Histórias de Terra e Céu

O imigrante que estudava os pássaros

Quando falamos no “colono” ou no “imigrante” podemos ser levados a imaginar pessoas simples e sem instrução. Apesar dessa imagem ser verdadeira em boa parte dos casos, a imigração teve exceções interessantes, como a de um polonês que veio fazer ciência em nossas terras. Embarque comigo nesta história!

Após as duas grandes ondas da imigração polonesa (1890/91 e 1895/96) para o Vale do Iguaçu, as localidades receberiam imigrantes esporádicos até 1910, quando uma terceira grande leva de imigrantes movimentaria nossas terras. Neste período, muitos imigrantes foram destinados à Colônia Vera Guarani, que pertencia ao município de São Mateus do Sul (depois esta localidade pertenceria a Mallet e, finalmente, a Paulo Frontin).

Entre esse grupo de colonos, chamava a atenção um rapaz de 32 anos, que vivia como um ermitão. Enquanto os demais imigrantes escolheram um terreno no núcleo colonial, o tal Tadeusz Chrostowski se embrenhou na floresta e construiu lá seu barraco, sua roça e seu apiário. Só aparecia para buscar os mantimentos trazidos pelo governo e, rapidamente, retornava para seu esconderijo. Não demorou muito para que os colonos resolvessem investigar as atividades daquele estranho vizinho. E descobriram que Chrostowski passava horas observando e capturando pássaros. Se escandalizaram ao notar que, ao invés de cuidar da roça, ele “cavava a terra, examinava lesmas, abelhas, espetava-as em alfinetes e observava com lupa”.

O que poucos entenderam é que o colono ermitão era um cientista. Após um ano de explorações. Chrostowski voltou à Polônia com um grande acervo de animais. Queria publicar seus estudos, mas se negava a fazer em idioma russo (a Rússia era uma das nações que dominavam o território polonês). Conseguiu publicar em polonês um material compilando suas análises das aves paranaenses (“Kolekcya ornitológiczna ptaków paranskich”), mas com isso ficou marcado pelo governo russo, que proibiu qualquer instituição de apoiar os estudos de Chrostowski. Com a ideia fixa de voltar ao Paraná, conseguiu negociar com o Museu de Zoologia de Munique o apoio financeiro, com a condição de trazer aves em duplicatas para aquele museu.

Chegou por nossas terras novamente em 1913. Montou sua base em Antônio Olinto (onde foi professor), fazendo pesquisas também na região da Terra Vermelha, em São Mateus. Nesse período, Chrostowski “descobriu” vários pássaros que nunca haviam sido catalogados no mundo, e que até hoje se encontram no museu de Varsóvia. Com o início da Primeira Guerra Mundial, Chrostowski voltou às pressas à Europa para integrar um exército de libertação da Polônia. Acabou sendo forçado a entrar para o exército russo. Desertou, precisou usar identidade falsa, passou fome. Após o final da guerra, com a Polônia livre, pode publicar seus estudos e se tornou Curador de Aves Neotropicais do Museu de Varsóvia. Em 1922 montou uma terceira expedição ao Paraná, trazendo outros pesquisadores, numa jornada que cruzaria o estado percorrendo 2.000 km. Após mais de um ano viajando, Chrostowski contraiu malária e faleceu no dia 04 de abril de 1923. O imigrante ermitão seria reconhecido posteriormente com o título de “Patrono da Ornitologia no Paraná”.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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