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O novo é uma ficção

(Imagem Ilustrativa)

O novo é uma ficção. Todos afirmam ser o novo, fazer diferente. O fato é que discursos eleitoreiros são repetidos a cada pleito por portadores diferentes. Hoje, candidatos buscam credibilidade afirmando não serem do campo político, que estão cansados de tanta roubalheira e desrespeito. Lançam propostas fáceis de assimilar, mas que dificilmente encontram respaldo lógico se levadas em conta as especificidades do país. Atualmente, dois discursos cativam ampla parcela do eleitorado: 1) o belicista, aquele que afirma estar indignado com as mazelas e os crimes que se alastram pelo país e propõe uma solução fantasiosa e incoerente com a história, como se em algum momento o emprego da força tivesse sido útil para garantir a coesão social; e 2) aquele que diz não ser político, que não depende do Estado pois é um empresário de sucesso, que “não precisa” surrupiar dinheiro público pois o tem em suficiência. A massiva adesão a esses discursos demonstra que o sistema de ensino falhou em dar bases para a compreensão do mundo e que a sociedade não consegue preservar sua história.

Quando um candidato se apresenta com uma fórmula que resolve os problemas como se o processo fosse simples e apenas não tínhamos pensado nisso antes, desconfie. Certa vista, um ex-militar resolveu colaborar com seu país por meio da política. Era um sujeito com inegável amor pela sua pátria. Não demorou para que apoiadores surgissem de todos os cantos, convictos de que ele era o caminho da verdade e da justiça, aquele que recolocaria seu país nos eixos e devolveria o orgulho nacional ao seu povo. Fora democraticamente eleito com aclamação popular, fazendo discursos efusivos e seguido por milhares de pessoas. A Alemanha dos anos 1930 e 40, a Alemanha de Hitler e do Holocausto nos deixa um claro ensinamento que muitos teimam em não entender: autoridade não se confunde com autoritarismo; o discurso é populista, a prática é genocida.

Nos últimos anos o Brasil vem enfrentando o aumento de uma série de problemas decorrentes de más medidas tomadas pelos órgãos governamentais. O desemprego cresce, a criminalidade se amplia e uma sensação de constante insegurança toma conta de milhões de brasileiros. Como não se via há anos, famílias voltaram a cozinhar à lenha devido ao aumento do preço do gás de cozinha[1]. A história demonstra que quando as pessoas se encontram em condição de vulnerabilidade e já não se tem noção de um caminho para seguir, procuram-se por respostas fáceis e de rápida aplicação. Assim foi com governos autoritários do Oriente Médio à América do Sul. A criação e propagação de mitos é perigosa. Mitos são úteis para a fixação de ideologias no seio da sociedade sem que esta perceba os jogos de força que a rodeiam. Roland Barthes (1915-1980) em seu livro Mitologias (1957) elenca a função dos mitos nas sociedades modernas; a narrativa que se insere em meio aos jogos de força da sociedade normatizando formas de agir como se fossem naturais. Louis Althusser (1918-1990) elenca que o mito pertence à classe dominante, pois a ela interessa fazer com que as coisas pareçam naturais e irremediáveis justamente para a manutenção de sua dominação.

No Brasil de hoje  reproduz-se o discurso empreendedor como a suma solução para os problemas do país. É fato que a verve empreendedora individual tem muito a contribuir para inovações, mas não se pode delegar a ela toda a responsabilidade de solucionar os problemas do país, pois não conta com tamanha capacidade. “O problema é que as pessoas só pensam em se aposentar e não querem trabalhar”, dizem uns. “Não pense em crise, trabalhe”, dizem outros. É fato que sem trabalho duro as coisas não acontecem, mas precisamos observar a duvidosa legitimidade dos portadores desse discurso. O trabalho é dimensão da vida indissociável das origens do sujeito. Aqueles que tiveram a sorte de nascer em famílias que participaram da colonização e demarcaram para si grandes lotes de terra e daí por diante manejaram seus bens com cautela, largam muito na frente daqueles que precisaram vender o almoço para poder jantar. Dizem que trabalharam muito para chegar onde estão, certamente trabalharam. Mas com o caminho livre para investir em suas perspectivas sem a preocupação de ter que lutar diariamente pela sobrevivência.

A noção de “novo” reproduzida atualmente carrega em si uma série de estratégias antigas. Privatizar aquilo que, segundo dizem, é ineficiente e apenas infla a máquina do Estado, como observamos desde os anos 1990 no Brasil e atualmente na Argentina em grave crise. Mas a visão limitada que apresentam não lhes permite observar que a dita “ineficiência” por si, mas problemáticas que sequer são mencionadas por esses grupos. A Finlândia[2] é um grande exemplo de como o investimento correto dos recursos públicos culmina em um estado de bem-estar social jamais alcançado em países que propagam o discurso “novo”. A questão central é: até que ponto esse discurso age de “boa-fé” e parte para a defesa mitificada de interesses particulares? Alardeiam que são eles quem geram emprego, mas na verdade nada mais fazem do que minimizar os custos, precarizando as condições de trabalho e de vida de quem de fato realiza o trabalho que tira suor do rosto. A vitória da mitificação acontece quando o próprio explorado não reconhece sua condição de servo e parte em defesa dos interesses de seu senhor. É completamente possível a convivência entre público e privado mas, sobretudo, é necessário que haja respeito pela condição de dignidade humana; que se perceba que vivemos em um país de oportunidades desiguais para as crianças terem uma formação crítica – só poderemos falar em mérito quando as crianças não mais se distinguirem pela capacidade de pagar por educação e cultura, mas por suas ideias e apreensão dos encontros com o mundo.

[1] Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/11/16/alta-no-preco-do-botijao-faz-pobres-trocarem-gas-por-lenha-fogao-faz-falta.htm>. Acesso em: 18/09/18.

[2] Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45489669>. Acesso em: 18/09/18.

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