(Foto: Divulgação)

Em junho de 1983, toda a vila onde eu morava, onde nasci e passei a infância ficou debaixo d’água. Na nossa casa o nível da água ficou acima das janelas e até hoje não entendo como a pequena casa de madeira não foi carregada pela água. Eu estudava no curso noturno do Colégio Duque de Caxias e nos preparávamos para a grande festa junina, tradição do colégio. Todas as noites ensaiávamos a dança da quadrilha. A chuva forte e persistente foi enchendo o Rio Iguaçu e em poucos dias a água invadiu residências e expulsou moradores. Éramos todos flagelados da enchente.

Em poucos dias a expectativa de uma festa animada se transformou na tristeza de abandonar o lar. Como é ruim sair de casa às pressas, sem planejar, sem desejar sair. Como é ruim morar em lugares estranhos e depender do favor, da caridade para ter uma refeição, um banho, uma roupa seca. O caminhão da prefeitura levou alguns móveis, colchões, roupas, enfim as tralhas que pudemos carregar. Eu fugi da enchente a pé, com alguns dos irmãos. Carregava apenas uma mochila com os cadernos e livros do colégio. Na hora de sair, foi o que me sobrou de importante a levar. Hoje, vendo as notícias e imagens da guerra na Ucrânia e do sofrimento dos refugiados, lembrei dessa fuga da enchente. A comparação não é justa, eu sei, mas a ideia de colocar tudo que importa numa mochila e sair sem conhecer o destino é parecida. O que eu carregaria na mochila se precisasse sair de casa fugindo de uma guerra. Essa é a reflexão de hoje.

Numa polarização que já está se tornando uma tradição em nosso país, as discussões predominantes são sobre quem tem razão na guerra na Ucrânia. Volodymir Zelenski ou Vladimir Putin? O que vemos é um exército invadindo um país, muita gente morrendo e até agora mais de meio milhão de refugiados. Essas pessoas deixaram suas vidas para trás. Quando e se voltarem, encontrarão cidades, casas, igrejas, escolas, estradas, pontes, destruídos. Serão poucos os que retornarão serenos, tranquilos. A maioria que voltar para casa vai trazer consigo o trauma do flagelo, a amargura, a sensação de impotência e o medo constante. Não é como se refugiar de uma enchente na parte alta da cidade e esperar a água baixar.

Muitas das famílias que foram separadas nesta semana para que mulheres, crianças e idosos pudessem fugir da Ucrânia e homens jovens ficassem para lutar, nunca mais se encontrarão. A crueldade da guerra deixará muitas viúvas e órfãos e a história de muitos vai se resumir ao que levou na mochila pois talvez não voltem para casa por se tornarem vítimas fatais da insensatez, da crueldade humana.

Se tivesse que sair de casa hoje, pra fugir de bombardeios e batalhas sangrentas, o que você colocaria numa mochila. Pensar sobre isso nos dá uma dimensão diferente da vida. As coisas que nos são mais caras, não podem ser levadas numa mochila e não me refiro somente às coisas materiais. A segurança de ter um lugar pra dormir, uma mesa pra se reunir com a família para uma simples refeição, aquela caminhada até a padaria cumprimentando conhecidos, o encontro na igreja, a escola, os amigos. Tua bagagem pode ser resumida aos documentos pessoais, um telefone celular, uma garrafa d’água e um casaco.

Outros conflitos geraram deslocamento de refugiados e é um erro afirmar que não se deu importância para eles. A grande diferença é que estamos na era das redes sociais e a guerra se desenvolve numa região com acesso pleno à internet. Bombardeios estão sendo transmitidos em tempo real e mostrando imagens que há vinte anos dependeriam dos fotojornalistas enviados por agências de notícias.

E você, o que levaria na mochila?

Luís Ferraz
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