Mentes Inquietas

O espetáculo político nas mídias

(Imagem Ilustrativa)

Em anos eleitorais como 2018, pretendentes a cargos eletivos mobilizam-se para conquistar eleitores. Cada candidato procura a criação de uma imagem, adere a disputas ideológicas muitas vezes mal abalizadas teoricamente em nome de interpretar o papel do “melhor preparado”. Historicamente, a arena de debate político modifica-se a cada período e de acordo com cada sociedade. Da ágora grega, dos cafés do século XVI e dos comícios aos discursos no jornal impresso, no rádio, na televisão e, mais recentemente, na internet. Hoje, temos a possibilidade de verificar uma elementar metamorfose na forma de comunicação entre ocupantes do poder (ou seus pretendentes) e eleitores, principalmente pela distância física entre ambos e a criação e reprodução de imagem mediada em diversos meios. Um dos pontos que chama a atenção é a utilização das mídias para a propagação de ilogismos amplamente repercutidos pelos usuários.

Falamos em mídias, pois como vemos em entrevista concedida pelo historiador britânico Peter Burke[1], costumamos generalizar a palavra mídia como sendo a televisão. Mas há várias mídias (meios), como os jornais, revistas, folhetos, rádio, televisão, internet. Cada mídia conta com idiossincrasias, com portões de entrada diferentes que, em casos que envolvem a discussão política, são regulados pelo crivo do jornalismo. Fora os períodos de propaganda eleitoral, a visibilidade e os enquadramentos dados aos ocupantes do poder dependida 1) de seus atos e 2) da orientação política ou comercial que orientou a produção da matéria. Desde os primórdios do uso político das mídias, percebe-se a espetacularização com vistas a conquistar objetivos. A criação da imagem do “político honesto, cristão e patriota” virou a regra na utilização que fazem do espectro midiático, por mais que não passe de uma fábula, que as relações factuais e os dados demonstram ser apenas uma criação discursiva. Mas, por que essa imagem criada tem tamanha potência?

Guy Debord (1931-1994), em seu célebre texto A sociedade do espetáculo (Contraponto, 1997), faz interessante análise do fenômeno em sua época, mas que se mantém com enorme relevância nos dias correntes. Debord elenca que o espetáculo “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Enquanto os aparelhos de produção do conteúdo televisivo estão restritos a um seleto grupo de sujeitos, a internet é um espaço de múltiplas possibilidades, que demarcam a linha tênue entre maior chance de expressão direta para um grande número de pessoas e a criação de bolhas, por vezes o retorno ao primitivismo mitológico.

Tal como Debord observou nas mídias de seu tempo, hoje vemos as manifestações políticas nas redes sociais – se é que podemos chamar dessa maneira –, como o “âmago do irrealismo da sociedade real”. Pouco importam os dados, a história, a crítica; as convicções individuais amparadas na projeção de um idealismo qualquer suplantam a materialidade do mundo a tal ponto que se crê fielmente ser tal espetáculo a própria realidade. Dentre os hodiernos mais populares se encontra o discurso belicoso, que promete solucionar os problemas de maneira prática, rápida e efetiva. Mesmo sem que se demonstre qualquer dado amparado em base sólida que o sustente, abarca multidões órfãs de um salvador, que procuram em na figura de um “pai” autoritário os rumos que perderam. Tratamos aqui o jogo político como um jogo de interpretação. Assume-se um papel, veste-se um personagem e cabe ao espetáculo a “afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana como simples aparência”.

Nas redes sociais não são apenas os pretendentes ao poder que se expressam, mas sua legião de apoiadores e críticos se faz presente e evidencia as proporções disso que falamos. Por mais que ainda não haja pleno acesso à internet no Brasil, um significativo contingente acessa diariamente suas redes sociais – antro de bolhas nas quais o sujeito se refugia das contradições cotidianas em que é obrigado a abstrair para argumentar, para ter ao seu entorno apenas opiniões com as quais corrobore e não o obriguem a pensar –, onde pode ver sujeitos em campanha postando fotos e vídeos com crianças sorridentes, sendo abraçado pela população, aplaudido por auditórios lotados, criando uma mistificação do mundo da vida em proporções amplamente divergentes do que se observa na factualidade. É justamente o público anestesiado pela projeção dos mitos que parte em frenética defesa de seus salvadores à direita e à esquerda. Deixa-se o mérito do argumento de lado para travar um combate pessoal ainda que, mesmo assim, seja fundado em falácias. A reprodução de discursos que levam ao êxtase convictos sem prova é ampla e perigosa: quanto mais simples e alarmista é o discurso, mais facilmente arrebata um amplo magote; vide Hitler na Alemanha.

Candidatos à Presidência da República valem-se de vídeos, listas e fotografias de procedência duvidosa para validar seus dizeres, para “provar” e repercutir durante horas que suas postulações são indefectíveis e, logo, são numerosamente compartilhados por seus apóstolos que roboticamente gritam: “mito!”. Pobres! Falta-lhes compreender que mitos são criações de sociedades perdidas, tão atordoadas que já não sabem para onde caminhar e procuram ordem no exterior ao material. Muitos compartilham imagens e vídeos clamando pelo retorno de um regime militar ao país. Sobre uma ocorrência mínima como um caminhão do exército trafegando pela rodovia, captura-se o vídeo e reproduzem-no afirmando ser o início de uma movimentação para “reestabelecer a ordem e o progresso no país”. Tampouco fora esse o motivo da movimentação do caminhão quando o objetivo criado pelos “espetaculistas” não encontra fundamentos na história. Tamanha fora a ordem no país que a imprensa foi censurada, jornalistas assassinados, músicos exilados, emissoras de rádio e televisão concedidas a quem corroborasse em reproduzir a ideologia dominante do Estado, conforme tratávamos em outro momento[2]. O ilogismo de determinados candidatos é tamanho que chegam a defender práticas ditatoriais como a única medida eficaz para sanar os problemas sociais do país, mesmo que não haja qualquer experiência na história mundial que comprove a eficácia de métodos obscuros. Ao final do texto disponibilizamos uma lista de países de governo militar para que possamos analisar se é este mesmo o caminho que o Brasil deve tomar.

Levando em consideração a amplitude do tema, não é possível julgar este texto concluído, pois muitas variáveis são deixadas de lado levando em consideração que o tempo que o leitor despende na sociedade atual é muito reduzido. Sendo assim, deixam-se aqui inquietações para repensarmos o que chamamos de democracia e como a tratamos. Quais as entradas do debate racional e com linha lógica no campo político hodierno? Nossa sociedade está criticamente preparada para lidar com o bombardeamento dioturno de informações nas mídias? e, ainda, estamos preparados para lidar com a democracia?

Por: Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Disponível em: <https://periodico.sites.uepg.br/index.php/educacao/961-precisamos-educar-as-pessoas-para-serem-criticas-afirma-peter-burke-em-entrevista-exclusiva>.

[2] Mosca na Sopa. Disponível em: <http://www.gazetainformativa.com.br/mosca-na-sopa/>.

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