Ele com 100 anos, ela com 101. Juntos eles somam 77 anos de casados e muitas histórias para contar. (Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

“Ela ficou bonita de vestido né?”, disse Oswaldo Mathias Ferreira enquanto sua esposa, Eleozina de Paula e Silva Ferreira, se aproximava para ficar ao seu lado. “Não está com frio?”, pergunta à ela. O vestido branco com flores que variavam entre vermelho e verde era bordado com pedrinhas brancas. A tiara no cabelo e as mãos sempre arrumadas sobre o colo mostram que a delicadeza da esposa, mãe e avó, sempre será um exemplo para todos que conhecem sua história.

Casados há 77 anos, ele com 100 anos, e ela com 101, fazem da rotina compartilhada uma forma de lembrar dos bons momentos do passado. A família reside na localidade do Lajeadinho, interior de São Mateus do Sul, e aprende todos os dias novas formas de colocar um sorriso no rosto de quem os visita. Hoje eles serão os homenageados na reportagem especial do aniversário de 111 anos do município – comemorado no dia 21 de setembro –, construído há todos esses anos por histórias como a do casal.

Colaboração

Era início da manhã de terça-feira (17), quando a nossa equipe, juntamente com o apoio do radialista Carlos Karpinski, seguiu a estrada rumo a localidade onde o casal reside. Não sabíamos ao certo qual era o endereço, mas estávamos motivados a seguir perguntando para quem fosse necessário. Afinal, a história valeria a pena.

Nossa primeira parada foi na escolinha municipal, localizada quase à beira da BR-476, já no Lajeadinho. “Ah, mas conheço sim o Seu ‘Vatcho’ e a Dona Eleozina, eles moram próximos daqui”, disse uma das funcionárias, referenciando o apelido de Oswaldo. Seguimos de acordo com a informação, e há 400 metros, perguntamos para outro morador da localidade se estávamos no caminho certo. “É logo ali no alto. Inclusive o neto do Seu Vatcho ‘tá’ trabalhando aqui comigo”, enfatiza o proprietário.

O gramado verde e as casas de madeira com paletas de cores coloridas nos mostravam que estávamos no lugar certo. “Que bom que vocês vieram nos ver!”, Silvia Ferreira Bill nos recebe de sorriso no rosto. Ela é uma das 10 filhas do casal. “Meus pais acabaram de acordar e agora estão tomando café lá na casa deles”. Fomos convidados para seguir até lá.

O casal reside na comunidade do Lageadinho, interior de São Mateus do Sul.

Família

Quando entramos na casa, também de madeira, logo na sala percebemos os porta-retratos da família, que representa muito para o casal. Pão francês e bolacha de maisena era o cardápio da manhã daquele dia. O fogão à lenha – que já foi o responsável por inúmeros almoços preparados por Eleozina – divide o mesmo espaço com o fogão à gás, que hoje é o mais utilizado.

A primeira a terminar o café foi Eleozina. O mesmo sorriso que a filha nos recebeu no portão estava estampado agora no rosto da mãe. Quem sabe essa seja uma das principais qualidades da família.

Por conta da fratura no fêmur, Eleozina usa uma cadeira de rodas para se locomover. Oswaldo também utiliza o mesmo meio, mas como forma de cuidado pela sua idade. Toda a família é responsável pelos cuidados diários com o casal, como a preparação da alimentação e a boa companhia.

Companheirismo resume todos esses anos de história.

A carroça e a balsa

Natural da comunidade de Retiro, Eleozina conta que nasceu no ano de 1918, porém, como na época os registros eram realizados sem seguir as datas e anos de nascimento, seu registro foi datado de 1922. “Acho que eles esperavam um número específico de filhos nascerem para irem até o cartório né?”, brinca a filha do casal. A mesma situação aconteceu com Oswaldo, que nasceu em 1919, porém com registro de 1922. As datas são motivos de comemoração anualmente. “Eu faço aniversário duas vezes”, afirma Eleozina, que apresenta lucidez e uma saúde de dar inveja para muita gente.

Uma das primeiras coisas que perguntei para Eleozina foi como ela e Oswaldo se conheceram. O sorriso no rosto voltou e os olhos pareceram viajar no tempo. “Foi na escola”. Naquele período não haviam escolas físicas como nos dias de hoje. A família era responsável por contratar um professor particular que lecionava em uma casa, considerada a escola de muitas crianças. “No caminho ele subia nas árvores para ficar escutando os papos das moças. Um desses papos era o meu”, sorri novamente. Como muitas crianças, Eleozina e os irmãos iam a pé para a localidade de Santana, local que o professor ensinava.

(Acervo da Família)

Agora com Oswaldo do seu lado, Eleozina conta que após umas “paqueradas” daqui e dali, ele tomou coragem e foi conversar com os seus pais, que apoiaram a união. O casamento aconteceu no mês de outubro na Igreja Matriz São Mateus com a festa na comunidade do Retiro. Na época em que o uso de veículos não era muito comum, os noivos foram de carroça até o local do casamento. “Quando chegamos num trecho que pegava o Rio, colocamos a carroça em uma balsa e seguimos ‘viagem’”, diz.

A rotina

Quatro meses após o casamento, o casal mudou-se para a comunidade do Lajeadinho, onde vivem até hoje. “Meu pai morava aqui, e viemos para ficar junto dele”, explica Oswaldo. Na casa da família, praticamente todos os produtos utilizados eram produzidos por eles, menos o querosene, sal e açúcar. Trabalhando na produção de fumo e outras hortaliças utilizadas em casa, era esse o método de sustento da família e responsável pela construção de todo o patrimônio. Os filhos ajudavam nas plantações e também nos afazeres domésticos. O filho mais velho hoje está com 73 anos.

A rotina com a área urbana se fazia presente com as visitas em lojas e mercados da cidade, como a Casa Confiança. Quando algum filho ou vizinho ficava doente, o médico chegava à cavalo para o atendimento de saúde. Mesmo em épocas difíceis e sem a facilidade que encontramos nos dias de hoje, a divisão de carnes com os vizinhos, os encontros e festas na capela resumiam grande parte dos momentos de felicidade de toda a família.

Hoje o casal possui 29 netos e 14 bisnetos, que estão sempre presentes para compartilhar carinho e ouvir as boas histórias do passado. A rotina de Oswaldo e Eleozina começa às 8h, e por volta das 18h, o jantar é servido. “O segredo para a nossa saúde é viver bem e ter uma família unida”, afirmam. A alimentação saudável também é uma das prioridades nesse cotidiano.

O vestido

O casal comemora as Bodas de Alfazema – 77 anos de casados – e o companheirismo, a preocupação e claro, aquele “ciúminho” divertem a família. “Gosto quando ela usa vestido”, disse Oswaldo. Em 2018 ele pediu para a filha ir até o centro da cidade procurar um vestido de flor com pedrinhas para presentear a esposa. O vestido é usado quase todo domingo.

CHARGE

Cláudia Burdzinski

Cláudia Burdzinski

Estudante de Jornalismo que adora escrever e conhecer um pouco sobre a vida e a história de cada pessoa envolvida. Preza pela essência que é repassada na produção de cada matéria, valoriza os pequenos gestos e apoia o ativismo ambiental. E-mail para contato: claudia@gazetainformativa.com.br
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