Mentes Inquietas

O preconceito de Nietzsche

Cena do filme Lou. Nietzsche e Lou Salomé (Divulgação)

Friedrich Nietzsche (1844-1900) é considerado como um dos mais importantes filósofos da história. Conforme apresenta o doutor em Germanística Marcelo Backes, Karl Jaspers coloca Nietzsche como um ponto de ruptura na história do pensamento ocidental. «Se antes de Nietzsche dominava o ‹conhece-te a ti mesmo› socrático – que perdurou até Hegel, com o qual alcançou seu ápice –, depois dele a filosofia se caracteriza por um profundo desengano em relação à racionalidade, pela dissolução de todos os elos entre as coisas e pela queda de todas as autoridades.»[1] Em suma, o filósofo alemão ficou caracterizado pela acidez de suas críticas, pela denúncia de diversas formas de doutrinação e por achincalhar as obras de nomes de relevância de Platão a Marx. Nietzsche desdenhava das imposições morais – dirigindo-se diretamente ao cristianismo – e, nesse caminho, perdeu contato com o real bradou preconceitos em alguns de seus aforismos.

Principalmente quando se fala da maneira com a qual Nietzsche se dirigia às mulheres, evidencia-se grande carga machista. Em Além do bem e do mal (1886), verifica-se menosprezo e desdém do filósofo com relação às pessoas do sexo feminino. No aforismo 145 do livro citado, vê-se: «comparados o homem e a mulher no todo, pode-se dizer: a mulher não teria o gênio do adorno se não tivesse o instinto do papel secundário».

São várias as explicações que estudiosos dão aos escritos de Nietzsche sobre as mulheres. Dentre as mais recorrentes, sua péssima relação familiar, principalmente com a irmã, a qual quando o filósofo estava debilitado física e psicologicamente subverteu muitos de seus escritos. Em outra linha, há aqueles que afirmam que apesar do amplo conhecimento do filósofo, fora uma vítima do tempo em que viveu. O mundo, até os dias correntes, demonstra-se amplamente machista e patriarcal, ainda que atualmente haja amplo combate a esses males sociais. Aristóteles em A Política, também demonstra posicionamento patriarcal e machista. Ambos os pensadores estavam inseridos em ambientes que os condicionavam a produzir textos com tal viés, mas Nietzsche, principalmente, não pode ser «protegido» por esse fator. Para um sujeito que se considerava à frente de seu tempo – e de fato fora em diversas ocasiões –, com os avanços científicos e referenciais teóricos já existentes em sua época, Nietzsche prova que um mesmo sujeito é capaz de ser genial e retrógrado ao mesmo tempo. György Lukács o definira como a «expressão da ideologia reacionária do imperialismo mundial»[2].

Não há desculpa que se sustente para os julgamentos claramente preconceituosos do filósofo alemão. Não são provocações com algum fim reflexivo. Valeu-se de aforismos para depreciar a imagem feminina por meio da sexualização exacerbada e da inferiorização da capacidade intelectual – bem como a «masculinização» da imagem da mulher que se sobressaia entre os homens no campo do intelecto.

A dicotomia entre «bem» e «mal» ganha corpo na distinção entre os impulsos livres, sensíveis, e a docilidade dos corpos treinados pela moral. A moral, por sua vez, é um dos pontos mais combatidos pelo filósofo; considera que a individualidade, o poder criativo são coagidos pelo crivo da moral, que deturpa a potência humana, normatizando e massificando as ações. Eis, então, que Nietzsche vê na mulher uma inclinação amplamente maior ao recato, a agir de acordo com as normas sociais e a acatar a posição de inferioridade. O ponto-chave é que Nietzsche produziu textos misóginos justamente pela incapacidade de debruçar-se sobre a realidade que as relações de dominação não são simples atritos de força entre intelectos preparados para o embate: tal como ocorre com a religião – que acerta em criticar –, os instrumentos da dominação do homem sobre a mulher e do homem sobre o homem na sociedade patriarcal são implantados logo a partir do nascimento. A formação social segue a estrutura de forças dominantes que primam por manter a ordem que lhes convêm. Desta maneira, tal como o pássaro que nasce e cresce em uma gaiola, os seres humanos não descobrem o mundo exterior ao que lhes é permitido pelas grades da cultura e da moral do patriarcado cristão. Percebe-se claramente que ao fazer mau juízo de gênero, o filósofo se perdeu na própria crítica; pela soberba não fora capaz de examinar princípios, mas apenas fins. Isso vale, claramente, apenas para parte das críticas que tece sobre as mulheres, mas é primordial elencar pois daí partem todas as demais.

É na visão sexista do mundo que o pensamento nietzschiano encontra seu ocaso. Incapaz de aderir ao estudo social, influenciado pela estrutura social de sua época e movido por um sentimento de rancor contra a irmã e desilusão por Salomé, passa de uma crítica que poderia ser explicada socialmente e exterioriza sentenças alucinadas, que demonstram apenas o desespero de quem dedicou a vida a uma causa e esqueceu de viver, de um homem infeliz.

Por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] Nietzsche: obras escolhidas/Friedrich Nierzsche; tradução Renato Zwick, Marcelo Backes. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2016. 488p.

[2] Idem.

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