Mentes Inquietas

O jornal no tempo da mídia digital

(Foto: Arquivo/Gazeta Informativa)

Em tempos de vertiginosas inovações tecnológicas, possibilidades de plataformas e meios nunca antes vivenciados por qualquer sociedade, não surpreende que surjam previsões utópicas e distópicas acerca do futuro dos atuais moldes de produção, de socialização e demais outras coisas. Quando se trata do modo de viver dos nossos antepassados, como na Idade Média, avós e netos eram criados da mesma forma, compartilhavam as mesmas tradições na infância, na juventude e na vida adulta; as relações de labor e lazer tendiam a ser muito bem definidas, sem dar margem para comportamentos fora do padrão. Com inovações tecnológicas que alteram o hábito comunicacional, muda-se a estrutura de convivência. Assim foi com a prensa de Guttenberg (séc. XV) – cujo uso direto estava restrito aos poucos letrados da época, mas sua potência se estendeu por todos os lugares, com a doutrinação por meio de exemplares da Bíblia, impressão de jornais e demais gêneros comunicativos que eram lidos em voz alta para a população –, com a invenção de meios de transmissão da energia elétrica (e a possibilidade de convertê-la em informação), mas sempre se preservaram relações sólidas que integravam os novos meios ao cotidiano, estabelecendo para esses um local e período de atuação/uso. Contudo, sempre que um novo meio surgia, previsões catastrofistas eram feitas, como a prensa acabando com a escrita, o rádio dando fim aos jornais impressos, a televisão dando cabo ao uso do rádio. Atualmente, período das rápidas conexões pela teia mundial da internet, diz-se que esta e seus dispositivos tendem a “acabar” com tudo o que as precedeu. Levando em conta as observações do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) tentaremos compreender como se apresenta o mundo atual e, partindo de pesquisadores contemporâneos, procuraremos enquadrar o processo jornalístico no mundo das rápidas – e caóticas – comunicações.

No mundo atual, nossa atenção as atividades está cada vez mais dispersa, trata-se de um mundo que “jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo” (Bauman, 2010). A transitividade proporcionada pelas novas tecnologias, que se renovam a cada dia, traz uma ilusória sensação de poder e controle sobre os instrumentos digitais. A atual geração de jovens e adultos, seduzida pela conectividade e interação das redes, fez erigir costumes à parte, baseados na velocidade e simplicidade. O Twitter, como observa Bauman, é um dos significativos exemplos deste tempo: mensagens com um número restrito de caracteres, como o gorjear de uma ave, onde a informação deve ser enxuta, resumida, simplificada. O problema não se encontra propriamente na comunicação online, mas no que é feito dela. A internet, que deveria ser um instrumento, tornou-se o centro das relações sociais. Por vezes, para conhecer alguém é mais fácil verificar suas redes sociais online do que conversar com ela. A lógica da internet foi transportada para as redes de interação física – o mundo da vida, desconectado –, no qual o imediatismo e a impaciência imperam; o que se reflete nos discursos políticos, nos clamores populares por uma justiça já há muito ultrapassada.

O jornalismo sofre diretamente os reflexos da nova estrutura dos gadgets. As redes sociais online são erigidas de acordo com os interesses do usuário, que na substancial maioria das vezes cria uma bolha de interações que apenas tendem a fortificar seus prévios conceitos sobre suas crenças (sejam elas religiosas, políticas ou econômicas), banindo com alguns cliques todos aqueles que dele discordarem (racionalmente ou não); ou entra-se em discussões baseadas em puro fideísmo e falácias, sem qualquer vontade de buscar embasamento sério para suas assertivas, uma vez que a busca por gurus que ofereçam soluções rápidas e práticas (seja pelas linhas do Twitter ou nos vlogs do YouTube) são muito mais fáceis e não exigem esforço intelectual. Não raras vezes o conteúdo jornalístico disponibilizado na internet acalenta de acordo com o seu público. Por mais sérios que sejam os portais, seja de mídia convergente ou originário da internet, muitas vezes fazem uso de chamadas sensacionalistas para se manterem com altos níveis de visualização. O jornal impresso, em decorrência, perde parte do público, mas se mantém em circulação (não é porque surgiu o PDF que o livro tradicional foi abolido) tomando caminhos distintos a depender da empresa que os controla. Explica-se: em determinadas ocasiões o meio impresso continua sendo o “carro-chefe” da empresa, que agora conta com multiplataformas, tendo reportagens e matérias de teor jornalístico produzidas de maneira mais aprofundada, sistemática, enquanto para a internet são destinados conteúdos secundários e notas sobre acontecimentos importantes e que não podem esperar pela próxima edição. Em um segundo panorama, o jornal passa a servir como meio de entretenimento, repleto de palavras cruzadas e charadas. O teor comercial das folhas tem forte apelo (isto em qualquer época), o que não é permitido em países com maior índice de desenvolvimento, como o Reino Unido. O que muito se vê é que certos jornais não têm caráter jornalístico, mas publicitário.

