(Imagem Ilustrativa)

Nesta semana eu pesquisava sobre o uso de metáforas. Por definição, metáfora é uma figura de linguagem onde se emprega um termo com significado diferente do habitual, com base numa relação de similaridade entre o sentido próprio e o sentido figurado.

Uma metáfora não representa uma verdade ou mentira. Metáforas são arte, não alguma coisa exata. Mesmo assim, podem nos ajudar a compreender um pouco mais o sentido das coisas vividas, por exemplo. Existem algumas famosas e exploradas na literatura. Elas podem agté dar origem a teses de doutorado.

Escolhendo exemplos de metáforas, voltei a me deparar com uma escrita por William Shakespeare. Na realidade ele usou a mesma metáfora em duas de suas obras.

Em “Como Você Quiser” ou “Como gostais”, uma comédia, escreveu “O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas, que entram nele e saem. Muitos papéis cada um tem no seu tempo”. Já em “O mercador de Veneza usou numa fala de sua personagem, Antônio, na primeira cena.: “O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que todos representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste”.

Pode parecer clichê, mas até hoje usamos esta metáfora para explicar o que sentimos, nossas angústias, justificar as máscaras que usamos. Shakespeare também não foi original.

Há registros de que a comparação do mundo com um palco e as pessoas como atores antecede Shakespeare. Juvenal, antigo poeta romano, que viveu no Século I, escreveu uma das primeiras versões desta linha em “Sátira 3”: “Toda a Grécia é um palco, e todos os gregos são atores.” Já a peça do poeta inglês Richard Edwards, “Damon e Pythias”, escrito no ano em que Shakespeare nasceu, contém as linhas: “Pitágoras disse que o mundo era como um palco, / Onde muitos atuam suas partes; os espectadores, o sábio”.

Trazendo tudo para mais perto de nós, Silvio Caldas e Orestes Barbosa em “Chão de estrelas” nos trouxeram: “Minha vida era um palco iluminado / eu vivia vestido de dourado / palhaço das perdidas ilusões /cheio dos guizos falsos da alegria/andei cantando a minha fantasia/entre as palmas febris dos corações”.

É provável que a metáfora tenha sido usada por muitos mais, mas estas foram as que consegui lembrar ou resgatar. Quando escrevemos, quando criamos nossos universos ficcionais, apenas tentamos imitar a vida, quem sabe traçar universos diferentes. Escolhemos nossas personagens, criamos seus perfis, suas histórias, seus papéis na trama. Nem sempre o aparente é o real. Só quem realmente sabe o que é, o que sente, o que pensa, é o indivíduo. Na vida, representamos papéis. Deixamos a vista apenas um pouco do que somos.

Na antiguidade, nos “palcos”, usavam-se máscaras, nas tragédias e comédias gregas. Continuamos fazendo isso até hoje, em nosso dia a dia. Um exemplo disso são as postagens em redes sociais, onde muitos tentam representar algo nem sempre verdadeiro. Não que haja falsidade, mas é melhor vender uma boa imagem, de um bom momento vivido, de uma fotografia produzida do que retratar aquilo que nos incomoda.

O sociólogo canadense Erving Goffman, em sua obra “A representação do eu na vida cotidiana” (1956) faz referência linhas da peça “Como gostais” de Shakespeare, citada acima. Para ele, toda nossa atuação é para atingir nossos objetivos, bem como para construir uma autopercepção coerente para a sociedade e, dessa forma, nos conformar com suas normas, evitando embaraços. Ele distingue palco de bastidores. No contexto do palco, dos cenários, o professor tem a sala de aula, o pregador o púlpito, o réu o banco do juízo. O figurino ajuda na construção do papel: o jaleco, a toga, o uniforme prisional. Cada um sabe o que fazer nessas situações, como se comportar e espera que outros no palco também cumpram seu papel. Seria inusitado o professor abrir uma marmita durante a aula, o pregador sentar-se nos degraus para jogar no celular, o réu aproveitar o microfone de depoimento para fazer um show de stand-up comedy. No palco, apresentamos a personagem mais conveniente.

Para o blog “Ensaios e Notas”, já “nos bastidores relaxamos. Usamos roupas simples em casa, somos “autênticos”, compartilhamos comentários maldosos com quem realmente temos intimidade. Nos bastidores remoemos nossas desculpas para diminuir nossas responsabilidades em atuações faltosas ou buscamos justificativas para validar nossos atos como se bons fossem”.

Qual metáfora representa a sua vida?

Adnelson Borges de Campos
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