(Desenho: Maurício de Souza Produções (turma da mônica).

Em 2015, no dia em que o cantor Cristiano Araújo morreu, as redes sociais explodiram em mensagens dos fãs. Uma pessoa do meu convívio, fã do cantor, publicou algo sobre a morte repentina do rapaz. Comentei que não fazia ideia de quem era o cantor. Estava sendo sincero pois de fato não sabia distinguir nenhum dos artistas do “sertanejo universitário”, que estavam na preferência dos jovens naquele momento. Porém, ser sincero não ajudava em nada, o correto era não ter dito nada. Compreendi então que, se uma comoção não te atinge, o melhor é esconder a indiferença porque ela não vai ajudar ninguém. Pelo contrário, pode até machucar, ofender.

Como o aumento gigantesco do fluxo de informações nos últimos anos, principalmente pelo fenômeno das redes sociais, acabamos estimando muito mal o quanto sabemos acerca da atualidade. Isso é contraditório. Como é possível que, justamente quando temos tanta informação disponível, nosso conhecimento do hodierno possa conter tantas falhas? Como é possível que eu, que tenho o hábito de ouvir rádio, que gosto de música, que toco um instrumento musical, podia não saber quem era um cantor que fazia sucesso? Só consigo pensar em uma resposta: Somos pequenos demais para o mundo e precisamos cuidar para que nosso jeito de se comunicar não nos deixe ainda menores.

Com a informação praticamente instantânea disponível na tela do computador é cômodo e agradável para qualquer pessoa se isolar no meio da multidão. Quando ligo o computador ou libero a tela do telefone celular, seja em que hora for, inicia-se um bombardeio de informações criteriosamente escolhidas por um algoritmo. No meu caso são propagandas de equipamentos fotográficos diversos, de violões e violonistas, de alimentos “low carb” ou de marcenaria, temas que com muita frequência pesquiso. Baseado nas pesquisas recentes, cantores, cantoras e instrumentistas vão surgindo na lista e depois do primeiro click é possível ficar quantas horas quiser emendando os assuntos correlatos. Criamos, gerenciados por um algoritmo, a nossa própria bolha de ideias e aos poucos nos tornamos indiferentes ao que está fora dela.

Marília Mendonça morreu, tragicamente como havia ocorrido com Cristiano Araújo e muito parecido com a forma como morreram os “Mamonas Assassinas”. Sobre ela, meu conhecimento era um pouquinho melhor do que sobre o C. Araújo. Até lembrava alguns trechos das letras, mas fiquei longe de estar em forte comoção pela perda da cantora quando comparado aos seus fãs. Passei então a observar o comportamento das pessoas, principalmente nas redes sociais, lembrando do meu episódio por ocasião da morte de C. Araújo.

Nas postagens em redes sociais predominaram dois grupos. De um lado aqueles que demonstravam sua comoção com a morte da jovem cantora, lhe atribuindo talentos como artista ou como pessoa. De outro lado, aqueles que acham um absurdo que se comentem tanto a morte da famosa e se ignore que com ela existiam outras pessoas que também perderam a vida e deixaram famílias em luto, considerando ofensivo esse comportamento seletivo. Será?

Será que existem pessoas que sentem com a mesma intensidade a morte de alguém conhecida e de outra totalmente estranha? Duvido muito ou então, cada vez que essas pessoas passassem em frente a um cemitério em dia de enterro de alguém, ficariam deprimidas, talvez até chorassem, mas não é assim, e que bom que não é assim porque a vida seria insuportável.

Nem tudo que está dentro de “nossa bolha” é necessariamente bom. Nem tudo que está fora dela é necessariamente mal. Não gostava da cantora ou não a conhecia. Cale-se! Declarar indiferença não serve pra nada. Gostava da cantora e acha um absurdo que aquele amigo ou parente não saiba quem era ela? Não fique magoado. Significa apenas que a abrangência de sua bolha social e cultural é diferente da dele, conscientes disso, ambos podem expandir seus horizontes.

Luís Ferraz
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