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O amor ao ensinar que é demonstrado até depois de partir

O amor e dedicação da professora que cultivou uma vida para o carinho com os alunos. (Foto: Acervo Pessoal)

Para muitos uma profissão é um dom que vem desde quando nascemos, e que precisamos aguçá-lo na medida que os anos vão passando, para que dessa maneira, o amor, a dedicação e o carinho não se tornem apenas uma obrigação, mas uma consequência da escolha profissional.

Conforme os anos passam, os ideais para uma vida não se baseiam apenas na construção profissional, mas sim, a junção de uma carreira realizada com a concepção da própria família. A descoberta do amor, demonstrá-lo para a pessoa amada, idealizar um casamento e junto disso, o carinho inexplicável de conceber filhos, e consequentemente a vinda dos netos que logo em seguida prosseguirão com o nome e o companheirismo presente em uma família, fazem parte dos objetivos de muitas pessoas.

Todo esse ciclo não significa apenas uma consequência de planos, mas sim, a realização de uma vida que foi vivida da melhor maneira possível. No perfil dessa semana, não buscamos apenas contar da vida pessoal ou profissional de uma pessoa, mas sim, mostrar-lhes que a vida está aí para não termos medo de realizar o que sempre planejamos, sem deixar para o amanhã algo que pode ser realizado o quanto antes.

Maria de Lourdes de Lima Padilha (in memoriam), nasceu no dia 03 de setembro de 1958, na comunidade de Papuã, interior do município de São Mateus do Sul. Passou a infância com os pais e os cinco irmãos, os quais, incentivaram com que ela se empenhasse desde muito cedo no dom da idealização profissional.

Professora desde os 14 anos, Maria de Lourdes não se imaginava fazendo outra coisa, tratava com carinho e amor a profissão que era responsável desde muito nova, compartilhando do conhecimento e ensinando não apenas formas e técnicas de estudo, mas sim, como fazer com que os alunos se tornassem acima de tudo, cidadãos.

Se formando no magistério no ano de 1979, foi contratada pela prefeitura municipal como docente, trabalhando com turmas do ensino fundamental primário, em escolas da cidade e em comunidades do interior, também lecionou na escola particular Arlete Neves Schramm.

A forma didática com que trabalhava fazia com que ela não fosse apenas uma professora, mas sim uma amiga e incentivadora de seus alunos. Gostava de trabalhar com os primeiros anos, ensinando a escrita e a leitura. “Minha mãe sempre comentava comigo que ser professora era a única visão que ela tinha quando criança, e ela nunca se imaginou em outra profissão”, comenta a filha Sirley Lima.

E o amor pelo ensinar também foi base para muitas histórias engraçadas presentes na vida da professora. Com seu fusca branco, ela buscava os alunos em casa e levava para a escola, “a mãe já passou por vários apuros, as vezes o fusca não funcionava, faltava gasolina e também quebrava, lembro que essas histórias ela me contava e eu achava muito engraçado”, conta Sirley.

Uma professora é responsável também por incentivar o aluno para a escola, motivando-o a continuar com boas notas. Sabe aquela parte dourada que embala o café dentro da caixa? Maria de Lourdes recortava em formatado de medalha para agradar seus alunos incentivando na continuidade das ótimas notas com a “medalha de ouro” que era entregue por ela.

Fazia bolo, levava balas, presentava os alunos com lembrancinhas e realizava dinâmicas durante os dias de aula. Uma professora sistemática e que jamais deixou de lado a rigorosidade quando o assunto era a cobrança pela escrita certa, que eram recompensados pelas palavras doces de Maria de Lourdes.

Muitos alunos já passaram pela sala de aula da professora, que sentia muito orgulho de vê-los alguns anos depois, formados e encaminhados numa carreira profissional. É importante a valorização de professores do ensino primário, pois serão eles a principal base para a vida estudantil de uma pessoa.

Como uma boa e fiel apaixonada pela escrita, Maria de Lourdes deixou escrito e guardado cadernos com histórias vivenciadas por ela durante todos estes anos, e um destaque que era priorizado por ela era: “não quero ser só professora, mas quero conhecer a família de meus alunos”. E isso é a principal essência da vida de docente e um dos principais legados deixados pela professora: não apenas aplicar conteúdos, mas conhecer o próprio aluno diante de sua família e realidade, e isso consequentemente explicará as atitudes tomadas por ele.

A filha Sirley Lima e a neta Maria Isabelli guardam com muito carinho e saudade as recordações deixadas por Maria de Lourdes. (Foto: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Se aposentou em 02 de outubro de 2006, e dizia com todo orgulho quando encontrava algum ex-aluno que ela já tinha sido professora dele. Nesses anos lecionando juntou muitos amigos, alunos e afilhados, participando sempre que possível da vida além da escola.

Era uma mulher que sempre estava com sorriso sincero quando encontrava as pessoas na rua. Mesmo passando por problemas, ela deixou escrito o pensamento que ela tanto prezava em sua vida: sempre procurar pensar no bem, sem se deixar levar por palavras negativas e de rancor.

Ficou casada com Orlei Gonçalves Padilha, há 35 anos, teve um casal de filhos, Anderson Lima e Sirley Lima. Fora da escola Maria de Lourdes era uma inventora na cozinha, adorava fazer bolos, tortas, rosquinhas e pães. Sempre foi uma pessoa alegre e topava fazer muitas coisas, adorava conversar e viajar para a praia.

E foi fazendo uma das coisas que mais gostava que, no dia 23 de janeiro de 2017, Maria de Lourdes aos 58 anos, e o marido sofreram um acidente automobilístico indo para a praia e acabaram falecendo. Mas é de um momento desses que percebemos que a continuidade do amor que era transmitido por ela não acabou junto com o acidente, mas continuou sendo transmitido de maneira duplicada por familiares, amigos e colegas de trabalho.

Hoje a filha, que estava grávida na época do acidente, guarda para a neta todas as lembranças que a avó deixou de sua vida profissional e pessoal. Maria de Lourdes deixou guardado livros, cadernos, diários e objetos que marcaram cada passo de sua vida, e é com recordações dessas que o orgulho pelo caráter da professora toma conta de toda família.

“Eu percebo em muitos lugares que eu vou várias pessoas falam que já foram alunos da minha mãe, e todos lembram dela com muito carinho e que percebiam a paixão dela pela profissão, e por essas atitudes que meu orgulho pela minha mãe redobrou”, conta a filha.

No dia 15 de outubro, é comemorado o Dia do Professor, e queremos que a vida de amor pela profissão de Maria de Lourdes sirva de exemplo para muitos professores. Que a demonstração do cuidado aplicado dentro e fora de uma sala de aula seja transmitido e recompensado pelo sorriso de satisfação quando o aluno alcançar o objetivo proposto.

“Com certeza a minha mãe com essa matéria de perfil se sentiria uma celebridade por São Mateus do Sul (risos). Ela ia dizer com um sorriso enorme ‘estou no céu’, de tanta felicidade, pois ela adorava ser homenageada, principalmente pela profissão dela”, encerra a filha.

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