Herdar roupas de irmãos mais velhos, parentes, ou seja, quem fosse era uma prática necessária naqueles idos de 1985. Combinar cores e padrões não era uma opção. Vestia-se o que se podia vestir. Andar molambento, outrora uma necessidade já se tornara uma marca, até que veio o primeiro “banho de loja”.

A caminhada da Vila Amaral até o local de trabalho, na Barão do Rio Branco quase esquina com Ulisses Faria, era longa e naquele dia cheguei meio atrasado. Minha colega de trabalho e instrutora na arte da floricultura já tinha aberto a loja e folhava uma revista que estampava na capa uma foto do vocalista da banda RPM, cujas músicas tocavam o dia inteiro nas rádios. Começamos a falar dos trajes das celebridades da revista e alguns minutos depois a Vilmari havia se tornado minha consultora de moda. As dicas foram importantes e no final do dia eu tinha uma sacola com um vermelho, uma calça e um tênis e é claro, algumas prestações para os próximos meses. Depois disso fico impossível falar com a amiga Vilmari e não lembrar de RPM e “roupa Nova”!

A floricultura mudou de endereço. Foi para a rua 21 de setembro, esquina com a Dr. Paulo Fortes. Em frente tinha a matriz dos supermercados 70 que a época tinha um setor de roupas. Ali fiz outra compra, dessa vez um traje preto. Pesando apenas 59 kg, todo de preto. Parecia um risco de lápis!

Sábado à noite era a estreia do traje. Era dia de bailão no CTG Rancho Alegre, mas conhecido como bailão do Seu Belmiro. “Os Müller” tocaram lá aquela noite e fui mais cedo porque na época me dedicava a aprender música. Parei no portão de acesso para aguardar a chegada dos amigos. Avistei um rapaz vindo e vi a hora que ele escondeu algo numa moita de capim ao lado de um toco de cinamomo que havia próximo à cerca. Eu estava no escuro e ele não me viu. Esperei que entrasse no baile e fui lá olhar o que era. Ali, com a ponta enterrada no chão estava um punhal, com uns 20 cm de lâmina extremamente afiada dos dois lados. Decidi levar a arma pra casa. Atravessando pelos potreiros eram menos de 10 minutos de caminhada. Mas não foi uma boa ideia!

Na metade do caminho, a luz fraca da lua crescente me permitiu ver que vinham três ou quatro pessoas. Pela conversa eram pescadores voltando do Rio Iguaçu. Me dei conta de que se eles percebessem a faca na minha mão poderiam achar que eu a usaria contra eles. Tive a péssima ideia de esconder o punhal sem bainha no bolso da calça. Não sei quem eram os pescadores, mas um deles me chamou pelo sobrenome ao passar. – Aonde vai Ferrazinho, parece uma assombração! – Cheguei em casa e percebi o prejuízo. A lâminha havia atravessado a perna direita da calça. Lazarento! Mas não tá morto quem peleia! Costurei o furo de qualquer jeito e voltei ao bailão.

O salão era pequeno, o teto sem forro e as paredes de tabuão de pinheiro eram pintadas de verde claro. O piso de cimento queimado gerava muito atrito com as solas dos sapatos e em dia de chuva a lama secava e aos poucos era convertida em pó, que misturado com a fumaça de cigarro e da fritura dos pastéis no boliche ao lado do palco, formavam uma névoa, por isso, se não tivesse chovendo, as janelas eram mantidas abertas. Serviam pra ventilar e também como saída de emergência no caso de estourar uma peleia.

Às duas horas da manhã a banda fez uma pausa para a realização do tradicional leilão do frango assado. Nesse momento identifiquei o dono do punhal. Ele se empenhava em provocar uma briga. Derramou cerveja por cima de pessoas e começou uma discussão. Nessa hora tive a certeza de que ele pretendia fazer uso do punhal. Os organizadores do baile acalmaram os briguentos e a diversão continuou, mas o dono da lâmina passou a chamar os desafetos para resolver as coisas lá na rua. E assim foi atraindo os adversários para perto do local onde escondeu o punhal e quando julgou estar perto o suficiente, soltou todos os palavrões do repertório. Quando estavam chegando ao alcance, se agachou pra pegar a arma, mas não achou nada.

O briguento mal intencionado conseguiu fugir pulando uma cerca de arame farpado e assim evitou de tomar uma surra. Voltamos ao baile, mais um frango foi leiloado e tudo correu bem até o fim. O sistema era bruto, mas a saudade é grande!

Luís Ferraz
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