Placas_Ruas

Quem já caminhou pela rua da Rodoviária (aquela paralela à Ulisses Faria, e que passa lá no cemitério) pode ter notado que algumas placas a identificam como “Altino Pereira de Lima” e outras como “Altino Ferreira de Lima”. Mas o pior é descobrir que o nome exato do “indivíduo” homenageado com a rua não é nenhum destes dois. Embarque comigo nesta história!

Entre os comerciantes que se estabeleceram em São Mateus do Sul nas décadas de 30 e 40, aproveitando o crescimento do município devido à navegação a vapor, destacava-se um nordestino chamado Altino. O pernambucano de 33 anos havia se casado na Lapa com uma moça chamada Enedina Arzua (parente de Ivo Arzua, que foi prefeito de Curitiba e Ministro da Agricultura), mudando-se para São Mateus do Sul, na sequência. E como bom nordestino, Altino rapidamente fez amizades na cidade.

Entre estes novos amigos estavam Veco e Nino Bettega. Foi com eles que Altino fundou, em junho de 1942, o aeroclube de São Mateus do Sul. Veco fez o primeiro pouso na cidade. Altino e Nino Bettega também se alternavam pilotando um pequeno avião e dando aulas de pilotagem para alguns moradores. No dia 26 de março de 1943, após se despedir dos filhos pequenos, Altino subiu na aeronave H.L., pilotada por Nino Bettega. O que aconteceu na sequência eu já contei em outra conversa neste espaço: o avião decolou e Bettega, ao tentar dar um rasante para assustar os cavalos dos polacos que cercavam a igreja, perdeu o controle da aeronave e despencou na rua Cândido de Abreu (atual Ozy Mendonça de Lima). Bettega morreu às 15h40 (horário do acidente).

Altino sobreviveu à queda e foi levado em estado grave para o hospital municipal, mas sua luta pela vida durou menos de uma hora: às 16h30 o pernambucano apaixonado por aviões falecia, deixando a esposa e três filhos pequenos (Heraldo, Vera Maria e Adalgisa). Seu corpo foi enterrado no cemitério municipal, e o túmulo azul ganhou uma saliência no formato de um aeroplano.

O acidente chocou a população de São Mateus do Sul e, algum tempo depois, vereadores propuseram colocar o nome dos falecidos em duas ruas paralelas à do cemitério (direção para onde a cidade começava a crescer). Nino Bettega se chamava João Clementino Bettega. Já o nome completo de Altino era uma dúvida. Mas alguém falou que era “Altino Pereira de Lima”, e o nome acabou indo para a lei e para o mapa da cidade. Só em 2004 o poder público notou que o sobrenome seria “Ferreira” e não “Pereira”, e nova lei alterou a denominação. Mas mesmo assim um pequeno erro permaneceu: o nome correto era “Altino Ferreira Lima” (e não “de Lima”), mas aí as placas já estavam prontas, e o falecido, que já tinha passado décadas sendo chamado de Pereira, não iria reclamar deste “de” excedente.

Mas, na minha opinião, pior do que a confusão com as leis e as placas, é ver no cemitério o túmulo azul quase que abandonado. A pintura descascada e a falta de uma plaqueta de identificação, refletem um descaso com o patrimônio histórico, algo que se repete, infelizmente, na nossa bela São Mateus do Sul.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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