(Imagem Ilustrativa)

Com certeza muitos de vocês já conhecem a frase que emprestei para o título da Coluna desta semana. Ela está presente no terceiro livro mais traduzido na história. São cerca de 216 idiomas. É o quinto mais vendido no mundo.

Há 120 anos atrás, no dia 29 de junho, nascia Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe, publicado em 1943, um ano antes de sua morte, abatido por um avião de caça alemão, durante a Segunda Guerra Mundial.

Como um livro, aparentemente destinado ao público infantil, faz tanto sucesso mesmo entre adultos? Quando foi a última vez que o leu? Ele fez mudar algo em sua vida?

Eu, quando lembro do livro, costumo confundir as falas das personagens, não sabendo se foram ditas pelo principezinho, pelo adulto ou pela raposa, por exemplo. Acredito que todas as personagens representem alguma faceta do próprio autor, como se fosse uma autorreflexão, buscando respostas para suas questões interiores. Quem não pensou em escrever uma história assim? Não é fácil!

É certo que na sua carreira de piloto comercial e militar, muitas vezes se viu sozinho ou realmente perdido no deserto, muito perto da morte. Seus muitos ossos quebrados pelas quedas das aeronaves lhe renderam boas histórias para contar e muito tempo para refletir sobre a sua própria natureza, humana. Quando criança eu comprava envelopes para cartas e nem me dava conta do significado da impressão que dizia “via aérea – par avión”. Saint-Exupéry percorreu os céus do mundo, inclusive do Brasil, transportando correspondências. As viagens eram uma aventura para que as cartas e encomendas chegassem aos pontos mais remotos e ambientes hostis. Talvez algumas das correspondências de seus antepassados tenha voado num avião do piloto francês.

Ainda há pessoas que criticam o livro por sua simplicidade, por ser uma “tentativa de livro de autoajuda”. Com certeza não foi isso que pretendia o autor, mas ele nos traz boas lições.

Perguntado a Ana Maria Machado se o livro era de literatura ou de autoajuda, ela respondeu: “Sim, é literatura. Li praticamente tudo o que Saint-Exupéry escreveu…Ele tem um estilo de prosa poética que pode não ser do gosto de todo mundo…Ele não estava querendo dar conselho a ninguém. Eram considerações filosóficas. É um estilo completamente coerente com tudo o que ele escreveu”.

A frase do título se complementa com “só se vê bem com o coração”. Esta é a especialidade das crianças. Ainda não totalmente dominadas pelos grilhões do mundo adulto, enxergam com os olhos puros do coração e respondem da mesma forma.

A vida seria mais simples de se viver se parássemos, de vez em quando, para encontrar a criança que existe dentro de nós e olhar para aqueles que convivem conosco com o olhar do coração. É certo que não possamos amar ou admirar igualmente os sete bilhões de pessoas no planeta, mas podemos cativar e nos deixar ser cativados por boa parte daquelas que fazem parte do nosso convívio. Olhar com os olhos de criança nos possibilita melhor compreender e aceitar as pessoas como elas são, enxergar além das aparências.

Olhar o mundo com olhos de criança nos permite olhar sem julgamentos, com curiosidade de desbravador. Este olhar faz com que ainda nos surpreendamos com as coisas e não nos acomodemos com ideias preconcebidas, com fatos consumados. É o olhar curioso de criança que nos faz buscar novas formas de conduzir e mudar o mundo para melhor. O olhar de uma criança parece não enxergar problemas, só soluções.

Antoine de Saint-Exupéry viveu pouco. O próprio piloto alemão que derrubou seu avião arrependeu-se do feito. Quem sabe o quanto mais poderia ter contribuído para a literatura e com sua visão de mundo. Seu corpo nunca foi encontrado. Quem sabe tenha desaparecido da mesma forma que o seu principezinho e de algum lugar esteja observando este nosso mundo, sempre insistindo nas perguntas, para tentar entender como funciona este planeta adulto, sem muito coração. Continuamos sem enxergar o que é essencial.

Adnelson Borges de Campos
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