(Imagem Ilustrativa)

O futebol ser chamado de “esporte nacional” não é invenção de publicitário. Faz parte da cultura brasileira. Sim, esporte é cultura tal como a música, o cinema e as artes plásticas. Durante muito tempo prevaleceu a fábula de que uns têm e outros não têm cultura, como se fossem robôs. Mas isso não é verdade. Por conta da pandemia, fomos privados de muitas coisas, como a ir ao cinema, ao teatro ou encontrar os amigos em um bar. O futebol talvez seja a única manifestação popular que esteja enraizada em todas as regiões do país e é, sem dúvidas, um dos assuntos mais comentados mesmo quando não havia jogos.

Em junho, os jogos voltaram a ser realizados no Rio de Janeiro e a partir de julho em outros estados, inclusive no Paraná. Além de ser um entretenimento que mexe com as paixões de muitas pessoas, também é um negócio milionário que promove pressões de todos os lados por seu retorno definitivo, e com apoio de muitas torcidas que não se contém sem os jogos. Isso não se basta no campo esportivo-cultural, também há muita política envolvida.

Qualquer que seja a ocasião, o futebol sempre é assistido e eleva a audiência das emissoras. Pedir ao público que se abstenha de acompanhar os jogos por conta da situação do país chega a ofender alguns, pois o esporte é um dos poucos alentos neste momento. Por outro lado, a maneira como se executou a retomada serviu mais para colocar lenha na fogueira do que panos quentes. Sob pressão dos times, governos das três esferas cederam, mas sem estabelecer protocolos que verdadeiramente garantam segurança ou que evitem ser visto como um ultraje às pessoas que padecem. Realizar testagem sem executar isolamento rígido dos membros do espetáculo não serve de muita coisa se levar em conta o tempo de espera para um resultado confiável.

Os jogos realizados ao lado de um hospital de campanha no Maracanã têm simbolismo além do estádio; duvido que tenha sido a intenção de torcedores e jogadores desrespeitar os convalescentes, mas é o que aconteceu. Eu mesmo assisti aos jogos, mas com a certeza de que o enredo deveria ser diferente. O que impede que haja uma liderança verdadeira, que se estabeleça um projeto como o do retorno da NBA, onde os atletas e comissões ficam isolados em um mesmo local enquanto houver jogos?
Uma resposta possível é: a política. Os campeonatos estaduais estão sendo usados como moeda política na disputa de narrativas em que a ciência é tratada como empecilho. Enquanto instituições esportivas permitirem que suas marcas sejam utilizadas para desviar o foco dos verdadeiros problemas, quem perde é o povo, é a cultura nacional.

Texto enviado por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa.

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