(Imagem Ilustrativa)

Outro dia me deparei com um vídeo engraçado. Engraçado de fazer rir, mesmo. Nele, em meio a uma multidão gargalhando, a pessoa que mais sorria era um Santo. João Paulo II quase não conseguiu manter-se na cadeira de tanto rir. O vídeo apresentou um pequeno trecho de uma audiência geral no Vaticano, em 1990, onde um, na época, estudante e seu companheiro, vestidos de palhaços, conseguiram transformar a fisionomia do homem que nos acostumamos a ver com ar compenetrado, concentrado em sua missão. Um homem humilde, próximo do povo, mas de ar sério, protocolar.

Vendo o Papa, que nos deixou em 2005, mostrando toda a sua condição humana, fiquei pensando na nossa necessidade de criar mitos, de eleger heróis. Este Papa seria uma boa escolha. Se olharmos para as nossas experiências mais recentes, vamos perceber na literatura, no cinema muitos exemplos de personagens criados retratando heróis. Isto acontece desde a antiguidade, como por exemplo na mitologia grega, passando pelas histórias das religiões, na escrita dos grandes clássicos da literatura, chegando até as histórias mais modernas.

Parece que adotamos um certo padrão ao eleger e contar a história de nossos heróis. Este possível padrão foi primeiro reconhecido (ao menos fez o primeiro registro) pelo antropólogo americano Joseph Campbell, estudioso de mitologia e religião comparada. Ele publicou, em 1949, um livro chamado “O Herói de Mil Faces”, momento em que apresentou ao mundo a “Jornada do Herói” ou “Monomito”, hoje usado por muitos escritores como roteiro de suas obras.

Então, o que teriam em comum os mitos de Hércules, a Odisseia de Homero e histórias mais recentes como a de Lucky Sky Walker ou Harry Poter, além de muitas histórias dos desenhos e filmes da Disney? Elas são muito parecidas, seria coincidência?

Segundo Campbell, há dois tipos de heróis, os que cometem atos de bravura ou coragem, quando colocados à prova e um outro tipo, que transforma o seu mundo espiritual, que traz revelações, ensinamentos a serem seguidos. O ciclo é percorrido por um sujeito, aparentemente comum, que passa por diversas provações até alcançar a “recompensa” final (não que o procurasse) como herói ou, internamente, encontrar um novo estado de consciência.

Nas culturas mais primitivas, os heróis saiam por aí matando monstros. Com a evolução da sociedade, os atos do herói passaram a focar nos momentos de transformação. Moisés, por exemplo, sai para uma grande jornada, sob até o monte e recebe das mãos de Jeová as tábuas com as regras para uma nova sociedade. Você pode considerar até um sacrilégio, mas a Jornada do Herói parece presente nas histórias de vida de Jesus, de Buda e de outros ícones religiosos. Nas histórias dos heróis, há sempre um momento de transformação, com provações (como as três tentações de Cristo e de Buda – quinhentos anos antes de Cristo) do herói, que passa da morte para um renascimento, num outro estágio de consciência.

O herói é o sujeito capaz de sacrificar sua vida pelo bem dos outros, por um objetivo. É ele quem trilha os caminhos difíceis, para que seus seguidores possam fazê-lo com mais segurança.

Campbell passou os últimos anos de sua vida como assessor e amigo de George Lucas, o criador de Star Wars, uma série que usa como base a Jornada do Herói descrita pelo antropólogo, com a primeira trilogia apresentada de 1977 a 1983.

Depois dos estudos e obras de Campbell, que morreu em 1987, o roteirista de Hollywood Christopher Vogler publicou, em 2006, o livro “A Jornada do Escritor”, adaptando o trabalho de Campbel, transformando a jornada em um ciclo com doze estágios (comparáveis com os 17 propostos por Campbell). Vogler usou o seu Guia Prático para o Herói de Mil Faces na produção de “Aladdin, 1992” e “O Rei Leão”, 1994. Outras animações vieram depois.

O que se sucedeu foi uma febre de obras usando a Jornada como referência, mesmo que parcialmente modificada. Podemos encontrar o ciclo da Jornada do Herói em histórias como a de Harry Potter, Matrix, os filmes da Marvel, em O Senhor dos Anéis, em Batman, por exemplo.

Admirar um herói na ficção é algo prazeroso, mas na vida real, precisamos tomar cuidado com nossas escolhas, com a veneração que temos por determinadas pessoas. A diferença entre um herói e um anti-herói pode estar num simples ato, num só gesto, em algumas palavras usadas.

Adnelson Borges de Campos
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