Mentes Inquietas

O real como objeto do espetáculo virtual

(Imagem Ilustrativa)

Há uma série de versões para o mito de Narciso. A mais corrente diz que se tratava de um jovem de notório capital estético, que teria uma longa vida desde que nunca visse o próprio reflexo. Homens e mulheres ficavam maravilhados com sua aparência. Em decorrência, um grande número de pessoas se apaixonava por Narciso e eram menosprezadas, tratadas com arrogância. As pessoas desprezadas pediam aos deuses que proporcionassem vingança contra o belo jovem, até que a deusa Némesis o condenou a se apaixonar pelo próprio reflexo. Inclinado à margem de um rio, onde definhou na contemplação da própria imagem.

Abrimos o texto com esse pequeno resumo do mito de Narciso para introduzir questionamentos sobre a sociedade hodierna e o uso ininterrupto das redes sociais online, a consequente espetacularização da vida, a criação de imagens com intenção a representar o idílico e, em raros casos, o distópico, ambos com vistas a chamar a atenção, criar uma interessante e conclamar o ingresso a um mundo social em constante trânsito e necessidade de reprodução de imagens.

A popularização das redes sociais online trouxe consigo uma série de novidades antes inimagináveis, como a possibilidade de contatar instantaneamente por meio de texto, áudio, imagens e vídeos, qualquer sujeito em particular ou, então a chance de publicar o que desejar para que todos tenham acesso. A potencialidade comunicacional originada pela internet não tem precedentes na história, bem como os desdobramentos sociais desta “nova mídia” têm impactos ainda não auferidos em sua totalidade – é sempre arriscado falar de relações que ainda estão em trânsito. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), dedicou considerável atenção à análise das relações sociais a partir da introdução e do uso das redes sociais online. Bauman observara que “para um jovem, o principal atrativo do mundo virtual é a ausência de contradições e objetivos conflitantes que rondam a vida offline” (BAUMAN, 2011. p.16)[1]. A observação de Bauman é importante: constantemente nota-se a criação de “bolhas” nas redes sociais, em que o sujeito se enclausura em suas convicções, não está aberto ao contraditório, reproduz mensagens convictas entre os seus, muitas vezes surreais, mas que são altamente creditadas pelos – passivos – leitores.

As redes sociais tornaram-se não apenas “ambiente” de reprodução de convicções políticas e afins, mas espaço de autoafirmação, de busca por reconhecimento instantâneo e da criação de realidades alternativas nas quais a existência torna-se mais confortável e as ações da vida, mais interessantes. É nesse sentido que se configura o permanente estado de isolamento das relações sociais materiais, do contato direto com outro ser humano e da troca de experiências. Amigos se encontram para um café mas cada qual se enclausura em seu próprio mundo virtual, outrossim o clamor do imediatismo da rede suplanta o convívio real. Caminhar pela rua, observar estrelas, discutir filosofia, política, economia ou até mesmo fofocar sobre a vida alheia passou a ser intercalada com olhar e ouvidos atentos a novas notificações. A ilusão de estar em companhia é ampla, “o dia inteiro, sete dias por semana, basta apertar um botão para fazer aparecer companhia do meio de uma multidão de solitários” (BAUMAN, 2011. p.10).

Em 1967, o escritor francês Guy Debord (1931-1994) publicou seu livro A sociedade do espetáculo, no qual critica os caminhos da sociedade de seu tempo pela criação de aparências difundidas em detrimento do real; à criação de mundos imaginados que se tornam “reais” na medida em que orientam as relações cotidianas. Mesmo 51 anos após sua publicação original, o texto de Debord continua atual. As mais populares redes sociais online (Facebook, Twitter e Instagram) contam com um número crescente de usuários ao redor do planeta; não é difícil constatar que muitos desses usuários se empenha na divulgação de suas atividades particulares com frequência cada vez maior, e o número de reações positivas recebidas orienta o crescimento do número de publicações. O império das selfies (nome colonizado do antes chamado autorretrato) erigiu-se: há quem publique imagens de si todos os dias – ou com alta frequência –, não aceita críticas ou indagações e contenta-se com comentários falsos e bajuladores. Em suma, muito do que é feito é em busca da elevação do ego pelo capital estético e da afirmação de condições materiais. Qual a necessidade dioturna de publicar imagens dos pratos que consome? Qual a necessidade de expor os filhos aos olhares da rede? Até que ponto o direito à imagem – à identidade, à privacidade – de crianças é respeitado?

