Histórias de Terra e Céu

O massacre dos professores, o garoto de Ibiporã e a Dona Aranha…

(Foto: Site do Instituto de Astronomia da USP)

(Foto: Site do Instituto de Astronomia da USP)

Esta é uma coluna sobre astronomia. Preciso falar de estrelas, de planetas e constelações, como faço toda a semana, mas em minha mente as cenas do Centro Cívico se repetem… Vejo professores sendo agredidos, policiais atirando, correrias, gritos… Cenas que nunca deveriam ter existido… Mas eu preciso escrever sobre astronomia… Então, vou contar uma pequena história sobre como um aluno e seus professores mudaram os rumos da astronomia.

Era uma vez uma estrela misteriosa. E era uma vez um menino de Ibiporã, interior do Paraná, destinado a desvendar este mistério. Esta estrela era Eta Carinae, a mais luminosa conhecida, com massa 150 vezes maior que a do Sol, mas que havia sofrido explosões, estava morrendo e passava por misteriosos apagões. E este menino chamava-se Augusto Damineli Neto… Mas havia um problema: Augusto era um guri pobre, com mais de dez anos, que não sabia ler e escrever. Não frequentava a escola por precisar trabalhar na roça com os pais. Nunca havia usado calçados, nunca havia visto uma televisão na vida…

Acontece que os pais concluíram que o menino era “ruim de enxada”. Não tinha jeito para a roça… E decidiram entregá-lo aos professores. Na escola ele não atrapalharia os serviços do campo. E o garoto se mostrou um gênio. Aprendia tudo rapidamente, surpreendendo os mestres. Absorveu o conhecimento dos professores paranaenses (sim, tipo estes que foram atacados no Centro Cívico…), depois foi para São Paulo, se formou em Física na USP, obteve os diplomas de Mestre e Doutor em Astronomia, e ainda fez Pós-Doutorado na Itália. O menino analfabeto de Ibiporã havia se transformado no astrônomo que se dedicou a estudar a misteriosa Eta Carinae. E seus cálculos apontaram que a estrela era um sistema duplo e a interação do vento entre as duas estrelas provocava o estranho apagão com a periodicidade de 5,5 anos. É claro que alguns arrogantes (como aqueles que mandaram bater nos professores…) riram da teoria do brasileiro. Alguém que era um garoto pobre do interior do Paraná ousava tentar resolver um mistério histórico? Mas no dia previsto pelos cálculos de Augusto, Eta Carinae teve seu apagão.

Damineli (foto) foi reconhecido em todo o mundo, participou de projetos internacionais (como o do Telescópio Gemini) escreveu para jornais e revistas (inclusive a Superinteressante). Em 2009 eu consegui trazer Damineli para dar uma palestra aqui em São Mateus. Esbanjou simpatia e humildade com as crianças das escolas locais. Após a palestra ele jantou na minha casa e, em certo momento, vi o famoso astrônomo no tapete da sala com meu filho de apenas um ano, cantando e fazendo os gestos da música da Dona Aranha. Os dois rolavam de rir quando a chuva forte derrubava a persistente aranha.

Os professores paranaenses, assim como transformaram o pequeno Augusto, seguirão transformando o futuro de muitos jovens. E mesmo que a chuva forte da opressão tente derrubar estes mestres, eles sabem que “o sol já vai surgindo” e mostrarão a persistência da Dona Aranha… Seguirão “subindo” em busca de uma educação de qualidade.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza – Astrônomo Amador
gersoncesarsouza@gmail.com

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