Histórias de Terra e Céu

O Massacre dos Ciganos


Na primeira vez que entrei na Casa da Memória de São Mateus, me chamou a atenção uma foto que mostrava vários ciganos mortos. Junto à foto havia uma explicação para a tragédia. Mas será que explicação era verdadeira? Embarque comigo nesta história!

No ano de 1913 um grande grupo de ciganos montou suas barracas nos arredores de São Mateus. Vários viajantes alertavam os moradores sobre a massa de andarilhos que havia se instalado próximo à Colônia Cachoeira, na localidade conhecida como Toporoski. Os ciganos com seus rituais, danças e práticas de leitura das mãos, eram associados à bruxaria. Também havia relatos de que os ciganos roubavam crianças e sumiam para nunca mais aparecer na localidade.

A preocupação rapidamente se instalou entre os são-mateuenses. As mães faziam os filhos ficarem dentro das casas. Qualquer pessoa estranha nas ruas gerava pânico. No final de maio a situação se agravou. Chegou a notícia de que os ciganos se preparavam para invadir a cidade. Muitos cidadãos se armaram para o confronto. A cada novo dia mais e mais famílias fugiam da cidade, que passou a viver um clima de histeria coletiva.

No dia cinco de junho, às 15h, um trem especial partiu de Curitiba trazendo o tenente Rodolpho Tobias Pinto e mais 26 soldados para proteger a cidade de São Mateus. Também de União da Vitória veio um pelotão, e o sargento, querendo ter os méritos por “salvar” a cidade, coordenou um ataque ao acampamento dos ciganos, mas acabou sendo assassinado.

No dia nove de junho o morador José Cordeiro de Andrade acompanhava o cabo Xisto em mais uma abordagem ao acampamento, trazendo preso o cigano Trajano do Amaral, acusado da morte do sargento. Os habitantes da cidade publicavam no jornal A República, de Curitiba, um apelo ao comissário de polícia: “Será prudente que o nosso comissário lance suas vistas para esse grupo de homens, mulheres e crianças que se acham abarracados nas proximidades desta cidade e, ao que parece, ocupam-se de coisas não lícitas”.

Nos dias seguintes o tenente Rodolpho comandou um forte ataque ao acampamento. Os ciganos foram expulsos e a população comemorou aliviada. Luciano Stencel, então prefeito de São Mateus, telegrafou para o vice-governador pedindo a permanência do tenente Rodolpho, nomeando-o delegado de polícia.

Da ocorrência lamentável restou uma foto, na qual são vistos vários ciganos mortos, em caixões, cercados por moradores e militares. A “explicação oficial” para as mortes foi que houve uma discussão de mulheres, pelo motivo de uma ter caçoado da outra devido ao casaco que usava. Os maridos teriam vindo para intervir e iniciado uma briga generalizada, que acabou na matança. É esse texto que você encontrará na Casa da Memória, junto à tal foto.

Após ler os jornais da época, fico com a dúvida se os ciganos realmente eram uma ameaça para a cidade, e também com uma certeza: o medo descontrolado aumentado por boatos irresponsáveis provocou uma matança que foi acobertada para não manchar a história de São Mateus.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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