É certo que todo meio precisa se adequar aos avanços tecnológicos, mais isto significa que o jornalismo perecerá com o advento dos meios digitais? Acreditamos que não. É certo que em muitas regiões a tiragem dos jornais reduza substancialmente, acompanhando a onda migratória para as redes sociais, mas isto não passa de um sinal dos tempos, que deve ser compreendido como uma possibilidade de avanços técnicos na disponibilização de informações que atendam ao interesse público. Seja impresso ou digital, o que realmente importa é a qualidade do que é produzido.

Mas a internet, como nos disse Umberto Eco (1932-2016), “deu voz a uma legião de idiotas”. Rememoramos Eco porque, assim como Bauman, vê a internet por uma ótica singular e analítica. Quando vemos os discursos (nas redes online) de grupos nitidamente apaixonados por seus ideias e/ou por seus salvadores, que atacam qualquer um que lhes traga informações contrárias e, consequentemente, tratam com desdém os jornais que apuram informações e assim apresentam contrapontos àquilo que se diz. Jornalistas, por sua vez, são indivíduos detestados pelos seguidores de Jair – quem sabe porque este cidadão é um dos maiores autores de falácias na hodiernidade? De fato o jornalismo, a liberdade de imprensa, são detratados por sujeitos de viés totalitário. É nítido na extrema-esquerda cubana – onde os jornais são controlados pelo Estado – e na extrema-direita nazista, onde os jornalistas eram abominados por Hitler.

Outra coisa muito disseminada é que com as redes sociais como Twitter e Facebook, o jornalismo tradicional perde espaço, pois todos podem “publicar suas notícias”. Ledo engano. Sim, todos podem publicar, mas os jornais caracterizam-se (ou deveriam, pelo menos) pela credibilidade de suas informações, conquistada através de um longo processo de apuração, isto é, da certificação de que aquilo que será publicado é factual e atende ao interesse público. O que se entende pelo processo de construção da narrativa jornalística não é apenas captar as palavras de uma das partes envolvidas e publicar, não, trata-se de abarcar uma pluralidade de informações, perseguir o ideal da imparcialidade, ouvir os envolvidos, recorrer a informações complementares, a pesquisas, leitura e qualquer outro meio disponível para levar ao leitor um produto de qualidade que contenha as informações necessárias para se compreender o espectro do acontecimento.

Democracia e jornalismo sempre trilham o mesmo caminho, caso tomem vias distintas, ambos são ameaçados. O ideal da “imprensa livre” é um marco das sociedades ocidentais. Jamais existiu uma sociedade democrática sem instrumentos confiáveis de “fiscalização” do poder. Florestan Fernandes (1920-1995) já nos disse que “jornalismo é oposição, todo o resto é armazém de secos e molhados”. E o é. Jornalismo que não questiona não passa de má publicidade.

O livro de Jacques Mick e João Kamradt, O Fim da Notícia (2017), versa sobre a formação de monopólios de mídia e o impacto no trabalho dos jornalistas. A vertiginosa busca por lucros das empresas, a consequente condição de trabalho, o impacto dos anunciantes sobre a produção jornalística são alguns dos fatores observados e que levantam uma série de questionamentos sobre a qualidade do que é publicado e daquilo que é deixado de lado. Não nos delongaremos sobre este assunto, uma vez que sobre ele podemos produzir vários artigos sem esgotar o tema (deixamos a recomendação de leitura para melhor compreender o quadro das empresas de jornalísticas). Evocamos esta obra para pontuar sobre o aumento observado na venda de jornais impressos do Grupo RBS em Santa Catarina entre 2006 e 2014. Os números não são lineares, ou seja, oscilam de um ano para outro, mas a média anual subiu no período observado. Enquanto em 2006 a circulação líquida anual foi de 494.487 exemplares, em 2014 chegou a 508.619. A internet, ao invés de “ocupar” o lugar das impressões, pode impulsioná-las, como é o caso da venda de livros, que teve em 2017 seu mais profícuo ano.

Há mais do que nos preocuparmos do que com as visões catastrofistas sobre o fim dos meios. Deveríamos dar mais atenção àquilo que é publicado, ao que é de interesse público, ao que de fato é notícia, sobre como o texto é estruturado e se há qualquer jogo de interesses por trás da publicação da matéria; o que os ocupantes do poder vêm fazendo? Os jornais questionam ou apenas replicam aquilo que é dito pelas autoridades? As ações e omissões do Executivo e do Legislativo são postas em xeque? São os questionamentos que deixamos por enquanto.

Fevereiro de 2018.

Por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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