Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

O Modelo do amor livre

Todos nós amamos. Amamos diversas pessoas; amamos nos diversos modos. O sentimento do amor tem ramificações que o expressam em intensidades diferentes. Expressamos o amor no relacionamento entre amigos, parentes, vizinhos, cônjuge, nos projetos aos quais nos dedicamos. Resumindo, ninguém vive sem amar.

Além do sentimento do amor, o ser humano tem outros sentimentos que infelizmente não deixam o amor se expressar na sua forma plena. Em muitos momentos e em muitas relações, pessoais ou em projetos, estipula-se um prazo de validade para o amor ao se colocar condições para que ele possa continuar existindo.

Lembro aqui o filósofo brasileiro, Clóvis de Barros Filho, que distingue algumas maneiras de amar: Segundo ele, já na antiguidade o filósofo Platão falava do amor que se expressa no desejo de querermos algo; amamos aquilo que não temos, aquilo que desejamos, amor esse chamado em grego de Eros. Clóvis cita ainda outro filósofo grego chamado Aristóteles, que dizia que o amor é um sentimento de felicidade, de satisfação por aquilo que já temos, marcado pela presença das pessoas ou das coisas que já possuímos. Aristóteles chamava esse amor de Philia. É o amor na presença.

Notemos que todos os nossos amores estão carregados de Eros e de Philia, amamos o que desejamos, e aquilo que possuímos. Esses níveis de amor tem sua importância, mas possuem sim um prazo de validade. Nossos amores humanos exigem serem correspondidos, cobram a fidelidade, aguardam a expectativa que o(a) outro(a) nos despertou, a satisfação que tal projeto ou situação vai proporcionar ou não, e assim por diante.

Queremos viver um amor livre, desejamos ser livres no amor. Um amor condicionado sempre esperando algo em troca escraviza, torna a pessoa dependente daquele amor, faz sua felicidade depender da correspondência, da expectativa esperada, e se algo não dá certo o amor desaparece, ficando talvez a frustração, a infelicidade.

Um amor livre, que gera felicidade se for experimentado realmente é proposto por um outro grande pensador, tido pelo cristianismo como o Filho de Deus, Jesus Cristo. Jesus vai propor sua forma de amar, que é a revelação do amor de Deus; mostra como Deus ama; mostra do Modelo perfeito do amor, do amor que é livre. O amor de Deus é livre porque é incondicional, Ele não exige nada em troca do seu amor, simplesmente ama, partilha seu amor, sua preocupação para com a humanidade, para com o outro.

É quando amamos o outro, quando nos dedicamos a algo pelo simples fato de amar, de se sentir feliz, realizado em poder fazer o bem, sem esperar uma retribuição. Como diz Clóvis de Barros, estranhamente, a retribuição, a felicidade que se sente neste amor transmitido por Jesus, chamado Ágape, é o bem DO OUTRO, e não o da pessoa que faz o bem, do sujeito do amor.

Nesse final de semana, 17, a Igreja Católica celebra na sua liturgia a Ascensão de Jesus ao céu, lembrando sua volta para o Pai. Antes de se despedir dos discípulos, para que a humanidade viva melhor Jesus lhes pede que vivam o maior mandamento por Ele ensinado, o Amor. Vivendo em tudo o amor estarão ligados à Deus. “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos.” (Jo 15, 12.13).

Diferente do amor de Platão e de Aristóteles, este é o amor de Jesus, o amor de Deus, que não coloca condições para amar, que não estipula prazos, que não se molda a interesses; o único interesse é o bem DO OUTRO. “Eu vos disse isto, para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15, 11). A verdadeira alegria e satisfação está no amor que é livre, no simplesmente amar, amar sem limites como canta a canção Números da banda Engenheiro do Hawaii: “A medida de amar é amar sem medida”. Esse é o amor de Deus; sem limites.
Que nos nossos projetos, nas diversas formas de amor das nossas relações busquemos viver e transmitir esse amor de Deus: mais livre, mais prazeroso, mais verdadeiro, mais perfeito; do qual brota os Verdadeiros Frutos de felicidade.

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