Histórias de Terra e Céu

O dia em que o prefeito cortou a luz do ex-prefeito

Prefeito Bernardo do Amaral Wolff

Na coluna da semana passada citei que São Mateus do Sul viveu um período de paz na política nas administrações dos Wolff e Amaral. Alguns amigos, que conhecem a política são-mateuense, me criticaram dizendo que “paz” e “política” em São Mateus não combinam. Por isso resolvi contar aqui um dos maiores barracos da política da cidade. Embarque comigo nesta história!

Bernardo do Amaral Wolff nasceu em 27 de fevereiro de 1900. Era neto de Rodolfo Wolff (conhecido como o fundador de São Mateus) e genro de Paulino Vaz da Silva, prefeito da cidade. Bernardo era professor, foi diretor do Grupo Escolar São Matheus, mas acabou se tornando prefeito em 1932, após a Revolução de 1930. Fez uma gestão marcada por grandes obras, impulsionando a reconstrução do hospital municipal, embelezando ruas, fundando clubes e expandindo a iluminação pública por toda a cidade.

Após deixar a prefeitura, Bernardo Wolff se tornou proprietário de um engenho de mate e de uma serraria. Equipou suas fábricas com equipamentos movidos a energia elétrica, o que ainda era pouco comum. Em 1952 negociou com o prefeito Eduardo Sprada o aumento do fornecimento de energia para seu empreendimento. Mais da metade da energia elétrica do município ia para a indústria de Bernardo. Acontece que outros dois empresários, Ledy Roderjan e Hezyr Hultmann, solicitaram energia elétrica para seus moinhos (de café e de trigo), mas Sprada não pode conceder, pois não havia disponibilidade.

A guerra pela energia elétrica acabaria indo para as urnas, em 1955. Bernardo Wolff apoiou o delegado João Zarzycky para prefeito, pelo PSD. Ledy Roderjan foi o candidato do PTB e Hultmann foi o candidato da UDN. Hultmann acabou vencendo, por margem estreita de votos, e, em janeiro de 1957 pressionou Bernardo Wolff para que operasse sua indústria apenas na parte da tarde, permitindo que outras empresas pudessem operar na parte da manhã. Wolff conseguiu um mandado de segurança, mantendo sua operação. O prefeito, indignado, lançou um panfleto denominado “Apelo ao Povo”, insistindo na proposta de racionar o uso da energia. No dia 23 de fevereiro a Justiça local deu parecer favorável a Bernardo Wolff. Mas o prefeito Hezyr não aceitou a derrota. Aproveitando o domingo de carnaval, dia 03 de março, quando nem o delegado e nem o juiz estavam na cidade, o próprio prefeito pilotou o caminhão da prefeitura até a indústria do ex-prefeito Wolff, e levou embora o transformador, fazendo a indústria parar.

A consequência foi um embate que tomou todos os jornais da capital na época. Ofensas como “Prefeito Ditador e Fantoche”, “Professor Mentiroso” e até “Caboclo da Vargem Grande” fizeram o deleite dos leitores de Curitiba, e movimentaram a sociedade de São Mateus. Por sorte, naquele mesmo ano, a Petrobras anunciaria o reforço da energia elétrica para a cidade, acabando com a briga na política… Pelo menos com essa briga, pois muitas outras viriam…

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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