Histórias de Terra e Céu

O “Gritador” e o clamor dos degolados

A melhor parte de ser um “contador” da História é que também me transformo em um “ouvidor” de histórias. As pessoas me procuram na rua, no final das missas, no encerramento de palestras, em qualquer lugar, para compartilhar coisas que ouviram dos pais e avós. E essa história oral é tão valiosa quanto àquela que encontro nos livros e jornais antigos. Hoje vamos falar dos relatos do “Gritador”, lenda associada em nossa terra aos episódios da Revolução Federalista. Embarque comigo nesta história!

Há alguns meses estou combinando com meu amigo Everaldo Kotrich para irmos no local chamado Chapada, nas margens do Iguaçu, onde foi encontrado o esqueleto de um barco, com grande possibilidade de ter sido uma das embarcações envolvidas nos conflitos da Revolução Federalista aqui em São Mateus. A localidade faz divisa com a Fartura, com Anta Ruiva e com a fazenda Latorre. Mas o barco propriamente dito acabou ficando em segundo plano quando ouvi os relatos da região sobre a história do Gritador.

Segundo os moradores desta área, a região foi usada como ponto de execução de revolucionários durante a guerra civil de 1893. Um dos locais, inclusive, tem o sugestivo nome de “Degola”, lembrando a principal prática usada para assassinar os inimigos. Os relatos da época, publicados em mais de um volume dos Anais da Comunidade Brasileiro Polonesa, falam que os gritos dos executados “eram ouvidos por toda a Colônia”. O problema é que, muito tempo depois da revolução acabar, os moradores seguiam ouvindo gritos do tipo “socorro”, “piedade”, “pelo amor de Deus, não me mate!”. Criou-se no imaginário da população a figura do Gritador, um espírito preso àquelas matas junto ao rio, que seguia eternamente implorando por sua vida.

Segundo estes mesmos moradores, era comum que, ao ouvir os gritos, as mães recolhessem os filhos para dentro das casas, ou alertassem: “não vá no mato sozinho que o Gritador vai te pegar”. Também ouvi relatos de pescadores que dizem ainda hoje ouvir os gritos, durante as pescarias na região.

A história do Gritador não é exclusividade de São Mateus. Muitas cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina também têm relatos de almas penadas que gritam pelas matas, dando a elas o nome de Gritador. Mas nestes outros estados o Gritador não está associado à Revolução Federalista e sim a outras lendas locais. Aqui, com certeza, a memória dos moradores ficou marcada pelos eventos ocorridos em dezembro de 1893 e janeiro de 1894, quando as forças governistas assassinaram dezenas de são-mateuenses que haviam apoiado a Revolução (prometo contar esta história em outro momento).

Bom, nas próximas semanas devo visitar o esqueleto do tal barco. Por enquanto tenho apenas fotos dele e, certamente, será um tema para um bate-papo futuro aqui nesta coluna. Mas pode ter certeza, amigo leitor, que eu vou estar embrenhado na mata, analisando a embarcação, mas com o ouvido atento para os sons locais. Se o Gritador aparecer, eu é que não vou ficar para ouvir a história dele!

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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