O jornalismo é uma obra incompleta. Sempre haverá um bolsão de possibilidades a serem exploradas na execução de cada pauta, mas cabe ao jornalista decidir quando pôr um ponto final na escrita e publicar a notícia. A sensação de incompletude sempre persegue aqueles com traços perfeccionistas. Do outro lado, o leitor precisa receber as principais informações de relevância pública; mas se sente a falta de algo, não importa o quão discutível seja, o peso sempre cairá sobre os ombros do jornalista.

Do alto de sua maestria literária, Umberto Eco (1932-2016) escreveu sobre um jornal que nunca foi publicado. Em O Número Zero (Record, 2015) o autor italiano narra a história de uma apuração sem fim. Ao começar a apuração o jornalista se envolve com a história, é levado a descobrir o verdadeiro desfecho da Segunda Guerra Mundial mas, quanto mais pensava estar próximo de liberar o texto para a publicação – e sofrendo incontáveis pressões dentro da redação e ameaças de morte fora dela – descobria mais coisas sem as quais não faria sentido publicar a história, estaria incompleta, sem toda a informação necessária.

Os jornalistas brasileiros contemporâneos deveriam retomar suas anotações dos tempos de graduação (se é que a tenham). A cobertura política atual, nacional e internacional, mostra-se tão cheia de lacunas, com tantas informações desencontradas e meias verdades que os grandes nomes que construíram a história da imprensa nacional devem se revirar no túmulo.

Falta-lhes compreender que a “era da desinformação” e das chamadas “fakenews” em que vivemos foi possível em grande medida (mas não apenas) por conta do desserviço prestado por jornalistas que se vergam às pressões políticas, econômicas ou colocam suas verdades de fé sobre os acontecimentos.

Que fazer, então? Estudar, ler e, sobretudo, apurar. Apurar, apurar e apurar mais. Jornalismo que não se opõe é publicidade. Desenterrar histórias escondidas, promover o debate público. Eis a magna função do jornalismo na sociedade! Enquanto os jornalistas brasileiros ficarem nas histórias fáceis do senso comum, a sociedade perde a cada dia.

Texto escrito por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Redação do jornal Gazeta Informativa

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