Especial

O método colaborativo realizado no Faxinal Emboque

A visita teve como principal objetivo mostrar para as pessoas de fora como funciona a forma de vida do Faxinal. (Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Grande parte da população são-mateuense encontra-se no interior do município, e para garantir formas de sustento algumas famílias produzem de maneira alternativa todos os produtos que serão consumidos por eles e também para a venda. Esse é o caso do Faxinal Emboque, onde a forma peculiar e sustentável de produção chamou a atenção de zootecnistas, empresários, chefs de cozinha e profissionais da área ambiental que realizaram uma visita nas propriedades pertencentes ao Faxinal nesta terça-feira (11).

De acordo com o “Projeto Terra Faxinalense”, um faxinal é uma forma de organização camponesa, única do mundo, típica do centro-sul paranaense, onde a floresta e a biodiversidade são preservadas pelo modo de uso da terra, que é comunitária para a criação animal, ou seja, os animais vivem livres e de forma natural durante o dia, e ao fim da tarde, voltam para os seus criadores onde recebem cuidados necessários e o trato, principalmente com o milho. No caso do Faxinal Emboque, os porcos são a identidade do local, e vivem de forma diferente comparado a outros tipos de criação – como as de confinamento.

O projeto foi desenvolvido pelo Instituto Equipe de Educadores Populares (IEEP), com apoio do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com patrocínio da Petrobras e Governo Federal, contando com a colaboração do Sindicato dos Trabalhos Rurais de São Mateus do Sul, Prefeitura Municipal, Embrapa, Cooperoontestado e Laboratório dos Povos Eslavos e Faxinalenses (LAPEF/I).

Em São Mateus do Sul, o Faxinal Emboque traz há gerações essa forma diferente de produção, que envolve toda a comunidade. Além da criação dos porcos das raças Moura, Caruncho, Piau e Nilo, os moradores trabalham de forma conjunta e sustentável, cooperando entre eles na produção de hortaliças, erva-mate, polpas de frutas típicas como a guavirova, butiá, jerivá e araça. Dentro do faxinal existe uma associação responsável pela organização do espaço. Há também uma cozinha comunitária onde todos os produtos são feitos e vendidos na Feira Livre do Produtor do município.

Os porcos crioulos são criados soltos no Faxinal, trazendo um grande diferencial para a comunidade.

Além das diversidades produtivas no campo, o local possui uma importante tradição e valorização pela terra, onde vizinhos se reúnem para os costumes antigos, como a produção de broas de centeio no forno à lenha, erva-mate processada em barbaquás e conhecimentos populares e culturais de plantio que são repassados em uma boa conversa.

A visita

É encantadora a forma colaborativa que os faxinalenses vivem, e isso traduz a saúde e vitalidade das cerca de 60 famílias em 69 alqueires. Todas essas peculiaridades fizeram com que proprietários e chefs de restaurantes de renome no Paraná, produtores e especialistas na área ambiental passassem o dia entendendo como funciona essa forma de vida. A equipe da Gazeta Informativa também participou desse momento, e registrou todas as ações que foram feitas.

A entrada para o Faxinal Emboque fica localizada sentido União da Vitória, nas proximidades da Baldo S/A. A estrada de chão batido une-se a paisagem nativa da região, onde podemos perceber no caminho plantações, casas de madeira e animais pelos pastos. Logo na chegada todos foram recepcionados com um delicioso café com produtos feitos na comunidade. “Experimentar esse queijo caseiro me fez voltar no tempo e me sentir da casa de minha tia”, expressa uma das convidadas.

A simplicidade foi valorizada em todos os seus aspectos: pela forma de vida e como tudo é produzido. Em uma roda de conversa dinâmica, os proprietários da casa onde todos foram acolhidos, Paulo Márcio Wenglarek e Giovana Lemos de Melo, explicaram como funciona a criação livre dos animais. Ideias foram surgindo e os visitantes ficaram entusiasmados em incentivar essa forma de produção. “Foi muito gratificante pra nós ter a oportunidade de mostrar nossa essência cultural, culinária e talvez algo a mais. Isso nos faz acreditar que é cada vez mais viável e possível construir soluções que vem para melhorar a vida de todos dentro das possibilidades de cada um na nossa ‘casa’”, afirma Giovana.

O encontro também contou com a participação do ator Luís Melo. Na foto, Melo e Giovana Lemos, proprietária da casa que acolheu os visitantes.

Toda a visita foi organizada pelo zootecnista Marson Bruck Warpechowski, que coordena o projeto Porco Moura na UFPR, que envolve o estudo e resgate de raças nativas e de sistemas de produção tradicionais, como ocorre nos Faxinas. Ele comenta que a ideia era mostrar para os convidados um lugar que ainda deveria ser considerado um sistema verdadeiramente tradicional de criação. “O sistema faxinal é único no mundo, criado aqui no Brasil, uma coisa genuinamente nossa, que tem 200 há 300 anos e nunca foi valorizado. A visita teve como objetivo apresentar esse sistema para que os clientes (chefs de cozinha e empresários) entrem em contato com os produtores para facilitar a criação de redes de comércio”, explica. A carne do porco Moura, criado no Faxinal, é considerada nobre no mundo da gastronomia, e por esse motivo o interesse pela forma de produção passou a ser bastante divulgada.

O objetivo geral do Projeto Terra Faxinalense é fortalecer a identidade camponesa e faxinalense das famílias que vivem na comunidade através da melhoria das condições de trabalho e renda, garantindo segurança alimentar, permanência no campo e a continuidade de costumes tradicionais fundamentais para o meio ambiente e para a sociedade.

As broas, geleias, natas, pães e bolos são produzidos na cozinha comunitária do Faxinal.

Estudante de Jornalismo que adora escrever e conhecer um pouco sobre a vida e a história de cada pessoa envolvida. Preza pela essência que é repassada na produção de cada matéria, valoriza os pequenos gestos e apoia o ativismo ambiental. E-mail para contato: claudia@gazetainformativa.com.br

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