Histórias de Terra e Céu

O Nazismo e a Matriz – Parte II

Na conversa da última semana falei sobre a possibilidade do médico nazista Josef Mengele ter passado por São Mateus do Sul, e trabalhado como pedreiro para Alcebíades Fabrin, o homem que coordenou a construção da nossa Matriz. Também concluí a conversa prometendo mostrar que uma outra pessoa, que sentiu o nazismo na pele, tinha sido fundamental na construção da bela Igreja que virou cartão postal de nossa cidade. Embarque comigo nesta história!

Já falei aqui que a construção da Igreja Matriz foi uma epopeia que durou quase 20 anos. Neste período houve de tudo: obras que paravam e recomeçavam, pedreiros que eram pagos de forma estranha (por exemplo: a igreja chegou a usar uma sanfona e um rádio como pagamento), seguradora se negando a assumir o risco por uma torre tão alta (e a filial de Curitiba se rebelando e aceitando o seguro) e, para complicar, a comunidade brigando por causa do santo que deveria ser o padroeiro… enfim, confusão atrás de confusão. Foi para enfrentar este cenário que chegou à Paróquia o padre Bronislau Bauer.

Bauer nasceu em Cracóvia no dia 19 de outubro de 1914. Foi ordenado em 1939, tendo atuado como capelão, professor e catequista nos quatro anos seguintes. E foi em 1943 que a Gestapo invadiu a casa da Santa Cruz, em Varsóvia, levando todos os padres poloneses para campos de concentração na Alemanha. Padre Bronislau foi prisioneiro em Gross Rozen, depois em Dora e, por fim, em Bergen Belsen, local onde morreram 70 mil pessoas (entre elas, Anne Frank). Quando os ingleses libertaram os sobreviventes, em 15 de abril de 1945, encontraram também milhares de cadáveres para enterrar (foto desta coluna).

Quando padre Bronislau Bauer foi libertado e reencontrou os poucos amigos que sobreviveram, sua frase foi “Somos livres agora! Que o bom Deus nos conceda uns 40 anos ainda para poder trabalhar no Brasil”. Em outubro de 1950 o missionário chegava a Curitiba e, após atuar como professor no Seminário e administrar o jornal Lud, recebeu a missão de ser pároco em São Mateus do Sul, para concluir “a construção da nova e imponente Matriz, iniciada há vários anos, mas praticamente parada”. Com a persistência de um sobrevivente, padre Bauer foi animando os movimentos religiosos nas capelas e na cidade, pois sabia que era a “Igreja viva” que poderia ajudá-lo a construir a igreja de concreto. E quando alguém reclamava de algo, ele falava: “vocês precisariam passar nem que fosse um dia em um campo de concentração, para valorizar o sofrimento”.

Quatro anos depois de assumir a paróquia, Bauer conseguiu completar a obra, inaugurando a nova Matriz a 08 de dezembro de 1964. Dois anos depois deixava a cidade para assumir a função de Vice-Visitador, cargo importante na Congregação da Missão. Nessa condição ele se encontra em 1968 com o Bispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, que se tornaria o Papa João Paulo II.

Após muitos outros serviços prestados no Brasil, padre Bauer faleceu em 09 de maio de 1986, sendo enterrado no cemitério da Serrinha. São Mateus lhe prestou homenagem colocando seu nome na Casa da Memória. O livro “Quem foram, o que fizeram esses missionários” lembra que ele havia vivido 40 anos após ser libertado do Campo de Concentração… Eram os 40 anos que ele havia solicitado a Deus ao se reencontrar com os amigos.
Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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