Histórias de Terra e Céu

O farmacêutico de São Mateus do Sul que era dono de Chicago

O pessoal de fora da cidade acha que nós, são-mateuenses, temos mania de grandeza. Talvez seja ciúmes porque temos a melhor erva-mate do mundo, somos a capital da colonização polonesa e em nosso solo, até das pedras tiramos riquezas. Eu sei, eu sei: não pegou bem aquela nossa ideia de montar um batalhão em 1893 e tentar derrubar o Presidente da República. Também não foi muito legal quando fomos com “50 polacos armados” e tomamos a igreja de Palmeira, em abril de 1899. Acho que ainda pioramos nossa imagem quando, no mês seguinte, invadimos Curitiba com 300 colonos e tomamos a Catedral, rezando missas em polonês por três dias seguidos. Imagino, então, que quando um são-mateuense afirmou que era dono de Chicago, aí sim o pessoal pensou que tínhamos enlouquecido. Embarque comigo nesta história!

Quando os primeiros colonos poloneses chegaram aqui, em 1890, logo ficou clara a importância de um deles: o “boticário” Luciano Stencel (foto). Para as duas mil famílias que foram jogadas pelo governo nestas matas às margens do Iguaçu, sem médicos nem remédios, o farmacêutico Stencel acabou sendo um salvador de vidas, principalmente quando a epidemia de tifo matou dezenas de moradores. Casado com Maria Flizikowski, Stencel também se mostrou um líder militar: apoiou Bodziak no Batalhão Polaco, comandando o ataque a São João do Triunfo, no início da Revolução Federalista no Paraná.

Em 1907, quando houve uma desavença entre o delegado Pedro Harmata (partidário de Vicente Machado) e o empresário Ewaldo Gaensly, Stencel apoiou Gaensly, mesmo sendo ameaçado de morte. Um ano depois São Mateus viraria cidade, Gaensly seria o primeiro prefeito, e Stencel o presidente da Câmara. Mas a força de Stencel seguiria em evidência: em 1912 ele seria eleito prefeito. E antes do final da primeira guerra mundial, quando os polacos no Brasil pediam a Ruy Barbosa que intercedesse pela restituição da Polônia como nação, Stencel publicava nos jornais, em polonês, o brado: “Viva a Polônia livre!!!”

Mas, em 1921, Stencel comprou uma grande briga. Sua família havia imigrado para os Estados Unidos muitos anos antes, e adquirido larga extensão de terras onde cultivava “grandiosas lavouras”. Com a morte do bisavô de Luciano Stencel, o governo americano encampou essas terras, dando a outros moradores “à revelia de seus títulos de propriedade”. Um dos jornais noticiou assim o processo judicial no qual Stencel cobrava seus direitos: “Nos tribunais norte americanos corre um pleito quase fantástico. Trata-se de dois irmãos que são donos, de todo direito, (…) da cidade de Chicago! (…) Os dois felizes donos de Chicago são o sr. Luciano Stencel, farmacêutico em São Mateus do Sul, e sua irmã(…). A fortuna pleiteada representa 450 mil contos de réis”.

Infelizmente não tenho registros de como acabou este processo judicial. O certo é que Stencel permaneceu em São Mateus do Sul, morrendo alguns anos depois, repentinamente, de ataque cardíaco. Mas se descobrirmos que não foi feita justiça ao nosso conterrâneo, é bom que o tal do Trump fique esperto: ainda é tempo de montarmos um novo batalhão e exigirmos que Chicago se torne um distrito de São Mateus!

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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