Mentes Inquietas

O discurso eleitoreiro e os desafios do Brasil

(Imagem Ilustrativa)

O que esperar das eleições deste ano? Há meses os principais candidatos se movimentam pelo país fazendo palestras e carreatas, procurando deixar seus nomes acesos na memória da população – ainda que alguns poucos se proponham a debater um projeto de governo. É em momentos como este, também, que se clarifica a busca dos candidatos por se adaptar a alguma corrente de pensamento, em muitos casos, aquela que atende aos seus interesses particulares. Neste conturbado momento em que nos arriscamos a pensar e questionar a política contemporânea – o hodierno é sempre perigoso –, algumas questões saltam aos olhos: Por que discursos com farta agressividade contagiam tanto? Soluções simples e imediatistas são as mais difundidas? Por que, mesmo em tempo de acalorada movimentação política, há quem se negue a uma discussão racional da sociedade e suas especificidades? Não pretendemos, como nos outros artigos desta coluna, apresentar respostas, imperativos de ação, o que se pretende é questionar e procurar caminhos a seguir.

Todo discurso político tem sua afetação sobre a sociedade, seja favorável ou contrária. Em um país marcado pela herança da escravidão, com hábitos sedimentados em uma estrutura de colonização do pensamento através de aparelhos ideológicos evidenciados na mídia. Um país de noção fidalga e escravocrata, que fez erigir suas estruturas social e política a partir de uma visão paternalista, na qual busca-se a figura de um homem “forte”, que seja capaz de sanar os anseios e medos da população. Usa-se o termo homem não por força de expressão, buscando representar a raça humana, mas sim demonstrando que é um sujeito do sexo masculino, que se imponha no espaço público munido de todo um arcabouço histórico que criou na figura do homem branco e heterossexual o caráter de respeitabilidade. O machismo impera na sociedade brasileira de maneira estrutural – em pequenas ações do cotidiano, por mais pequenas que sejam, manifesta-se a constituição histórica de um pensamento que nos é ensinado, que inferioriza mulheres, negros e homossexuais. Reconhecer esse machismo estrutural é o primeiro caminho para modificar o panorama. Urge, também, reconhecer a demonização da pobreza, a colonização burguesa do pensamento, que nos faz crer que as disposições individuais são os únicos meios que determinam as condições de existência, para compreender os equívocos históricos que permeiam a sociedade brasileira e se manifestam nos discursos políticos, se é que assim podemos chamá-los.

Ao observar os discursos proferidos pelos pré-candidatos ao Executivo nacional, vê-se uma série de falácias e a reprodução de ideias que não condizem com a lógica. Um dos grandes mitos propagados é o de que a privatização de empresas e serviços seria benéfica para o país. Benéfica seria para os empresários que tomassem posse dessas empresas. Valem-se de discursos em que trazem dados de “experiência internacional” bem sucedida com a privatização, mas esquecem-se das idiossincrasias do caso brasileiro, de todo o contexto histórico em que estamos embutidos e do sem-número de problemas sociais que o Brasil carrega e que não são resolvidos com um passe de mágica. Soluções simplórias para problemas complexos não passam de falácias[1]. A questão aqui levantada não é a demonização da privatização de empresas, mas sim a observação dos limites da função social que essa empresa pode cumprir na inciativa privada. A geração de empregos no sistema de ensino público é amplamente maior do que no setor particular, pois neste impera a lógica da mercantilização do ensino, precariza-se a condição de trabalho do docente em prol da maximização do lucro – sem falar da descarada venda de diplomas observada em instituições privadas e de ensino a distância – o que tende a, cada vez mais, priorizar a formação de tecnólogos, pessoas garimpadas para o mercado e não para desenvolver ciência. A título de quantificar a questão, usamos o levantamento da britânica Times Higher Education, em que consta que o “Brasil tem 2.090 universidades privadas e apenas três aparecem entre as 50 melhores. Já entre as públicas, o país tem apenas 301 e, destas, 15 estão entre as 50 melhores”[2].

Discursos agressivos contagiam grande contingente. O desejo messiânico de grande parte da população se aflora a qualquer intempérie que se abata sobre o país. Nesse sentido, quando, de tempos em tempos, surge um indivíduo que garante resolver os males que afligem a população de maneira rápida, com uma linguagem vulgar e sem dar explicações elaboradas sobre a problemática a ser enfrentada, logo arrebata um grande rebanho, que tem nele a imagem do salvador que livrará o país dos males. Ledo engano. Sobre esse assunto já falamos nesta coluna[3] e deixo nas notas a referência para não ocupar espaço em demasia.

Em um momento eleitoral conturbado como este em que nos encontramos, faz-se necessário que racionalizemos nossas ações, instituamos a prioridade para o país e exerçamos a faculdade crítica sobre os discursos dos candidatos. Neste momento, urge deixar as paixões de lado e nos inclinarmos a pensar: o que de fato é necessário para o país? Sendo assim, a visão egocêntrica de votar em um candidato que trará benefícios para determinados grupos (seja à esquerda ou à direita) e não contemple o espectro em sua diversidade e múltiplas formas de apresentação deve ser deixada de lado. Crer que a figura de uma mulher ou de um homem que disputa o poder será isoladamente a solução dos problemas não é um posicionamento razoável, mas fideísta.

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Trabalhamos sobre este tema em outra ocasião: DOUVAN, A. S.. Sofismo Contemporâneo. Correio do Norte, Canoinhas/SC, p. 02 – 02, 23 jun. 2017

[2] https://educacao-veritas.blogspot.com/2018/03/as-10-melhores-universidades-do-brasil.html#more

[3] O emprego da violência na hodiernidade. Disponível em: <http://www.gazetainformativa.com.br/o-emprego-da-violencia-na-hodiernidade/>.

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