É, também, na rede que muitos externam o ódio reprimido. Expõe o racismo, a homofobia, a misoginia, a intolerância política. Não raro, essas atitudes ofendem profundamente e geram certa repercussão e questionamentos sobre o uso correto da internet. Uma nova categoria de crimes – o cibernético – surgiu há pouco tempo e, com ele, uma série de questionamentos sobre os limites e possibilidades que se têm na rede. O caso do ator que denunciou ofensas racistas contra sua filha adotiva é interessante. A intolerância contra diversas etnias é um estigma da nossa sociedade, uma violência que apenas a racionalidade pode erradicar, e se manifesta contra uma criança, ser socialmente denominado puro, que nada fez de mal. Para além disso, a questão é: até que ponto é aceitável expor a imagem de uma criança em uma rede global? Onde fica o direito à privacidade da pequena cidadã que ainda não compreende minimamente a dimensão das coisas que ocorrem ao seu redor? Temos, neste caso, dois problemas distintos mas de ampla importância: 1) os pais, extasiados pelo mundo das imagens e da aceitação de si próprios, que reproduzem incessantemente a imagem de sua filha e são recompensados com um vasto número de reações positivas e, 2) o problema do racismo estrutural que permeia a sociedade em todas as suas formas de comunicação e que ocorre mesmo sem as plataformas da rede.

Quando falamos da afirmação das condições materiais, nos referimos a um dos mitos da sociedade capitalista. A posse, a ostentação de bens como símbolo de uma vida profícua. Debord nos diz que “o espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa”. Para compreender isso, recorremos a Feuerbach, citado por Debord. Em A essência do cristianismo, Feuerbach observa que a criação de representações, de aparências, tornou-se amplamente preferível em detrimento do ser; “o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e a ilusão cresce”, escreveu de maneira perspicaz o filósofo alemão.

O espetáculo que se vê nas redes sociais não é somente para o convencimento de quem interage com as imagens, mas é um exercício de auto-convencimento. De que adianta viver se não é possível mostrar? De que adianta existir sem ser visto? Os laços sociais mostram-se cada vez mais frouxos e substituíveis. A constante autoafirmação dá para alguns amplo reconhecimento, tornam-se referências e influenciadores das tendências de cada período nas redes. Pessoas se tornam reconhecidas não por mérito outro do que por constantemente captar a atenção por alguns instantes. Quando a vida real torna-se extensão do virtual, e não o contrário, urge rever e questionar o caminho que estamos traçando.

Nota-se nos círculos sociais um acentuado aumento no número de pessoas que são diagnosticadas com ansiedade e/ou depressão. Até que ponto somos capazes de nos alarmar com isso? Não nos colocamos aqui na condição de pesquisadores da mente humana para traçar um diagnóstico apontando as causas que levam ao surgimento dessas disfunções, mas sim trazer questionamentos sobre o reflexo de tudo isso nas redes sociais online. Desde a massiva adoção das ferramentas de comunicação proporcionadas pela internet, o processo de envio de uma mensagem que poderia levar três meses pelo correio, leva um segundo (ou menos) para ser entregue a alguém do outro lado do planeta. Desaprendemos a aguardar, deixamos de ter paciência. Caso uma página da internet leve 10 segundos ou mais para carregar, é motivo para estresse. Dez segundos. Não aguardamos mais pela disponibilização de um filme, por uma resposta que necessita ser pensada. Há casos em que se o interlocutor leva mais de cinco minutos para responder, é motivo para crise.

As gerações mais novas crescem habituadas à efemeridade, às mensagens curtas e ao on demand. O ponto é que a efemeridade e extrema velocidade proporcionada pela web redunda, talvez, na maneira como as pessoas se relacionam no virtual e no real. Ao invés de o dispositivo servir como um meio para possibilitar a extensão de um diálogo presencial ou por onde é possibilitada a troca de informações úteis para um encontro real, tornou-se começo, meio e fim para o qual é necessário que haja intercâmbio de relações reais para abastecê-lo e sua engrenagem continuar girando. A grande questão do nosso tempo é que o mundo passou a ser objeto da virtualidade; a conexão estabelece suas próprias regras, que passam a orientar as relações sociais na medida em que a atenção ao presencial é compartilhada com os seguidores solitários que invejam a solidão daqueles que estão em grupo.

Por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do grupo de estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

[1] 44 cartas do mundo líquido moderno. Zahar, 2011.

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Entre a liberação dos agrotóxicos e a restrição dos orgânicos: movimentos recentes do congresso nacional
Mosca na Sopa
Em permanente estado de exceção! (I)