Há algumas semanas estava trabalhando, como de costume, quando observei um garotinho brincando no balanço que fica quase de frente ao escritório, no outro lado da rua, que comentei em outra oportunidade. Ele saiu quando chegaram outras crianças e veio parar no meu portão para brincar com um gato que sempre está rondando por aqui.

Falando nisso, era uma cena bonita, ele sentou na calçada e começou a brincar com o gato como se fossem velhos amigos. Achei curioso, pois nunca consegui me aproximar desse felino. Ele parecia que conversava com o gato e eu observava de onde estava, aquele papo bem em frente ao meu portão, e parecia animado e eu não entendia o que ele falava, mas parecia explicar alguma coisa. De repente o gato se foi correndo, e o garotinho ficou ali sentado na calçada em frente ao portão e passaram-se alguns minutos e ele ali sentado. Acabei levantando e fui devagar até ele, e perguntei se estava tudo bem, tranquilamente para não assustá-lo. Fiquei apoiado na grade do portão para dentro do terreno e ele sentado na calçada, virou-se sorriu e do nada me perguntou, “O que você fazia tio?”. Perguntei, “O que eu faria com o quê?”. Não imaginei aquela resposta dele. “Minha mãe falou que não vâmo morar com meu pai”.

Caramba, pensei com meus botões, e agora? Bom, a minha primeira atitude para poder raciocinar direito, foi perguntar o nome dele e quantos anos tinha. Ele me disse o nome e que tinha 6 anos. O que você fala para uma criança de 6 anos, que você não conhece e que te fala assim na lata, que seus pais vão se separar? Eu comentei com ele que não ficasse preocupado, pois gente grande é bem complicada mesmo e que isso era coisa que o papai e a mamãe tinham que resolver e que às vezes é só por um tempo, e às vezes nem acontece. Ele falou que o pai não estava mais em casa. Imaginei que as coisas eram mais sérias do que eu imaginava ou estava torcendo pra ser.

Eu respirei fundo, e perguntei pra ele se conhecia a Bíblia, e ele disse que sim. Eu perguntei pra ele se ele então conhecia os Dez Mandamentos? Ele me disse que a tia já falou disso. Então peguei o gancho e falei para ele o que já repeti algumas vezes com crianças e com pais, amigos, conhecidos ou mesmo desconhecidos (que por acaso encontro pelo caminho) que estão se separando. Conhecendo os Dez Mandamentos, eu falo que lembrem que tem um mandamento (o quinto mandamento) que diz assim, “Honrar pai e mãe” e então eu falei para o pequeno, que nunca deixe ninguém falar mal nem do papai e nem da mamãe, que era um pedido de Deus. Disse que Deus sabia que um dia aconteceria problemas entre os pais, que não era uma coisa que Deus gostaria, mas acontece, e principalmente que isso não tinha nada com ele, que era coisa de gente grande, que se alguém falasse que era culpa dele ou de algum irmãozinho, que não era verdade, gente grande é complicada mesmo. Então, a gente nunca deveria deixar ninguém falar mal nem do nosso papai e nem da nossa mamãe. Falei também que isso se referia também ao papai falar mal da mamãe e da mamãe falar mal do papai, que ele não deixasse que isso acontecesse.

Muitos casais se separam e querem que os filhos fiquem “do lado” deles, e tentam colocar os filhos contra o outro cônjuge, querendo punir o outro. Isso na verdade acaba prejudicando ainda mais a cabecinha dos filhos, principalmente dos pequenos. “Ah, mas são pequenos e eles nem entendem direito…” muitos me respondem, e é verdade, eles não entendem que “do nada” devem deixar de gostar do pai ou da mãe. A separação é do casal e não é por isso que as crianças deixam de ser filhos de um ou do outro, pai e mãe é pra sempre, entendem isso na hora de querer falar mal um do outro. Querem falar, direito de vocês, mas não é certo e nem direito usar os filhos para isso. Um filho que fica com raiva do pai ou da mãe, terá problemas para toda a vida. Não criem mais problemas que a ausência de um ou de outro já vai causar na vida dos filhos.

Expliquei isso para o garotinho, que às vezes o papai ou vovô ou mesmo a vovó iria querer falar mal da mamãe (vice-versa), e que não era pra deixar isso acontecer, que ninguém pode falar mal deles. Por isso Deus colocou nos Dez Mandamentos, deixou escrito na Bíblia pra ninguém esquecer disso, mas muita gente esquece de ler, mas pedi pra ele me prometer não esquecer disso. Ele prometeu e me cumprimentou com aquele “soquinho” de mãos e voltou então para o balanço que estava vazio novamente, mas alguém o chamou e ele se foi, saindo da minha vista.

Isso eu fiz com meus filhos quando me separei, falei que nem eu mesmo eles deveriam deixar falar mal da mãe deles, se acaso algum dia tentasse fazer isso, e o contrário também. Creio que evitei muitos anos de terapia pra eles e tantos outros problemas. Pois sei que houve algumas tentativas que foram educadas e respeitosamente repelidas por eles.

Escrevo isso porque recebi uma mensagem da mãe do garotinho, passados quase um mês da conversa. Ela me agradeceu, pois o pequeno andou chamando a atenção de algumas pessoas, inclusive dela, a respeito de falar alguma coisa do pai ou da mãe. Ela me disse que perguntou de onde ele tirou isso e ela me falou que ele disse que foi o homem do gato… descrevendo a situação pra ela. Ela descobriu meu nome e me enviou no Messenger um agradecimento.

Fui professor por muito tempo e sei o mal que se faz numa separação quando se coloca uma criança contra seus pais, eu via o resultado em sala de aula. Por favor, lembre-se que não existe ex-pai e nem ex-mãe, e é bíblico… Honrar pai e mãe.

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