(Leandro Couri/EM)

Trabalho primoroso do fotógrafo Leandro Couri, essa imagem feita em Belo Horizonte no último dia 7 de setembro tem o poder de resumir a convulsão social instalada em nosso país. Todos nós somos influenciados de alguma forma ao observarmos uma imagem. Até aquele que afirma não dar importância à fotografia, seja ela estática ou em movimento. Mas nem todos percebem que sofrem essa influência e um outro grande número perde a oportunidade de apreciar uma imagem por falta de treinamento do olhar. Vamos fazer um exercício com essa, aproveitando que o tema é atualíssimo, controverso e polêmico? Te convido a baixar a guarda, deixar preconceitos um pouquinho de lado para essa viagem. Ah! E não precisa concordar com nada. Apenas exercite sua mente. Com sorte isso se torna um hábito. Te garanto: É uma delícia!

Na imagem vemos ao fundo, pintado aparentemente colada na parede porque na borda inferior esquerda parece começar a soltar, a propaganda de uma instituição de ensino que parece propor uma conexão com o país mais rico e poderoso do mundo, os Estados Unidos. Chineses não concordam, mas isso é assunto pra outro dia. A conexão com a terra do Tio Sam é um sonho de muitos, talvez a maioria dos brasileiros, provavelmente influenciados pelo cinema norte americano, que soube como ninguém colocar seu ufanismo nas entrelinhas dos roteiros. Na foto, o trajeto da “família tradicional brasileira” que caminha na calçada vai tangenciar o anúncio, dando uma ideia de que esse sonho fica para outra oportunidade. A prioridade agora é outra.

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O menino, da borda direita da imagem, caminha cabisbaixo, mas não de tristeza. Para ele é um programa de feriado legal. Um passeio com a família com uma novidade. A bandeira do Brasil usada como um manto. Podemos inferir que seja uma novidade novamente lendo a imagem. Observem que os amassados quadriculados, as cores vivas, sem desgaste indicam que é a primeira vez que essas bandeiras são usadas. Provavelmente compradas no dia anterior e com grande probabilidade de terem sido fabricadas na China, que também muito provavelmente essa família tenha aprendido a odiar, ainda que não entenda bem o motivo. Mas o comércio é assim, enquanto uns choram, outros vendem lenços. Quem nunca, ao andar pelo centro de Curitiba, encontrou um vendedor de guarda-chuva dois minutos depois que a chuva começou? Business, my friend!

A imagem dos diz mais! A parede da fachada, parece ser revestida com placas de mármore, material nobre que em alguns países jamais seria usado para essa aplicação. Mas somos exportadores. Temos em abundância. Atualmente nosso país ocupa a quarta posição no mercado mundial, atrás de Estados Unidos, China e Itália. Nossas exportações desse produto estão próximas de 1 bilhão de dólares ao ano. Em torno de 80% do mármore brasileiro sai do estado do Espírito Santo.

O menino calça sandálias. Um detalhe pequeno, mas significativo. Crianças são a maior riqueza que temos e são humildes, até que seus pais a estraguem com bajulação e maus exemplos. Sandálias sempre tornam elegantes a pessoa que tem coração verdadeiramente humilde.

À esquerda, a esquerda! As tiras azuis na parede, centralizadas por uma figura em forma de ponta de seta, chamam o olhar para aquele, ou aquilo, que a família que passa na calçada não viu, ou não quis ver. O morador de rua.

Esses invisíveis, se receberem uma bandeira, farão o uso mais lógico dela em seu mundo invisível. Usarão como abrigo do frio! Esses homens e mulheres não vislumbram uma conexão com os EUA e tampouco admiram Cuba ou Venezuela e também não sabem quem são os ministros do STF. O motivo da comemoração da data, para estes brasileiros, não existe. São dependentes em todos os sentidos. Precisam da caridade para sobreviver mais um dia. A caixa de limpol, que em algumas regiões do país se tornou sinônimo não oficial de detergente, comercializada desde 1978 pela empresa Bombril S/A, é o armário, o criado mudo, a mala ou a mesa desse homem. Objetos dos que moram na rua de fato precisam ter mil e uma utilidades, como dizia Carlos Moreno, garoto propaganda da Bombril.

Mais à esquerda da imagem, vemos uma caixa, embalagem de venda dos liquidificadores Arno. Essa empresa, cuja história do fundador começa em 1882, na Itália, foi fundada por Hans Arnstein, que se instalou no Brasil temendo os rumos de sua terra natal quando Mussolini começou a se alinhar com Adolf Hitler. No Brasil ele inclusive mudou seu nome para João, integrando-se assim plenamente ao nosso país. João e José são os nomes de homem mais comuns em nosso país. A probabilidade desse morador de rua ter um desses nomes é enorme, mas as chances de seu sobrenome ser Arnstein são quase nulas!

Vemos ainda na imagem, pelo menos duas garrafas PET (Polietileno tereftalato ou Tereftalato de Etileno), da família do poliéster, que se tornaram item indispensável nesse cruel enxoval do morador de rua e também um velho colchão de espuma de poliuretano. O que nos remete à presença constante dos subprodutos de petróleo em todas as cenas cotidianas, ricas, pobres ou miseráveis, mas este também é assunto para outra hora.

O poliéster, que está no “enxoval” do sem-teto, também está nos calçados, nas roupas e bandeira da família que passa, o que pode dar uma ideia de proximidade ou de conexão, mas pelo contrário, há um abismo entre eles. Essa diferença é cruel, é brutal, é uma ferida exposta. São mais de 220 mil brasileiros morando nas ruas hoje, pelas mais diversas razões. Os motivos que os levaram para lá são diversos e isso precisa ser estudado para evitar que outros sigam o mesmo caminho. Mas hoje, agora, o que importa é que os que já estão nessa situação não saem dela sem ajuda e gostemos ou não, o homem deitado na calçada é tão brasileiro quanto a família que passa na rua coberta pela bandeira nacional.

“Não fotografa com sua câmera, você fotografa com toda a sua cultura”. Essa frase, dita por Sebastião Salgado, o mais aclamado fotógrafo brasileiro, reconhecido com um dos melhores do mundo de todos os tempos, é uma grande verdade e ao adotarmos o hábito de olhar todos os detalhes de uma fotografia, sentimos isso.

Luís Ferraz
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