Histórias de Terra e Céu

O dia em que Nossa Senhora levou uma surra na Água Branca

O dia dois de fevereiro é especial para os devotos de Nossa Senhora. Nesta data são lembrados vários nomes de Maria (“dos Navegantes”, “das Oliveiras”, “da Luz”, “da Candelária”, “das Candeias” e “da Purificação”). Mas é também nesta data que ocorreu um dos fatos mais inusitados da vida religiosa de São Mateus. Embarque comigo nesta história!

No começo do século passado a força da religião católica de nossa cidade se localizava na Água Branca, sob comando do padre Jakób Wróbel. Era ele quem havia se destacado na guerra contra os maçons em abril de 1899 e, nos meses seguintes, liderado os colonos polacos no ataque à Igreja de Palmeira e na invasão de Curitiba, onde a Catedral da capital viu o padre da Água Branca rezar por três dias em polonês, cercado dos fiéis daquela colônia polaca. Estas histórias prometo detalhar aqui, em colunas futuras, mas quero focar no assunto de hoje.

Após os vários embates com membros da maçonaria e com lideranças anticlericais, padre Wróbel começou a ser ameaçado dentro da própria comunidade. Aos poucos foi se formando um grupo de oposição, que buscava qualquer motivo para atacar o sacerdote. Primeiro foi a tentativa de acabar com a escola religiosa. Depois espalharam em jornais de Curitiba que o padre vendia o “Corpo de Cristo”. Em outro momento, quando o padre enviou para a Diocese o título das terras da área onde ficava a capela (pois era Diocese arquivava estes documentos), espalharam que o padre havia dado o terreno para o bispo.

Cada uma destas intrigas virava motivo para discussões e desavenças, e não eram raros os confrontos entre os “pró-padre” e os “contra”. Mas a intriga mais esquisita dizia respeito à direção da procissão. Como os quadros da via-sacra, que vieram da Europa, foram pintados com Cristo andando “ao contrário” do tradicional, o padre começou a fazer as procissões acompanhando os quadros (da direita para a esquerda), mas os opositores diziam que a procissão deveria ser no outro sentido.

A situação chegou ao extremo no dia 02 de fevereiro de 1914. O padre resolveu fazer um teatro encenando a “apresentação do menino Jesus no Templo”. As freiras preparam roupas para os atores e o espetáculo ocorreria no decorrer da missa, após a procissão. Mas, para o papel de Nossa Senhora, o padre escolheu uma cabocla de pele negra. Aquilo foi motivo para a oposição preparar a confusão… Quando a procissão saiu da igreja, os apoiadores do padre seguiram para a esquerda, enquanto os inimigos rumaram pela direita, dando a volta na capela. Ao se encontrarem, atrás da igreja, as duas procissões ficaram frente a frente, e uma das inimigas do padre gritou: “-Essa macaca é Nossa Senhora?”, e bateu com a vela na cabeça da pobre “Maria”. Como as velas pesavam quase dois quilos, se assemelhando a porretes, fiéis de ambos os lados começaram a se agredir, e a festa virou uma pancadaria…

Ali acabava uma bela história de 17 anos de amor pela comunidade. Padre Wróbel foi ameaçado de morte e deixou a Água Branca, indos para os Estados Unidos, onde foi considerado “um homem santo”, falecendo em 1935.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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