(Imagem Ilustrativa)

Há cenas da vida que ficam registradas em nossas mentes. Tenho várias delas em minha “galeria” particular. Muitas parecem até insignificantes à primeira vista, mas no fundo, elas exprimem bem aquilo que sentimos e resumem o momento como algo a ser lembrado por muito tempo.

A cena que trago como pano de fundo, se refere ao trabalho de dois funcionários públicos. Ambos estavam com pás nas mãos, entretidos com o trabalho que tinham que desempenhar, uma valeta para uma futura fundação, algo assim. De vez em quando, olhavam para nós, comerciantes, que aguardávamos o início de uma reunião com lideranças da Prefeitura Municipal, numa quadra lateral. Alguns de nós já usavam máscaras, apesar de isso ainda não ser obrigatório, naquele final de março de 2020. Alguém de fora poderia ter avaliado aquela cena e concluído que nós tínhamos uma boa vantagem, visto que, sentados e conversando, estávamos perfeitamente confortáveis, enquanto os dois trabalhadores se cansavam fazendo o que tinham de fazer. Mas, de minha cadeira, naquele silêncio em que nossas mentes processam dezenas de informações em alguns segundos, eu admirava o trabalho que realizavam, eu estava feliz pelo trabalho deles. Afinal, eles tinham permissão para isso! A dignidade do labor e a liberdade de poder fazê-lo, estavam ali, pintados frente aos meus olhos. Entendi, como nunca antes, a relação natural existente entre um dom divino, a nossa liberdade, e o trabalho, como ação humana. Nós, ao contrário daqueles trabalhadores, fomos movidos de nossos postos de trabalho até lá para decidir se poderíamos continuar trabalhando pelos próximos dias. Algo inconcebível até alguns dias antes. Ao término daquela triste reunião, seguimos cada um à suas respectivas empresas para comunicar a decisão aos seus funcionários, fechar as portas e planejar o que fazer dali em diante. Enquanto isso, os dois trabalhadores continuaram a sua missão.

Profissionalmente, aquele dia foi um dos mais tristes e até hoje não consigo descrever ao certo o que senti. Posso contar que terminei o dia com lágrimas. Não sabia por quanto tempo o decreto iria perdurar e, se depois dele um novo viria, e depois outro e outro. Pensava nos postos de trabalho que estavam sob a responsabilidade de minha pequena empresa, pois a queda do faturamento poderia me obrigar a reduzi-los. Avaliei recebimentos de produtos que estavam por vir e cancelei a metade deles. Negociei com os prestadores de serviço com os quais tenho contratos, reduzi as despesas ao nível que consegui. Era inútil criar, projetar, firmar metas, pois, nos havia sido retirado a possibilidade de realizá-los. Estávamos presos, mesmo que soltos. E esse sentimento se multiplicou pelo Brasil.

Um ano se passou e continuo com o mesmo número de funcionários, com a graça de Deus. Faz alguns dias, a Receita Federal registrou uma arrecadação nacional no mês de março de 138 bilhões entre impostos, taxas e contribuições. Um aumento de 18% comparado com o mesmo período do ano passado, fruto do trabalho brasileiro. A resiliência do nosso povo, se mostrou por fim, a protagonista desse tempo. Mesmo sob o poder dos lockdowns, que provaram ser um caos à parte e ineficazes para conter o vírus, o trabalho no país foi realizado da melhor forma que pôde ser. Afinal, o pão não cai do céu, a menos que seja por caridade, o que afinal, é outra virtude dos brasileiros. Imagino, como estaria forte a nossa nação, se estivéssemos a plenos pulmões.

Um brinde ao Trabalho e ao direito de exercê-lo! E que as efemérides da vida nos ajudem a construir dias sempre melhores!

Um cordial abraço!

Ingrid Ulbrich
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