com a oralidade do que com a linguagem escrita. Isso não significa, necessariamente, uma inferioridade total brasileira, mas a compreensão da linguagem escrita abre portas para a compreensão dos fenômenos do mundo de maneira muito mais ampla. Em recente pesquisa do INAF[4], os números obtidos nos obrigam a refletir. Apenas 8% da população brasileira é proficiente em leitura, isto é, apenas essa pequena parcela é capaz de ler, interpretar e conferir um pensamento crítico sobre.

O consumo de informação jornalística pela mídia impressa conta com uma série de nuances. Para além da perspectiva do letramento, o aspecto econômico é de importância. O caráter comercial da mídia brasileira leva ao óbvio: jornais com pouca saída acabam fechando as portas. No entanto, para conseguirem manter sua circulação, muitos jornais acabam virando praticamente folhetos de propaganda, com anúncios estampando quase todas as suas páginas – desfigurando a ideia de ser de um jornal. No país bretão, no entanto, os jornais têm financiamento exclusivo de seus leitores, desprendendo-se, em um primeiro momento, da coerção do mercado na construção da notícia. Não à toa, há reconhecimento mundial da qualidade de vários jornais ingleses. No entanto, não quer dizer que isso possa ser aplicado no Brasil como solução para o recorrente fechamento de jornais por falta de financiamento: tal fenômeno ocorre nas ilhas britânicas pela longa tradição de leitura daquele povo que, associada a um rendimento médio do cidadão que lhe permite consumir bens culturais (livros, teatro, filmes, esportes, jornais etc.), arraiga-se um sentimento de proximidade e relação entre os leitores e o jornal – contribuir com os jornais é tido como uma maneira de garantir a independência do jornalismo frente aos ditames do mercado e de interesses políticos. É certo que por séculos, jornais serviam a grande parte da população para embrulhar alimentos (peixe, por exemplo), como aponta Schudson em Descobrindo a Notícia (Vozes). Burke (2016), observa que mesmo com a queda de circulação dos jornais impressos ingleses – que continua a ser amplamente maior do que no Brasil, sendo aquele país muito menor do que o Brasil – o consumo de materiais jornalísticos se mantém pelas mídias digitais.

Vale reconhecer o caráter de documento que o jornal impresso possui. Tudo o que é publicado em plataformas online pode facilmente ser editado ou retirado do ar a qualquer momento. O impresso, por sua vez, assim que impresso torna-se um documento, não se altera.

Para além dos intercâmbios culturais muito nítidos, como no futebol e na música (do rock à bossa-nova) muito se incorpora no Brasil da maneira de fazer jornal desenvolvida na Inglaterra – o que fica muito mais nítido em documentários televisivos –, enquanto os bretões fazem uso e admiram a produção literária brasileira. É nas plataformas de jornais na web que se nota o relacionamento e interesse entre os dois países, bem como discrepâncias na maneira de ofertar o conteúdo jornalístico.

O interesse pelos acontecimentos nacionais é próximo da mutualidade entre os países, logo, o intercâmbio de informações entre os sites dos dois países é corriqueiro. A cultura jornalística sobressalta-se nesse ponto: os jornais britânicos, financiados pelo leitor, pedem a colaboração para a manutenção das atividades; os brasileiros, comerciais, liberam um número restrito de visualizações, após, exigem pagamento para a leitura de mais matérias. Como se não bastasse o baixo número de leitores de jornal impresso, no meio digital, os grandes jornais brasileiros restringem mais ainda esse espectro aos que tem condições financeiras suficientes para arcar com os custos de receber informações.

Levando em conta que apenas 3% da população têm nos jornais a principal fonte de informação e que menos de 50% o faz pela internet, pode-se dizer que as mídias digitais tomaram o lugar o jornal impresso? Não há uma resposta imperativa para essa pergunta, mas é sabido que o advento de toda nova mídia causa variados impactos sobre suas antecessoras. Com o surgimento do rádio, dizia-se que os jornais teriam fim próximo; com a introdução da televisão, o mesmo se disse sobre o rádio; com a internet, fala-se no fim das três anteriores. Essa é uma visão um tanto catastrofista e nada científica. É certo que há queda de circulação dos jornais impressos, mas não do jornalismo. Os maiores portais de notícias da internet são justamente pertencentes aos grupos de mídia predominantes no meio impresso.

Há de se levar em conta que o jornal impresso mantém seu nicho de circulação, mas deve otimizar-se para garantir sua relevância em um universo de vertiginosa velocidade. Qual caminho o jornal impresso pode seguir, portanto? Cremos que é, de fato, impossível competir com a internet no hard-news, isto é, as notícias de última hora, que necessitam de velocidade de publicação para não perderem a factualidade. Eis a grande vantagem da web na disseminação de informações – muito mais, é fato, do que se pode absorver. Portanto, uma das opções para o jornalismo impresso (que em geral tem um público que tem mais tempo para ler e prefere conteúdo mais elaborado) é aprofundar mais suas matérias, ou seja, investir muito mais em jornalismo interpretativo do que no utilitário, diversional ou informativo. Apesar de, aqui, cairmos novamente na questão do financiamento das empresas/instituições jornalísticas.

Na web, principalmente nas redes sociais, percebe-se a propagação desenfreada das chamadas fake-news, isto é, informações desencontradas que se travestem em formato jornalístico com a intenção de ludibriar o leitor. Julgo incoerente usar o termo “notícia falsa”, pois se é falsa, não é notícia. É justamente em meio a tamanha propagação de mentiras que o jornalismo “tradicional”, mesmo que online, encontra propulsão: é um ambiente de checagem, rechecagem dos fatos. Para confirmar se um boato realmente é factual, recorre-se aos veículos já consagrados socialmente.

Sendo assim, não acreditamos que o jornalismo impresso “desaparecerá”, mas precisa investir em um caminho correto para garantir sua relevância em um ambiente globalizado. O projeto socioeducativo brasileiro precisa rever seu caminho (não é com congelamento de gastos que se combate o analfabetismo), o que possibilita ao indivíduo independência intelectual para reconhecer e ter visão crítica sobre os acontecimentos do mundo. A experiência internacional demonstra que quanto maior o letramento, maior o consumo de livros e jornais. O investimento vultoso em educação, associado ao um procedimento de desenvolvimento regional e nacional tende a possibilitar maior independência de pensamento e ação entre os sujeitos.

05 de julho de 2018.

Por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Disponível em: <http://pesquisademidia.gov.br/#/Geral/details-917>.

[2] Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/27/ciencia/1511806311_065202.html>.

[3] Disponível em: <https://periodico.sites.uepg.br/index.php/educacao/961-precisamos-educar-as-pessoas-para-serem-criticas-afirma-peter-burke-em-entrevista-exclusiva>.

[4] INDICADOR DE ALFABETISMO FUNCIONAL – INAF: Estudo especial sobre alfabetismo e mundo do trabalho. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/0B5WoZxXFQTCRRWFyakMxOTNyb1k/view>.

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