Máquina do Tempo

O Fotógrafo Sírio

Durante o final do século XIX e início do XX, o território sírio vivia conflitos oriundos da disputa pela hegemonia entre o Império Otomano e os cristãos. A França, uma das maiores potências imperialistas da época, fazia intervenções, o que também contribuiu para que muitos sírios imigrassem para diversos países. O contexto brasileiro favorecia. Havia a contratação em massa da mão de obra imigrante para as lavouras de café. Durante a década de 1890, o Brasil recebeu em média 1.200.000 imigrantes, oriundos de diversas partes do mundo. O sírio Felipe Bacil, veio do Líbano para o Brasil, de navio, em 1898. Sua filha, a senhora Mari Carme Bacil, conta que seu pai veio para cá com mais dois irmãos e uma irmã, além de alguns sobrinhos. A irmã, depois de viúva, retornou a terra natal. Mas o restante da família, criou raízes por aqui. Sobre a vida antes da chegada ao Brasil, dona Mari conta que o pai dizia ser de uma família grande, e que todos viviam na mesma casa, costume muito característico de famílias árabes. Seu Felipe contava também, que sua família se dedicava ao plantio da uva, poderiam até produzir vinho talvez, e utilizavam a madeira das parreiras para fazer fogo, pois apesar de ser uma área árida e quente, o Líbano é rodeado por desertos, onde as temperaturas despencam a noite.

Chegando aqui, o senhor Bacil foi para a cidade de Restinga Sêca, próximo a Porto Amazonas, onde conheceu e casou-se com a senhora Sebastiana Bacil. De lá, foram para Mallet, passaram por Vila Palmira e Porto Feliz até chegarem em São Mateus do Sul, onde fixaram residência. O senhor Felipe Bacil também trouxe consigo sua profissão de fotógrafo. A família não soube afirmar se ele já veio do Líbano sendo um fotógrafo ou aprendeu a profissão por aqui. De qualquer modo, é interessante destacar que, foi um francês chamado Louis Phillippe Daguerre, quem inventou a câmera fotográfica em 1839. Seria o senhor Felipe um produto do Imperialismo francês? Ou ainda, seria ele, um brasileiro de coração como Dom Pedro II, responsável pela popularização da fotografia por trazer a câmera fotográfica para o Brasil por volta de 1840, dando ao senhor Felipe uma nova profissão em terras brasileiras? Sobre a sua cultura, segundo dona Mari, a vontade de aprender a língua natal do pai era desencorajada por ele mesmo, uma vez que, Bacil alegava que sendo ela filha de mãe brasileira, deveria falar o português, mesmo assim, ensinou algumas palavras a filha. Contudo, tal receio também foi resultado de uma das maiores dificuldades enfrentadas por ele aqui no Brasil, a língua. Pois, além de não haver na época, maior acesso ao aprendizado de português para imigrantes, o senhor Felipe Bacil, muitas vezes, foi hostilizado e vítima de xenofobia por falar sua língua natal. Uma das coisas mais interessantes relatadas a mim pela dona Mari foi quando perguntei a ela sobre a religião de seu pai. O senhor Felipe Bacil era um cristão maronita, ou seja, um cristão árabe. Portanto, possuía costumes da cultura muçulmana, uma delas, a de parar as atividades ao pôr do sol, no Islã, denominado como o Maghrib. E como cristão, possuía santos e orações, muito provavelmente escritas em siríaco, a escrita utilizada nas escrituras sagradas dos maronitas. Sendo ele, um dos primeiros fotógrafos da região sul, também deixou de legado a sua família, a culinária árabe, por mim apreciada, e confesso, favorita. Ele morreu em 1965, aos 89 anos de idade.

A jornada do senhor Bacil, me faz ressaltar novamente a importância que a história tem para a sociedade. Apesar de ser um contexto diferente, hoje a Síria vive uma guerra civil sangrenta. Segundo dados da ONU, o número de refugiados sírios já superou os cinco milhões, e cerca de 400 mil pessoas, já morreram desde março de 2011. Sem dúvida alguma, essa é uma das crises humanitárias mais devastadoras que a sociedade contemporânea enfrenta desde o holocausto na Segunda Guerra. É triste ver que um povo tão sofrido, com uma cultura tão bela e riquíssima, ainda pague o preço por interesses políticos e econômicos internos e externos daqueles que detêm o poder. Força ao povo Sírio! Hoje vou fi cando por aqui e até a próxima viagem pessoal!

O fotógrafo sírio Felipe Bacil e sua esposa Sebastiana Bacil.

 

Dona Mari Carme Bacil, filha de Felipe Bacil

Jéssica Kotrik Reis Franco
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