Fotografia: Montagem de imagem retirada do Portal das Missões https://www.portaldasmissoes.com/municipios/santo-angelo/noticias/view/id/99/conheca-a-lenda-do-sepe-tiaraju sobre fotografia de domínio publico.

Para concretização de um acordo que ficou conhecido como Tratado de Madri, firmado entre Espanha e Portugal em 1750, os povos Guaranis deveriam abandonar as sete aldeias existentes na margem oriental do rio Uruguai, território hoje integrado ao estado do Rio Grande do Sul. Os índios, com apoio ou influência dos jesuítas, não aceitaram o tratado e teve início assim a Guerra Guaranítica, na qual os sete povos das missões combateram espanhóis e portugueses.

Os indígenas obtiveram diversas vitórias, mas em 7 de fevereiro de 1756 foram dizimados na batalha de Caiboaté (nas proximidades da cidade gaúcha de São Gabriel). Sepé Tiaraju era o líder indígena e morreu em combate junto com outros 1500 índios. Mesmo derrotado e morto, os feitos de Sepé o tornaram uma lenda e passados mais de dois séculos, ele ainda é venerado e até mesmo considerado santo por parte da população da região. O guerreiro guarani resistiu ao tempo e sua história atravessou fronteiras. Mas, como o bravo Tiaraju, morto em 1756, veio parar na história de São Mateus do Sul dos anos 1990?

A segunda metade daquela década inspirava confiança. Nossa seleção de futebol, depois de mais de duas décadas, havia ganho a Copa do Mundo. O fantasma da inflação que castigara brasileiros durante muitos anos estava finalmente sob controle. Era um bom momento no país e a pacata Samas (São Mateus do Sul) era um lugar sereno, com poucos acontecimentos fora da rotina.

Era o meio da tarde e o casal fazia um lanche enquanto conversava sobre as atividades na chácara, programadas para o outro dia. Mas, uma coisa começava a preocupar. O amigo que sempre estava em volta nesses momentos já deveria ter aparecido. Sepé Tiaraju, o cão dinamarquês da família, tinha o hábito de visitar os vizinhos. Certa vez ao voltar do trabalho (sim, eu morei na João Gabriel) o encontrei dormindo em minha varanda. Ao me ouvir chegar, levantou a cabeça, me olhou e voltou a deitar, como quem diz – ah, é só o vizinho chegando, volto a dormir. O nome, uma homenagem ao guerreiro guarani, era perfeito. Era alto, forte e destemido e se necessário feroz. Quando anoitecia e ele defendia o espaço da família na esquina da “João Gabriel” com a “Luiz Damaso” ou na chácara, seu latido grave parecia entonar a frase atribuída ao índio missioneiro. “Esta terra tem dono”.

Romeu, que preparava um suco para o lanche enquanto pensava por onde andaria Sepé, viu um menino descendo a rua. Pedalava uma pequena bicicleta cuja roda da frente, torta pela falta de alguns raios, fazia movimentos engraçados, parecendo copiar o zig-zag formado pelas junções dos bloquetes que formavam o pavimento. As roupas puídas denotavam pobreza. O menino parou em frente a casa, encostou a maltratada Caloi na cerca e falou com firmeza:

– Esse bilhete é pra você – enquanto entregava um pedaço de papel que tirara do bolso da calça. As mãos sujas de graxa mostravam que a corrente caiu pelo menos uma vez no caminho. – Tamo com teu cachorro. Vai ter que pagar resgate – O recado era direto e objetivo.

O guerreiro Sepé era cativo! Mas, como um cão daquele tamanho foi levado por meninos? Haveria algum adulto por trás desse sequestro? Nenhum vizinho viu nada, nenhum latido. Só havia uma explicação. Sepé deve ter ido por conta própria para o cativeiro e se fez isso é porque não percebeu maldade verdadeira nos meninos. Havia esperança de salvar Sepé e quem sabe tirar os meninos de um caminho perigoso.

Antes de responder ao pedido de resgate, Romeu resolveu puxar prosa com o aprendiz de meliante.

– Escuta rapaz, nós íamos fazer um lanche. Você não quer entrar, tomar um suco? Quem sabe aceita um sanduíche de queijo? – O menino acenou com a cabeça em sinal afirmativo e entrou. Olhou para a casinha do Sepé e percebeu que caberia facilmente dentro dela. Comeu o sanduíche e tomou o suco em silêncio, observado por Romeu e Edi, os apreensivos donos do Sepé. – Escuta menino, meu Jipe já tá na rua mesmo, você não quer ir comigo lá onde tá o meu cachorro? – Mas e minha bicicleta? – Cabe facilmente no jipe, não se preocupe – o mensageiro havia trocado de lado. Por precaução, visto que não sabia o que encontraria no cativeiro, a polícia foi avisada e uma viatura seguiu o jipe. Poucos minutos para chegar. O menino saltou do jipe sob o olhar de reprovação de outro, mais velho, que estava no pátio.

No fundo do terreno podia ser vista uma casinha de cachorro já bem velha. Pelas dimensões poderia talvez abrigar no máximo um Pinscher Nº2. Amarrado a ela por uma corrente, e obviamente deitado do lado de fora, estava Sepé, que ouviu o barulho, levantou e ficou observando sem nem latir. Parecia curioso para ver como terminaria sua aventura. O menino mensageiro pegou a bicicleta que Romeu desceu do jipe e desapareceu para dentro de casa.

– O que vocês querem aqui? – disse o rapaz. – Como assim? É óbvio que vim buscar meu cachorro! – falou Romeu, já não tão sereno. O policial se aproximou, mas não disse nada, preferiu estudar a situação. Sabia que embora parecesse simples, era um crime e teria que estar atento. – O cachorro é meu. Se você diz que é teu, então prove. Se provar pode levar. – O policial esboçou reação de intervir, mas Romeu fez sinal de que estava tudo bem. – Quer uma prova? Deixa comigo: Sepé. Vamos pra casa amigo! – Nessa hora até o policial teve que rir. Uma casinha de Pinscher sendo arrastada por um Dinamarquês de aproximadamente 50 kg e mais de 70 cm de altura. Mais parecia uma pandorga num dia de vento forte. Sepé Tiaraju passou por todos correndo, saltou para dentro do Jipe e a casinha ficou pendurada, balançando com um pêndulo.

Não havendo mais nenhuma dúvida sobre a guarda do cão, voltaram para casa. O dócil Dinamarquês ainda viveu outras aventuras antes de partir para talvez encontrar seu homônimo Sepé Tiarajú.

Luís Ferraz
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